segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Volta para boa e velha Sampa

No início dos anos 1990, com governo Collor, inflação descontrolada, sem novos desafios profissionais e ainda que gostasse da empresa onde trabalhava, Lena decidiu voltar para São Paulo e Odette resolveu ficar no Rio de Janeiro. A busca de novo emprego era feita semanalmente, quando a sobrinha Annamaria mandava o caderno de classificados do Estadão pelo correio. Na mesma época, Christian decidiu sair da casa dos pais. Então, por que não tia e sobrinho morarem juntos mais uma vez?

Para viabilizar a manutenção de duas residências, o melhor seria voltar à casa da rua George Ohm. Para tal, Vera e Odette se encarregaram pessoalmente da conversa com o então inquilino.

Foi assim que no segundo semestre de 1991, Christian se muda para ali com poucos móveis. E, em março de 1992, Lena é aprovada para assumir a gerência de comunicação na empresa de agronegócio Cargill.

A mudança para São Paulo foi feita em dois carros, com a ajuda de Christian e amigos e a sobrinha Paola – apenas roupas, livros, discos, uma estante e nada mais, parodiando uma velha canção.

Logo na primeira semana, a prima Idaicy deu sua antiga cama de casal e Chris ganhou dos pais uma estante e um mural de couro para a sala. Lena comprou televisão e um aparelho de vídeo, geladeira, máquina de lavar e fogão. Chris ajudava a pendurar quadros ou resolver problemas caseiros com martelo e prego que, segundo ele, eram muito práticos para qualquer problema caseiro!

Eric, primo do Christian, veio morar ali por alguns meses antes de casar, dividindo um quarto com Eduardo, amigo do Christian. E as doações para a montagem da casa continuaram, algumas feitas por Cristina – tia do Chris por parte de pai – que desmontou um apartamento. Foram várias viagens do Morumbi para o Brooklin, com entusiasmo pela dupla Lena e Chris.

Então, Lena decidiu reformar a casa – tarefa que ficou sob a responsabilidade da Vera Cecília, que ali também montou o seu ateliê de pintura.

Christian teve o quarto que sempre sonhou – feito para o seu tamanho – com uma cama alta, em que ele podia sentar e balançar os pés! E um banheiro com pia para sua altura. Logo, chegou também o cachorro Nero, que fez companhia para os dois e a alegria de quem ali chegasse para um almoço no final de semana ou uma hospedagem depois de uma festa.


Chris e Lena com Nero


Em 1995, depois da volta de Odette para São Paulo, aconteceu o primeiro casamento da segunda geração - Anna casa-se com Lauro, seu primeiro e único namorado, em uma bela festa com primos e tios.

Encontro de tios e primos 
no casamento da Anna e Lauro

Em 1996, Enrico deu de presente para a sogra Odette – que o considerava como filho – uma viagem para a Europa. Mais uma vez, ela mostrou coragem, viajando sozinha para Paris, onde iria se encontrar com a filha e o genro. 


Odette e Enrico em Paris

Ali, Vera mostrou a cidade das luzes para a mãe – andando de metrô e a pé. Certa tarde, Odette comentou com a filha: 

- Vera, quanto custa um táxi aqui? Eu pago, minha filha. Trouxe dinheiro! 

Quando chegaram no Palácio Versailles, novamente seu comentário mostrou como pensava o mundo:

- Verinha, é bonito, mas podiam asfaltar essas pedras. Seria melhor para andar...

Com carro alugado, foram para a Itália, onde Odette conviveu com alguns parentes da Vera, e para a Suiça – onde o comentário da mãe mostrou suas origens de fazenda paulista:

- Mas, minha filha, as vacas daqui têm cada ubre grande!

Nesse mesmo ano, foi a vez de Lena e Chris partirem novamente para caminhos separados - primeiro Lena e o namorado foram morar juntos em uma casa no Alto de Pinheiros, levando o cachorro Nero. Em seguida, Christian ficou poucos meses na casa da avó que morava ali perto até seu casamento com Fabiana. 

A casa da rua George Ohm ficou para ser alugada por um tempo, sem sucesso. Então, Odette decidiu voltar a morar ali  e retornar ao convívio com antigos vizinhos e amigos. Nessa volta, Odette aumentou suas queixas de dores com reflexo nas costas – algo que já vinha sentindo desde quando morava no Rio de Janeiro. As dores foram crescendo em intensidade e, meses depois, ao visitar sobrinhos em Ribeirão Preto, seu sobrinho e médico Rubens a examinou e pediu alguns exames.

Lena a acompanhou e, com os resultados, ele orientou que se buscasse logo um neurologista. E, em 1998, após consulta e mais exames, o veredito foi uma operação urgente para extrair um tumor na base na coluna.

Foram momentos difíceis para a família Miessva no Hospital 9 de Julho. No dia da cirurgia, as três filhas e o neto Christian ficaram ali em vigília durante a cirurgia, que durou oito horas. Nos seus 82 anos, ela resistiu bem, mas teve algumas complicações cardíacas que demandaram transferência para o Hospital do Coração. Foram dias de apreensão e com visitas de filhas, netas e sobrinhas.

A determinação de Odette mais uma vez foi colocada à prova nos meses de sua recuperação – durante dois dias, Vera a levava para a fisioterapia em hospital e nos outros três dias, um fisioterapeuta particular ia na sua casa. Durante meses, a sala foi transformada em quarto e várias cuidadoras passaram por ali. Alguns meses após a cirurgia, em um sábado, Lena chegou para visitar a mãe que preparou uma surpresa:

- Lena, quer ver algo?

E foi subindo a escada devagar, até chegar no andar de cima. As duas se abraçaram e choraram. Então, Odette mostrou mais uma vez seu jeito de ser:

- Então, minha filha, pode tirar a cama da sala, e vamos retomar a vida.

Os anos seguintes foram de muitas viagens e reuniões de família seja para praia de Itamambuca – onde Vera e Enrico recebiam a todos com enorme alegria na gostosa casa na rua 9 (e depois na rua 13) – e para São Carlos – onde Rosely e Luiz Carlos educavam com carinho e muita garra os quatro filhos.

Filhas e netas juntas celebrando dia das mães