terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Novos horizontes, separações e recasamentos

 A década de 1980 começou movimentada. Depois de muitas conversas e tristeza de ambos os lados, Vera e Enrico separaram-se e a casa construída na Granja Viana foi vendida. Em um dia de Natal, logo após almoço na casa dos tios Rui e Tibi, Odette tem um mal estar e Lena a leva para o pronto socorro do Hospital São Luiz que ficava perto. Felizmente, não foi nada sério e segundo o parecer médico, ela deveria se poupar e evitar morar em casa com escadas. Isso significava mudar da rua George Ohm, alugar a casa e procurar um aparamento. 

Assim, Lena e Odette mudaram-se do Brooklin para a Vila Nova Conceição, na rua Eduardo Souza Aranha, bairro com tantas memórias afetivas em contrato de locação firmado pela filha caçula com vinte e poucos anos. Ambas estranharam um pouco no começo a nova moradia. Na primeira noite, Lena contou os passos entre a cozinha e área de serviço - três com folga! Entretanto, como a característica familiar era se adaptar e olhar a metade do copo cheio, viu o lado bom que era estar perto do seu trabalho - tinha iniciado a carreira como jornalista no Pão de Açúcar e a redação do jornal interno Pãozinho ficava na Alameda Lorena, perto da Av. Brig. Luiz Antonio, então sede do Grupo Pão de Açúcar. 

Lena na redação do jornal Pãozinho
As tardes de Odette ficaram mais movimentadas com as visitas do irmão Namá ou de suas visitas ao irmão Rui e cunhada Tibi, que moravam distantes somente um quilômetro. E, passado um tempo, quem vem morar pertinho, no Itaim Bibi?

Após a venda da casa da Granja Viana, Vera Cecília e suas filhas Anna e Paola mudam-se para um apartamento encontrado por Vera em um domingo quando estava na garupa da moto pilotada pela Lena, que tinha conseguido comprar seu primeiro veículo - uma Honda CG 125cc! 

Então, todas as manhãs, Odette acordava cedinho para ficar na janela e acenava para as netas Anna e Paola que tomavam o ônibus na Av. Juscelino Kubistchek para o colégio na Granja Viana. Depois, claro, voltava a dormir, seguindo seu hábito de acordar mais tarde. Os finais de domingos eram reservados para as pizzas com Vera, que voltou a trabalhar em decoração de interiores. A convivência com Enrico seguia normalmente - pois independente de estar separado de Vera Cecília - ele tinha conquistado seu espaço e fazia parte da família.


Anna, Chris e Paola em poses no apartamento da Vera no Itaim Bibi

Em 1984, Christian foi para os Estados Unidos morar com seus tios Ernie e Hela. No jantar de despedida, Lena estava muito triste e Chris achou que era pela sua partida, ao que a Anna explicou:

- Não se preocupe, ela está chateada porque terminou um namoro!

No final do ano, depois de quatro anos e meio trabalhando no Grupo Pão de Açúcar, Lena decide procurar outro emprego e responde a um anúncio publicado na Folha de S. Paulo pois achou que correspondia a todas as exigências: menos de 30 anos, mais de três anos de experiência, disponibilidade para viajar (e como!), disponibilidade para mudar de cidade (por que não?). Então, lá foi o CV enviado com alguns exemplares do jornal interno - para tentar fazer a diferença na hora da seleção. Depois de um processo que teve mais de 70 candidatos, Lena é a escolhida para ser assistente de Comunicação da Souza Cruz. E a boa notícia: pagariam a mudança para o Rio de Janeiro e mais 15 dias de hotel perto do Posto 6, entre Copacabana e Ipanema.

Ainda que soubesse que morar no Rio de Janeiro era um velho sonho de Odette, Lena perguntou se ela queria ir ou ficar em São Paulo, onde estavam suas netas e toda a família. A resposta veio clara, unindo o emocional com o racional:

- Lena, você vai ter viajar bastante, não conhece ninguém lá e vai precisar de uma retaguarda para se dedicar à profissão e ficar tranquila. 

