quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Vidas novas com risadas contagiantes

Em 30 de novembro de 1968, a igreja de São José, no bairro Jardins, em São Paulo, estava lotada. Amigos, familiares, colegas de trabalho. Todos ali para celebrar o casamento de Vera Cecília e Enrico.  Vera ainda vivia um tempo de tristeza pela morte da irmã Toy, sua companheira de toda vida. Mas a data já estava marcada há algum tempo e não fazia sentido, segundo Enrico, adiar o que iria acontecer mesmo. Sempre prático e organizado, deve ter ficado nervoso na hora das alianças que esqueceu – seu irmão Gianpaolo tinha ido buscar, mas não chegava e a cerimônia avançava... Então, não teve jeito. Os primos dos grandes amigos Eli e Keila, emprestaram suas alianças, que serviram perfeitamente!

Um pouco antes do segundo casamento na família,  foi feita a mudança para a enorme e até um pouco desproporcional casa da Rua João Paes, no Brooklin Velho. Na parte de baixo, além das salas de visita e de jantar, e entrada da garagem para a casa, tinha um quarto e banheiro para Peter e Christian, duas salas de almoço, e no fundo, lavanderia e duas salas. A casa tinha entradas laterais pequenas e independentes. Em uma sala, foi montado o escritório de Ignacio e na outra funcionava o ateliê de costura de Odette.  Na parte superior, além do banheiro, havia dois quartos (do casal e da Rosely), e um quarto simplesmente desproporcional – 7 por 6 metros – dividido em quarto da Lena, quarto da Idalina e mais uma área de costura para Odette. 

Depois, a recepção para convidados foi oferecida na casa de Dino e Anna Maria Rastelli, na Av. Pavão, de onde Vera e Enrico saíram para o aeroporto de Congonhas rumo ao Rio de Janeiro – cidade que sempre esteve na mira da família e que viria a ser o lar de alguns, décadas mais tarde.


Casamento de Vera e Enrico

Vera trabalhava no laboratório farmacêutico Ciba Geigy, que ficava pertinho da casa dos pais. E aproveitava a hora do almoço para ver a família e ‘curtir’ o sobrinho. Tudo transcorria bem até um acontecimento trágico abalar e mudar sua vida. No primeiro semestre de 1969, os pais de Enrico sofreram um acidente de carro e sua mãe faleceu. Com 25 anos, Vera perdeu a amiga que tinha lhe  mostrado o mundo italiano e assumiu os quatro homens de sua nova família. E, em outubro daquele ano, ela pode entender um pouco mais a alma dos Rastelli, quando foi para sua primeira viagem para Europa com Enrico. Infelizmente, quando estavam em Roma, o avô de Enrico faleceu. Esse período foi difícil para Vera, mas atenuado pela esperada gravidez.

E foi assim que em 25 de novembro de 1970 chega à família uma bela menina com fartos cabelos pretos. Assim que avisados, Odette e Ignacio foram para a Maternidade e Hospital Santa Catarina. Quando chegou e viu o genro Enrico, Odette começou a chorar. Ele a abraçou e disse:

- Está tudo bem, dona Odette. Foi cesárea e elas estão bem.

Odette entrou no quarto florido e abraçou a filha:

- Ah Verinha, Deus te deu uma menininha!

- É, mãe! Ela vai se chamar Annamaria e o Enrico ficou tão contente!

Annamaria iniciou sua vida na família, sempre fazendo companhia ao primo Christian em muitas idas à casa dos avós e em visitas ao Club Pinheiros  com os pais ou tios. Naquela casa, Christian começou a engatinhar, dar seus primeiros passos e a vida - como sempre sábia - preparou a família para futuros ciclos. Como o próximo, quando chegou mais uma ruiva na família.



Anna em um dos domingos em casa, no colo da tia-madrinha Lena


domingo, 4 de outubro de 2020

 

Pausa para folego - Peço licença para conduzir o texto na primeira pessoa do singular, ainda que todas as pessoas do meu plural familiar tenham passado por aquele momento. 

Lágrimas em cada rosto. Uma dor de todos.

Nenhuma família gosta de perder pessoas amadas. A minha família não é exceção. Talvez a exceção tenha sido que em uma família com tantos tios, tias, primos e primas que cresceram muito próximos, a doença e a morte de uma jovem de 25 anos tenham sido muito mais que um choque. Muitos que conheceram a história depois, dizem que foi um trauma familiar. Não tenho dúvidas quanto a isto.

