domingo, 30 de agosto de 2020

Dicas de pai para filha caçula

A casa da rua João Lourenço marcou fortemente a vida da caçula da família, cujo apelido era Lelena e que viria décadas depois a ser conhecida como Lena. Aos 11 anos de idade, a seu pedido, o pai ensinou a dançar dois prá cá e dois prá lá e ela logo repassou os ensinamentos para meninas e meninos nas festinhas na casa da vizinha, sua amiga Silvinha. Ali, nos anos finais da década de 1960, os pré-adolescentes dançavam ao som das músicas de Roberto e Erasmo Carlos. Na garagem da casa, Lena brincava com a amiga de fazer entrevistas para a tevê, imitando Hebe Camargo - programa imperdível na televisão, que também transmitia os famosos festivas de música que reuniam as irmãs mais velhas na sala.

Assistir televisão era um dos programas compartilhados por Ignácio e Lena que assistiam juntos Perdidos no Espaço, Star Trek e Histórias do Sobrenatural. O outro programa preferido dos dois era ir ao cinema do bairro - no Cine Vila Rica ou no Cine Radar. Depois de caminharem três quadras a pé, pai e filha já estavam confortavelmente sentados. Claro, que nem sempre os filmes eram da escolha de Ignacio, que aproveitava então para dormir naquelas duas horas. E a volta era o que imperava nas caminhadas e passeios era o bom humor. 


Lena fazia as lições de casa ao lado da mãe, enquanto Odette costurava. Foi a mãe quem ensinou a caçula a ler em voz alta e a dar valor à pontuação, como dizia enfaticamente: 

- "Há diferença entre ponto e vírgula e vírgula. Então, quando você lê em voz alta, deve dar um tempo maior para a primeira pontuação e menor para a segunda. De novo, Lena". 

Quando Lena não estava na escola ou brincando com os amigos nas ruas do bairro, seu outro programa favorito era passar horas no escritório de contabilidade do pai. Ali, passou a gostar de mesas de escritório e suas inúmeras gavetas, do barulho da máquina de escrever, das conversas no telefone e da convivência com papeis. Aprendeu que cada documento tinha um lugar certo e que todos ali deveriam saber esse lugar, caso alguém faltasse exatamente no dia que o cliente pedisse o tal documento. Os escaninhos de madeira tinham etiquetas com os nomes dos clientes e em um canto nobre, havia a prensa, precursora do mimeógrafo, que abriu passagem para a fotocopiadora e as impressoras... Quando era preciso copiar o balanço mensal do cliente - datilografado em tinta azul, para o livro do cliente, entra em cena um método que nos dias atuais parece ser da idade da pedra. Pegava-se uma folha com gelatina branca impregnada em um papel grosso, passava-se álcool nessa folha de gelatina, esperava-se secar alguns segundos. Então isso era colado na folha que devia ser copiada e o livro era fechado. A prensa era movimentada por uma barra, que movia a rosca e o prelo. Depois de horas, o balanço estava copiado no livro. As lições no escritório foram aprendidas por todas as filhas, em suas épocas.

Modelo mais recente das prensas antigas

Lição profissional para a vida

Meses depois do casamento da Toy, Lena deixou de brincar de escritório e foi 'promovida' a office-girl , separando as notas fiscais para o registro dos balanços, guardando os livros nos escaninhos, atendendo os telefonemas e anotando recados. Certo dia, seu pai e chefe a mandou ir registrar um livro caixa na Secretaria Estadual da Fazenda, localizada no centro da cidade, perto da Praça da Sé.

E lá foi a jovem com seus quase 12 anos. Chegou no prédio, deu uma volta, perguntou para uma pessoa sobre a seção e nada de encontrar a dita cuja. Na sua lógica, uma vez que não tinha localizado a seção, nada mais natural que voltar para o escritório e explicar a situação.  E assim foi feito. Então, Ignacio ouviu a história toda, com a calma que caracterizou a convivência familiar, e respondeu:

- " Não há problema algum, filha. Amanhã, você vai voltar lá, vai conseguir achar a seção, registrar o livro e vai voltar para cá com a tarefa cumprida. Assim é que tem que ser feito".