E completou, em mais uma intuição de sua vida:

 - Procure um apartamento que tenha palmeiras e jardim.

A filha caçula riu e respondeu:

- Mas, mãe, onde é que vou achar o apartamento que você está vendo?

Então, em 2 de janeiro de 1985, lá foi a Lena morar no Rio de Janeiro. Como tudo no universo é orquestrado, Enrico nessa época estava morando na Cidade Maravilhosa em um apartamento na Barra da tijuca e trabalhando no centro da cidade como diretor geral da Mido Relógios. 

No primeiro sábado, ela acordou cedo e de táxi foi à procura do apartamento para alugar, de olho no tempo que teria hotel pago pela empresa. Então, era achar ou achar. E não é que encontrou um lugar igualzinho ao descrito pela Odette? 

Uma cobertura pequena no bairro do Leme, e com um jardim grande, com jardineiras com pequenas palmeiras e várias plantas. Duas semanas depois, a mudança organizada por Vera e Odette chegou de São Paulo. Na véspera, as duas viajaram de trem para o Rio de Janeiro. 

Rio de Janeiro conquistou os corações das paulistas

Assim teve início um período gostoso nas vidas de Lena e Odette, com passeios de moto (Odette na garupa!) e depois com o Fiat 147. A cidade tinha tudo a ver com Odette, que logo fez amizades no bairro que parecia uma cidade pequena do interior. Certo sábado, Lena contou no relógio – a volta da praia do Leme até a porta do prédio - cerca de cinco quadras - foram 45 minutos! Andar ao lado de Odette era assim mesmo - ela parava para conversar com todos os comerciantes da rua e com amigos na agência bancária do Bradesco onde tinha conta bancária. Ficou até amiga do dr. Sylla, dono do apartamento, que fazia visitas regadas a café e prosa.  Enquanto isso, Lena tinha namorados e criava amizades duradouras.  

Em 1986, uma data especial foi celebrada com bela festa com filhas, genros, irmãos, irmãs, cunhadas e sobrinhos, ao lado de amigos de longa data. Eram os 70 de Odette e os 30 anos de Lena - celebrando a diferença de 40 anos, idade que Odette tinha ao ter a filha caçula. 

70 anos de Odette, 30 anos de Lena

Foram vários finais de ano passados na praia de Copacabana, de férias de verão com as crianças de Rosely e Luiz Carlos - Octávio, Bia, Olívia e Felipe - e com Anna e Paola, que tomavam o ônibus na Barra da Tijuca e iam sozinhas visitar a avó. 

Odette viajava também com frequência para São Paulo e, em contrapartida, irmãs e sobrinhos passavam alguns dias no gostoso apartamento. Ali, Rosely celebrou seus 40 anos. Ali, Enrico e Vera voltaram a namorar e ele retornou para morar em São Paulo e recasar com a Vera, em uma bela festa. Ali, a neta Olivia quando adolescente, chegava de ônibus vindo de São Carlos, para passar férias com a avó, que a buscava na rodoviária. Ali, Lena mudou de emprego e trabalhou cinco anos e meio na Bayer, no Complexo Industrial em Belford Roxo e conheceu a baixada fluminense como poucos cariocas. Na empresa alemã, aprendeu o conceito de Relações Comunitárias e criou projetos como A Escola vai à Bayer e estabeleceu relacionamentos da empresa com associações de moradores de bairro em Nova Iguaçu, São João do Meriti e a própria Belford Roxo.     


Odette e a irmã Olga na cobertura, sempre rindo

Dali, depois de alguns anos, Odette seguia de ônibus na estrada Rio-Santos para visitar a Vera na casa construída na rua 9 da praia de Itamambuca, perto de Ubatuba. Lena retornou para São Paulo em 1992 para trabalhar na Cargill e, mais uma vez, ela e Christian foram morar juntos na casa da Rua George Ohm, 320. Odette retornou em 1995 para morar também no mesmo bairro do Brooklin, perto da casa da irmã Olga.  


