quarta-feira, 20 de maio de 2020

Do primeiro beijo à igreja Santa Cecília

O primeiro beijo a gente não esquece
A chegada de Ignácio em Garça foi logo comentada na cidade, como  seu jeito estranho ao falar acentuadamente algumas palavras por influência do idioma polonês, o olhar profundo de grandes olhos azuis, a elegância. Já para ele, a imagem mais forte daqueles dias foi da jovem Odette parada na varanda da fazenda.
Sempre que tinha chance, ele, mais que depressa, aquecia em tomar o chá das duas da tarde com Sebastiana, a dona da casa. Nas conversas, contava sobre sua família no Paraná e ela descrevia as aventuras nas fazendas durante sua vida e a curiosidade pelo mundo. Odette o encantava, com algo tenue e transparente, mas sempre distante. 
Além desses encontros rápidos, costumavam se encontrar nos bailes da cidade, onde ela ia, sempre acompanhada pelos irmãos. 
Certo dia, Odette visitou o negócio de madeira de Ignácio, e ele se encantou mais ainda com seu jeito, como escreveu, ao recordar aqueles anos: “Foi uma imen¬sa alegria. Via tanta felicidade em seus olhos que não dormi muitas noites, imaginando que tinha, talvez, chegado a grande oportunidade. Mas ainda não era a hora”. 
Pouco tempo depois, retomaram o terreno perto da serraria montada por Ignácio, e isso contribuiu para a ruína do estabelecimento. E, mais uma vez, ele tomou a estrada e voltou para São Paulo e eles não se viram por mais de um ano. 
Então, em maio de 1939, ele perde seu pai e, sentindo-se só, vai procurar os amigos de Garça que residiam em São Paulo em uma pensão que a família Aguirre Camargo administrava na rua Barão de Jaceguai. Ao chegar na pensão, vê Odette cuidando de Sebastiana, pois a água fervente da caldeira tinha entornado e queimado a sua perna. Então, tomando um chá preparado por ela, eke descreveu os últimos momentos de vida de seu pai e foi consolado com palavras de força e de fé: “Coragem, isto é a vida. Orarei pelo seu pai”. Daquele momento em diante, o sentimento que já existia no coração de Ignácio ficou mais forte. 
Mais um ano se passou e, certo dia, Odette passou na loja onde ele trabalhava para dar a notícia do noivado da sua irmã Olga, como  narrou: “Como ela sempre dizia que queria ser freira, eu, em vez de apresentar meus parabéns pelo evento, perguntei muito ingenuamente, quando ela iria para o convento. Foi a conta. Ela disfarçou muito bem, mas outros colegas perceberam a reação. A  minha aju¬dante de conferente, assim que Odette saiu pisando firme, me disse:
– Esta moça gosta sinceramente de você. Mas ela saiu muito zangada. O que houve ? 
Depois que contou a conversa, foi aconselhado a consertar o mal estar sem perda de tempo. Então alguns dias depois, era o dia do  aniversário de Odette, ocasião muito propícia para mandar uma mensagem. Então, Ignácio mandou entregar um arranjo de flores com um bilhete,  com rosas vermelhas, para simbolizar paixão, e rosas brancas, como sinal de paz. Isso abriu uma pequena fresta de oportunidade e rendeu frutos meses depois. 
O tradicional baile de primavera no clube que Ignácio era sócio já tinha sido anunciado e como três amigas suas insistiram em ir, ele as convidou. Então, foi visitar Odette e seus irmãos e, em um impulso, a convidou. Para sua surpresa, ela aceitou! E, para não perder nenhuma chance, logo no dia seguinte, avisou que iria acompanhado de uma amiga de longa data. Ao verem a alegria nos olhos de Ignácio, elas logo entenderam, mesmo perdendo a oportunidade de ir ao baile tão esperado! 
Era 21 de setembro de 1940. Ignácio estreava um smoking novo e Odette estava com um vestido que acentuava seus cabelos negros bem penteados e o batom mais escuro. Na volta do baile, quando a deixou em sua casa, aconteceu o primeiro beijo dos dois, como ele conta: “eu fiquei muito feliz e surpreso. Seus lábios se uniram aos meus, de forma suave, como que selando um novo percurso de nossas vidas a ser percorrido” .
A troca de juras de amor por meio de fotos com dedicatória