Naquele momento, Lena recebia sua primeira lição de sobrevivência profissional: dizer que não conseguiu não é desculpa para nada. O importante é encontrar a solução para o problema e completar a tarefa.


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Preparativos para novas chegadas

 

Os preparativos para o casamento da primeira Miessva começavam a tomar forma, enquanto a rotina seguia, dividida entre trabalho, estudo e lazer. No Clube Pinheiros, Vera Cecília continuava aprontando ‘travessuras’, como quando em um baile de Aleluia, se disfarçou de ‘nega maluca’ – que era o hit da época. A ruiva mais velha da casa, de olhos claros, passou pasta preta no rosto e pescoço, vestiu meias e luvas pretas, colocou uma peruca de lã preta e foi brincar no salão, achando que não seria reconhecida! Enrico, fantasiado de homem da caverna, a encontrou no meio de tanta gente:

- Veruska, como você achou que não ia reconhecer você?!?

Naquele ano de 1967, Vera e Enrico também ficaram noivos em um jantar que reuniu as famílias Miessva e Rastelli. Annamaria, a mãe dele, tornou-se amiga de Odette, e Ignácio e o pai dele, Dino, costumavam conversar nos almoços de família e encontros no Pinheiros.

A organização do casamento de Toy com Peter acabou envolvendo todos. O casamento aconteceria na Igreja do Perpétuo Socorro. Odette e a amiga Jamile compraram o tecido para o vestido, mas a Toy queria uma cauda enorme. Por sorte, encontraram um vestido de noiva com cauda toda bordada a mão. Definida a grinalda, Toy escolheu um véu franzido cobrindo também a cauda. A gola também era toda bordada e as luvas brancas completaram o arranjo.

Os vestidos das irmãs Vera, Rosely e Lena foram feitos também por Odette e Jamile. Verde para Vera, azul para Rosely e cor de rosa para Lena. Tudo em tecido brocado ou cetim, preparados com o maior capricho.  Aí chegou a hora do ensaio em um dos sábados que antecederam o casamento. A amiga da família Celina, sempre elegante e delicada,  orientava Ignácio e Toy:

- Devagarinho, sr. Ignácio. Pé compassado, pé compassado.

Max, um dos primos, chegou na casa naquele momento em uma de suas constantes visitas às primas e ficou emocionado ao ver a Toy tão compenetrada. O brinde ao ensaio foi com o tradicional cafezinho.

A festa foi organizada para acontecer na casa da Rua João Lourenço. Os quartos se transformaram em salas – a dos presentes, a do bolo – e o jardim de inverno e todo o quintal foram abertos para receber cerca de 200 pessoas. Tios e primos vieram do interior paulista para celebrar. Amigos se prepararam com ansiedade para a data tão esperada. Na véspera, Vera chorou quase a noite toda pela separação. Toy entregou cartinhas para cada irmã e para seus pais, para serem abertas só depois do casamento. 

E chegou o grande dia – 07/07/1967.

No altar, ao lado de Odette, os amigos da família Ligia e Milton Jardim eram um dos casais de padrinhos. Pontualmente, às 20h00, Toy entrou na igreja decorada com flores brancas.

Odette estava nervosa para tudo dar certo. E quando viu o marido ingressar com a filha, ficou mais ainda e percorreu com o olhar toda a nave repleta de amigos e parentes. E, então, atrás de uma das pilastras, viu Eduardinho,  antigo namorado da filha mais velha por anos, chorar pelo amor perdido. A cerimônia foi gravada em um disco - o que era moda na época - em que se ouve um tímido e baixo 'sim' da noiva, após o vigoroso consentimento do noivo. 

