A casa da rua João Lourenço marcou fortemente a vida da caçula da família, cujo apelido era Lelena e que viria décadas depois a ser conhecida como Lena. Aos 11 anos de idade, a seu pedido, o pai ensinou a dançar dois prá cá e dois prá lá e ela logo repassou os ensinamentos para meninas e meninos nas festinhas na casa da vizinha, sua amiga Silvinha. Ali, nos anos finais da década de 1960, os pré-adolescentes dançavam ao som das músicas de Roberto e Erasmo Carlos. Na garagem da casa, Lena brincava com a amiga de fazer entrevistas para a tevê, imitando Hebe Camargo - programa imperdível na televisão, que também transmitia os famosos festivas de música que reuniam as irmãs mais velhas na sala.
Assistir televisão era um dos programas compartilhados por Ignácio e Lena que assistiam juntos Perdidos no Espaço, Star Trek e Histórias do Sobrenatural. O outro programa preferido dos dois era ir ao cinema do bairro - no Cine Vila Rica ou no Cine Radar. Depois de caminharem três quadras a pé, pai e filha já estavam confortavelmente sentados. Claro, que nem sempre os filmes eram da escolha de Ignacio, que aproveitava então para dormir naquelas duas horas. E a volta era o que imperava nas caminhadas e passeios era o bom humor.
Lena fazia as lições de casa ao lado da mãe, enquanto Odette costurava. Foi a mãe quem ensinou a caçula a ler em voz alta e a dar valor à pontuação, como dizia enfaticamente:
- "Há diferença entre ponto e vírgula e vírgula. Então, quando você lê em voz alta, deve dar um tempo maior para a primeira pontuação e menor para a segunda. De novo, Lena".
Quando Lena não estava na escola ou brincando com os amigos nas ruas do bairro, seu outro programa favorito era passar horas no escritório de contabilidade do pai. Ali, passou a gostar de mesas de escritório e suas inúmeras gavetas, do barulho da máquina de escrever, das conversas no telefone e da convivência com papeis. Aprendeu que cada documento tinha um lugar certo e que todos ali deveriam saber esse lugar, caso alguém faltasse exatamente no dia que o cliente pedisse o tal documento. Os escaninhos de madeira tinham etiquetas com os nomes dos clientes e em um canto nobre, havia a prensa, precursora do mimeógrafo, que abriu passagem para a fotocopiadora e as impressoras... Quando era preciso copiar o balanço mensal do cliente - datilografado em tinta azul, para o livro do cliente, entra em cena um método que nos dias atuais parece ser da idade da pedra. Pegava-se uma folha com gelatina branca impregnada em um papel grosso, passava-se álcool nessa folha de gelatina, esperava-se secar alguns segundos. Então isso era colado na folha que devia ser copiada e o livro era fechado. A prensa era movimentada por uma barra, que movia a rosca e o prelo. Depois de horas, o balanço estava copiado no livro. As lições no escritório foram aprendidas por todas as filhas, em suas épocas.
Meses depois do casamento da Toy, Lena deixou de brincar de escritório e foi 'promovida' a office-girl , separando as notas fiscais para o registro dos balanços, guardando os livros nos escaninhos, atendendo os telefonemas e anotando recados. Certo dia, seu pai e chefe a mandou ir registrar um livro caixa na Secretaria Estadual da Fazenda, localizada no centro da cidade, perto da Praça da Sé.
E lá foi a jovem com seus quase 12 anos. Chegou no prédio, deu uma volta, perguntou para uma pessoa sobre a seção e nada de encontrar a dita cuja. Na sua lógica, uma vez que não tinha localizado a seção, nada mais natural que voltar para o escritório e explicar a situação. E assim foi feito. Então, Ignacio ouviu a história toda, com a calma que caracterizou a convivência familiar, e respondeu:
- " Não há problema algum, filha. Amanhã, você vai voltar lá, vai conseguir achar a seção, registrar o livro e vai voltar para cá com a tarefa cumprida. Assim é que tem que ser feito".
Naquele momento, Lena recebia sua primeira lição de sobrevivência profissional: dizer que não conseguiu não é desculpa para nada. O importante é encontrar a solução para o problema e completar a tarefa.


Muito legal! Me identifiquei muito com muitas coisas que creio que sao valores comuns que eram ensinados nessa epoca.
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