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Preparo para novos rumos

1975 significou também uma oportunidade para a família se reinventar. Vera Cecília começou a deslanchar sua carreira como designer de interiores depois de curso focado em decoração e artes durante três anos na FAAP. Rosely e Lena ingressaram no Equipe, cursinho para vestibular que ficava no bairro de Bela Vista e era conhecido pelo seu foco em Humanas. Aulas noturnas após o trabalho e shows nos finais de semana como de Gonzaguinha e outros que faziam suas vozes serem ampliadas nos anos difíceis da ditadura. Na época, o primo Ricardo conhecido como Gracinha veio morar meses com elas para se preparar também para o vestibular.

No mesmo período, Rosely conheceu Luiz Carlos na Atlas Copco, onde trabalhava. Com seu jeito risonho e sempre disposto a ajudar, conquistou a todos desde o início do namoro.

Ano de 1976 marcou o ingresso de Lena e Rosely no curso superior. Rose entrou no curso de Terapia Ocupacional na Faculdade de Medicina da USP e Lena em Comunicação Social na FIAM, que ficava na Av. Jabaquara.  Logo após seu ingresso na faculdade, Lena fez novas amizades iniciadas nas aulas e no já existente grupo de teatro amador Alma. O trio de amigas Joyce, Jô e Lena, se uniu ao diretor Ivo e aos atores Miriam Martinez, Ismael e Denise. No time de apoio, Giacomo e suas fotos, Luciano e seu talento musical, Rui e Ari na sonoplastia e iluminação. Durante os anos que concluíam a década 1970, ao lado de outros colegas que se tornaram amigos do lado esquerdo do peito, formaram uma turma divertida e unida. Viagens para Minas Gerais, festivais de teatro em São Bernardo do Campo, apresentações no TUCA, acampamentos na praia Toque Toque e viagem para Santa Catarina. 


Grupo Alma na estreia na FIAM em 1976

Enquanto isto, Odette curtia netos que cresciam - Anna, Paola e Chris – e ainda ganhou André, Betina e Julia, filhos do segundo casamento de Peter com Ana Maria, principalmente nos finais do ano, quando chegavam com gostosos doces natalinos com sabor de gengibre que ela preparava e embalava com esmero.

A casa da família na rua George Ohm mantinha-se aberta. Nos aniversários, amigos e familiares chegavam animados para as reuniões, organizadas na sala e cozinha com extensão no quintal dos fundos da casa, com o toque especial de Odette que conseguia transformar tudo em um ambiente alegre.

Mas nem tudo era clima de festa. Ainda que Lena tenha conseguido crédito estudantil do governo federal para custear a faculdade particular e Rose fizesse traduções em paralelo às aulas diuturnas, o orçamento era curto. Então, Odette – que sempre tinha uma solução para os problemas apresentados pela vida, conversou com suas amigas e a solução veio rápido e de forma divertida. Ela tornou-se motorista de crianças, levando e buscando os seus ‘aluninhos’ como chamava, com o Fusca azul. Eram filhos de amigas e outros indicados, como os três japonesinhos que haviam perdido recentemente a mãe e as duas gêmeas que entravam bem cedinho - as sete da manhã. Logo montou um roteiro - de manhã, levava os pequenos do primeiro turno. Aí almoçava às três da tarde. Em alguns dias, quando era possível, Lena acompanhava e as duas se divertiam com o orgulho das crianças em mostrar uma autêntica avó esperando-as na porta das escolas. Talvez uma avó um pouco diferente das avós da época, um pouquinho mais moderna!