Depois da bela festa, como era hábito, todos acompanharam os recém-casados em seus carros buzinando até o aeroporto de Congonhas, onde o casal tomou avião para Rio de Janeiro, onde iriam passar a lua de mel. Ao se despedir dos pais, Toy chorava muito. Odette abraçou a filha e disse:

- Mas, Toy, você vai passear com o Peter, em lua de mel, e vai se divertir muito, minha filha!

Quando o avião decolou, a mãe sentiu um arrepio de frio e não passou muito bem na volta para casa – talvez uma intuição que algo iria mudar – e muito – na vida da família Miessva. 


 As quatro Miessva na única foto das irmãs no casamento



Os recém-casados em uma das salas da festa


Na lua de mel, em um dos orquidários visitados em Petrópolis




domingo, 2 de agosto de 2020

Gente nova na família

Ficarmos sócios do Esporte Clube Pinheiros foi um divisor de águas. Rosely e eu íamos até lá de bicicleta para nadar. Eu na garupa e ela driblando carros pelas ruas do bairro, passando por uma ponte estreitinha – que chamávamos de pinguela – em cima do córrego, para depois pegar a rua Joaquim Floriano até a rua Tabapuã. Nos domingos, Ignácio frequentava a sauna com amigos e as mulheres da família tomavam sol e nadavam nas piscinas. Muitas vezes, a família toda almoçava em um dos restaurantes e, de tarde, Lena ia para a biblioteca, virando fã dos livros de Agatha Christie. Às vezes, levava para casa dois livros no sábado e já devolvia um no domingo. Foi no Club Pinheiros que Toy e Vera conheceram seus namorados Peter e Enrico.   

Ida para Brasília

Na mesma época, outro acontecimento também mudou para sempre a vida da família. Odette já dirigia havia três meses – e como não tinha carro, passeava com o carro da autoescola no Parque do Ibirapuera. Às vezes, Lena ia junto e se divertia em vê-la compenetrada em fazer as manobras e estacionar direitinho nas vagas, sem derrubar as balizas. Então, Zuza, irmão de Odette,  arrumou uma Kombi, que foi comprada pelo casal, para alegria de todos! Só tinha um pequenino problema... os freios não estavam bons e isso foi descoberto quando todos estavam a caminho de passeio para Santos. Como o carro não respondeu totalmente aos freios, Odette segurou a tal Kombi na marcha e no muque!

Meses depois, aconteceu o acidente da Kombi contra um bonde. Odette estava dirigindo e no carro estavam Lena, Vera e seus amigos Edna e Edson.  O motorneiro do bonde ficou confuso com algo e avançou o sinal. Tudo foi muito rápido e quando ela percebeu, o bonde entrou direto na frente do carro. Por sorte, ninguém saiu muito ferido, além do joelho machucado da Vera.

Logo depois, Ignácio comprou o carro Aero Wyllis azul 1962.Anos depois, trocou por um Aero Wyllis cinza 1965, carro que levou o casal e as filhas Rose e Lena até Brasília em uma viagem improvisada, com espírito de aventura. Eles estavam visitando os parentes de Odette em Ribeirão Preto e, ao saírem da cidade para retornarem para São Paulo, ela perguntou se o marido tinha dinheiro para viajar e sugeriu conhecerem  Brasília. Sem reservar hotéis (pesquisando só ao chegar nas cidades), e dirigindo horas seguidas, viajaram, passando por Goiânia e Cristalina até a capital federal. Avisaram as filhas mais velhas por telefone no meio do caminho. Aliás, a família se acostumou a se aventurar em estradas, sempre com Odette na direção. 

Na mesma época, Toy começou a trabalhar na Kibon – um verdadeiro paraíso!  Assim que foi aprovada na seleção, telefonou para o escritório do pai e deu euforicamente a notícia:

- Mamãe, passei nos testes! E vou poder levar bastante sorvete para casa!