Vivíamos um tempo só com alegrias, casamentos, nascimentos dos filhos da segunda geração e a doença da Toy levou familiares e amigos a uma rotina de plantão de hospital – tínhamos três turnos de amigos, primos, tios, tias, que se dividiam para ficar com ela – durante um mês e meio no Hospital São Luiz e mais um mês e meio no Hospital das Clínicas. Todos a conviver com uma doença discutida por vários médicos sobre sua origem, mas nenhum com a solução. Uma doença que minava suas forças. 

Ignácio, meu pai, foi desmoronando aos poucos e só conseguia energia para lidar com o escritório e clientes por muita determinação.

Idalina, que tinha chegado alguns anos anos para trabalhar em nossa casa e já era da família, passou a cuidar do Christian, que também ia com minha mãe algumas tardes para o escritório. 

Em uma das conversas que tive com minha mãe, para escrever este blog-livro, perguntei de onde ela tirou tanta força naquela época. Ela, com aquele seu olhar vivo e firme, respondeu:

- Não sei, Lena. Eu tinha que reagir. Tinha o Ignácio, tinham as meninas, tinha você – uma garota de quase 12 anos.

Os parentes ajudavam, a equipe da Seara Bendita (casa espírita que frequentávamos) montou um esquema de turnos para nos ajudar também. Minha irmã Vera se fazia de forte quando ficava com a Toy, para sofrer muito depois. Afinal, trabalhava no laboratório farmacêutico Ciba, antes tinha trabalhado no Hospital do Servidor Público, entendia dos termos médicos e perguntava tudo para os colegas.

Minha mãe ainda exemplificou como se sentia:

- Um dia, ao sair das Clínicas, peguei um táxi na Av. Rebouças e pedi para o motorista encostar o carro e comecei a chorar. Aí ele me perguntou o que tinha e eu respondi - Me deixa chorar, senão eu enlouqueço! Minha filha está muito mal no hospital e não posso chorar em nenhum lugar.  E ele respondeu: Então, chora, dona. Chora tudo o que a senhora tem que chorar. Durante uma hora eu fiquei ali chorando. Cansei de tanto chorar.

Eu só vi minha irmã Toy durante sua doença uma única vez no Hospital das Clínicas – na época, havia restrição para entrada de crianças em visitas. Fui maquiada para parecer mais velha e precisei entrar sozinha. Até hoje, quando passo por ali, é difícil esquecer aquele dia. Acho que sempre fui melhor na escrita. Depois de sair dali, escrevi um bilhetinho (que guardo até hoje) que pedi para minha mãe entregar para ela, dizendo que estava torcendo para voltar logo para casa, para o Peter e para o Christian. 

Na véspera de 12 de outubro de 1968,  Peter foi dormir no hospital. Uma noite que, anos depois me contou, foi de muita conversa e orientações dela.  E, ao lado dele, Toy morreu.

Meu pai, ao receber a notícia, abraçou minha mãe e disse:

- A nossa Toinha se foi, Odette.

E abraçados ali eles ficaram um longo tempo.

O enterro foi na tarde do dia seguinte. Desnecessário dizer sobre toda a dor que uma família enorme como a nossa passou naquele dia. Até hoje, muitos primos mais velhos quando veem o Christian em alguma festa, acabam chorando, lembrando da sua mãe, que era uma das mais velhas da família. Quando sorri, ele lembra mesmo muito a mãe. Hoje, é um homem com três filhos maravilhosos. Mas estou pulando muito tempo. Vamos voltar a 1968.

Vera acordou no dia seguinte ao enterro e viu que mamãe estava na lavanderia, colocando a roupa na máquina de lavar. Perguntou se estava tudo bem e se ela precisava de algo. Odette olhou firme e respondeu:

- A vida continua. As pessoas precisam comer, trabalhar, viver. Vera, a vida continua.

E foi pegar o Christian no colo. Desde aqueles dias e durante toda a sua vida, o neto mais velho foi tratado por ela como um filho. O ‘filhão’.


Odette e Lena com Christian, na rua João Paes, para onde nos mudamos em 1968.