Em 1979, Rose e Luiz Carlos contaram que ela estava grávida e de gêmeos! Odette ligou para Irineia, mãe de Luiz Carlos, e as duas - de forma prática e rápida - combinaram os detalhes do casamento civil, celebrado em 13 de junho no salão de festas do prédio onde Luiz Carlos e a mãe residiam. De tarde, Vera fez a decoração do salão com muitas flores brancas. E, no início da noite, ao lado de amigos, primos, tios e tias – foi comemorada a união. 

Após o casamento, foram morar em São Carlos onde Rose conseguiu um emprego na Universidade Federal enquanto Luiz Carlos fazia agronomia em Piracicaba. A mudança, providenciada por Renê, irmão dele, foi feita com o apoio de sua avó Elisa e sua tia Zilda. Dias depois, Irineia, Odette e Zilda, lavaram toda a casa. A casa tinha um pé de romã e na frente  um jardim um pouco abandonado. Odette foi arrumar o jardim, observada por Irineia:

- Odette, está tudo muito bonito, mas não é para enfeitar, é para lavar!

Logo, logo, tudo estava preparado para a chegada dos gêmeos.

O nome Miessva passa para novas gerações

Em 25 de outubro, com diferença de poucos minutos, em São Carlos, nasciam os gêmeos Beatriz e Octávio Miessva Acerbi, filhos de Rosely e Luiz Carlos. Odette estava a postos para ajudar a Rose que nos últimos meses de gravidez não achava mais posição para dormir. Assim que nasceram, Vera e Lena foram avisadas e rumaram para São Carlos em uma viagem gostosa em que lembraram o passado – afinal, as duas juntas seriam tias novamente depois de 11 anos. Foram registrados com os sobrenomes Miessva e Acerbi. Assim, o sobrenome polonês abrasileirado passava para a terceira geração.

Nos dias seguintes, a rotina foi tomada por todas as atividades em dobro – dar banho, trocar e ajudar a Rosely nas tarefas. Octávio logo ganhou apelido – era o Tatá - e a Beatriz virou Bia. Depois dos primeiros meses, Lena, que estava temporariamente sem emprego, foi para São Carlos ajudar a jovem família. De manhã cedinho, levava os dois para a pracinha que tinha uma locomotiva. Na época, até tentou cozinhar – tinha aprendido a fazer suflê e entusiasmada, repetiu o cardápio em três noites – cada dia com um ingrediente diferente. Aí, Luiz Carlos, com seu jeito tranquilo, explicou para a cunhada que podia deixar o jantar por sua conta dele. Realmente, cozinha nunca foi o forte da caçula!


Tia Lena feliz com gêmeos Bia e Tatá

Chega mais uma princesa!

A família em São Carlos logo cresceu mais um pouco. No início de julho de 1981, chegava a Olívia, mais tarde conhecida como Olivinha. E lá foi Odette de novo para São Carlos. Olívia era uma criança sapeca e um pouco mais levada que os gêmeos... Tanto assim que ao engatinhar com nove meses, foi até a cozinha e bebeu detergente como se fosse mamadeira e precisou ficar internada um dia e meio!


Natal de 1981 com pequena Olívia e sua linda mãe


E, finalmente, chega o caçula da família!

Em 27 de agosto de 1983, nascia o caçula da família. Caçula dos netos e das tias Lena e Vera. E lá foi a Odette de novo para São Carlos. Dessa vez, ao chegar, Rosely já estava na maternidade e ela ficou com as crianças. Octavio e Beatriz contraíram catapora justo nesse dia. A família de Rosely e Luiz Carlos estava completa. Quatro filhos, quatro diferentes pilares – como costumava dizer Ignácio quando se referia às quatro filhas. A casa dessa família muito unida tornou-se um local sempre com muita alegria – crianças, brincadeiras, pizzas feitas por Luiz Carlos, acompanhadas de cerveja e muitas conversas na cozinha.



Enquanto isso, Christian crescia e tomava novos rumos morando por meses com tios nos Estados Unidos. Em São Paulo, Anna e Paola viviam as descobertas da adolescência com mudanças na família Rastelli.