Quinze dias depois, Toy levou três latas de sorvete! Às vezes, chegava com bolos gelados em caixas com gelo seco. Mas, o que fazia sucesso mesmo eram as caixas de picolés. Certo dia, quando Odette voltava do escritório, avistou uma fila de crianças do bairro em frente à casa. No muro, Lena organizava a distribuição e entregava os picolés. Odette questionou a filha e ouviu a caçula, com sete anos, responder com convicção:

- Mãe, Cristo não repartiu os pães e peixes? Por aqui, só tinha picolés. Então, é a mesma coisa!

Surpresa no Baile de Aleluia

O Clube Pinheiros também foi palco de novas amizades para Rosely. Uma delas era a Sueli, uma amiga altíssima com quase 2 metros, e que mergulhava em uma das piscinas menores brincando de golfinho com Lena agarrada nas costas.  Em um dos bailes de Aleluia - que antecediam a Páscoa - Odette reservou uma mesa com os pais da Sueli. Nos bailes, a reserva era o pagamento de uma mesa e quatro cadeiras para que pudessem sentar e conversar durante a noite toda, enquanto as filhas brincavam o Carnaval no salão de festas. Ignácio tinha ficado em casa com Lena. O baile seguia animado, com Odette e Maria Amélia, mãe da Sueli, conversando animadamente quando viram Peter, um jovem que na época namorava Sueli, passar de mãos dadas com a Toy, sorrindo para ela, que retribuía com aqueles olhos claros e sorriso meio tímido.  Odette, desconcertada com a cena, olhou para a amiga Maria Amélia, que calmamente disse: 

- Odette, a gente a gente não viu nada, não vamos falar nada e não perguntar nada. Isto é o melhor a fazer, pois o assunto é com eles e não tem nada a ver com nossa amizade.

Na mesma época, Vera Cecília conheceu o Enrico Rastelli. Só que ela achou que o nome dele era Pascoal. Certo dia, no Pinheiros, ficou chamando-o por este nome e, claro, ele não respondeu. Aí quando o encontrou novamente, questionou por que ele não tinha atendido, e ele tranquilamente, respondeu: 

- Mas meu nome não é Pascoal, é Enrico! 

Os dois começaram a jogar tênis no Pinheiros. Certo domingo, Vera mostrou aquele jovem magro, de cabelo bem curto e sorriso aberto, para a mãe, que observou na hora:

- Mas, Vera, ele é muito criança!

Vera riu, respondendo:

- Ah, mãe. Ele parece criança, mas não é! É até um ano mais velho que eu!

O Pinheiros também foi palco de um bom encontro, quando Odette encontrou seu velho amigo Armando, que era sócio e jogava bocha. Durante décadas, eles sempre se encontravam ali, para conversar durante horas nos bancos espalhados pelo Clube.

Assim se passaram cerca de cinco anos de namoro das mais velhas – em festas no Pinheiros, passeios, lanches nas tardes de sábado – quando o primo Fernando contava detalhadamente para a tia Odette os filmes que tinha assistido – os jantares uma vez por semana com a presença do Enrico.

Até que, no Natal de 1966, logo depois da prece, Peter pediu para falar algumas palavras. Todos acharam que seria mais uma prece. Ele ficou sério e disse:

- Sr. Ignácio e dna. Odete, eu peço licença para ficar noivo da Toy. 

Todo mundo ficou surpreso e emocionado. Ignácio ficou atônito. Então, Peter colocou uma aliança na mão direita da Toy, que não pode fazer o mesmo, pois a dele não tinha ficado pronta a tempo!

No dia seguinte, Odette contou a boa nova para os sobrinhos e a festa continuou, com a família reunida para celebrar o noivado. Na semana seguinte, aconteceu o almoço para a família do Peter, com a presença de sua avó – a Oma Oma, que afirmou estar muito contente com a escolha do neto.

E foi assim que em janeiro de 1967, começaram os preparativos para o primeiro casamento na família Miessva.



Peter, Toy, Lena e Heidi, irmã caçula de Peter. 


Toy na casa dos futuros sogros no Brooklin, dias após o Natal de 1966.