Santa Cecília em festa 
Jogos de baralho às noites, bailes no clube Português em que Odette e Ignácio iam acompanhados pela irmã Odila,  fizeram com que eles se conhecessem melhor por dois anos. Até o dia que Ignácio pediu a jovem de 26 anos em casamento a João de Aguirre Camargo. Na longa conversa que tiveram, ele garantiu para o homem que  tinha uma predileção por aquela filha impetuosa: 
– “Eu vou fazê-la feliz porque sei lidar com ela. Tudo que ela gostar, eu farei”. 
Casamento marcado, padrinhos escolhidos como o Carlito – o irmão menor dela  – e a irmã Odila. Os donos da loja Casarini, onde Ignácio trabalhava, foram seus padrinhos e presentearam os noivos com um completo aparelho de jantar inglês – que se tornou conhecido de toda a família até os dias de hoje. 
Odette recorda como decidiram pelo apartamento onde foram morar logo após o casamento: 
– “Ignácio tinha visto vários apartamentos e me levou para saber minha opinião, antes de alugar. Um era especial - pequeno, mas com uma boa varanda. Aí ele perguntou se eu tinha gostado mesmo. E como não podia gostar? Na esquina do Largo do Arouche com a rua Sebastião Pereira, com um dormitório, boa vista, bons vizinhos. Era pequeno, mas tivemos tudo – tapete, cortinas, cadeiras altas numa sala de jantar linda!” 
A igreja Santa Cecília foi a escolhida porque ela era devota da santa e tinha predileção por aquele templo que foi decorado com muitas flores, pagas pela noiva do casamento anterior, das sete horas. Na hora marcada do casamento – às oito horas, chovia a cântaros. Odette e seu pai chegaram no carro alugado. Arranjos de laranjeira nos cabelos negros delicadamente presos, deixando uma parte deles soltos, segurando o buque feito com as mesmas flores. Tudo perfeito, até que ela fica sabendo que o noivo estava atrasado! 
A madrinha de Ignácio tinha molhado sua roupa com a chuva. Então, ela e o marido tinha ido para o apartamento dele, para tentar secar o vestido com ferro quente. 
Aflita no carro, e impulsiva – Odette já queria desmarcar tudo! Seu pai pedia paciência e finalmente o sentimento falou mais alto. Meia hora depois, seu irmão Carlito correu até o carro, avisando que ela já podia entrar. 
Santa Cecília estava toda iluminada e parecia que os desenhos do teto brilhavam mais, especialmente quando todos se levantaram e ela entrou, sorrindo e olhando para o belo homem que estava no altar. Sua mãe não estava presente, pois tinha ficado doente em Garça, mas aprovava – e muito – o casamento de Odette com aquele ‘estrangeiro’. 
Anos depois, Odette lembrou que o que mais chamou a sua atenção para aquele homem calado, com olhar azul profundo. Sorrindo, lembra: 
– “Primeiro, sua honestidade. Depois, ele, mesmo muito calado,  procurava sempre estar perto de mim. Tudo que eu fazia, ele observava e sorria. Tinha fascinação por mim. Aprendi muito com ele – desde a comer coisas diferentes, como frios com frutas, até a ouvir ópera. Ele também gostava de ler, como eu. Tivemos uma vida difícil no começo, pois sempre tinha alguém morando conosco – o Carlito, o Orlando – mas o Ignácio sempre recebia a todos com alegria, considerando a minha família como a sua”.
Quando ela conheceu sua sogra, meses depois de casada, entendeu ainda mais aquele homem que tinha aceitado partilhar a vida.
Mas isto fica para o próxima capítulo – que logo, logo chegará!

Odette na tradicional foto da noiva



domingo, 3 de maio de 2020

Fogo na árvore de Natal e a mão do destino em Garça


A vida na fazenda em Cravinhos era boa demais em um tempo que passava devagarzinho... Os pequenos Olga, Odette, Namá e Carlito começavam o dia brincando no pomar, subindo nas árvores para chupar mangas e as laranjas colhidas pertinho. Brincar de pega pega, de futebol, de cabra cega – tudo era motivo para risadas como quando o Namá pegou os biscoitos de polvilho recém feitos, colocou um em cada dedo e correu antes que a mãe – brava como sempre – percebesse na cozinha! No final do dia, estavam lambuzados com as frutas e sujos de barro. Depois do banho, nem pensar em chegar perto do pomar! Só era permitido ficar no gramado do jardim, em frente da casa, esperando o jantar, quando todos se sentavam por ordem de idade. Na cabeceira da mesa, ficava João e do seu lado esquerdo sua mulher Sebastiana. Ela fazia o prato de cada um e não admitia brincadeiras. As crianças comiam em silêncio e apenas os mais velhos podiam conversar.  Certa vez, os adultos tiveram a ideia de enfeitar a árvore de Natal com algodão para lembrar a neve. Tudo ia bem, até alguém se lembrar de colocar velinhas acesas na árvore, presas com pregadores de roupa. De repente, a árvore pegou fogo e foi um corre corre geral! Muitos anos mais tarde, na década de 1940, quando surgiu a figura do Papai Noel vestido de vermelho e barba branca, Joãozinho assumiu o papel e se divertia com a fantasia, correndo atrás da criançada, formada pelos sobrinhos e sobrinhas que sempre adoraram a casa dos avós João e Sebastiana. 


A aventura em Garça e a mão do destino

A mudança de Cravinhos para Garça foi ampla, geral e irrestrita. Na época, muita gente estava indo para a região então conhecida como Alta Paulista e  João foi ser administrador da fazenda União, do coronel Carvalho de Barros. Seu desafio era transformar aquela mata virgem em uma fazenda de café. Primeiro ficaram em uma casa pequena enquanto aguardavam a casa maior ser construída. Para estudar, Odette e Olga atravessam quase três quilômetros de areião a pé para chegar na casa da professora dona Maria da Glória. Chiquito e Zuza já trabalhavam fora e Joãozinho ajudava o pai na fazenda. Para descobrir qual era o talento de Namá, seu pai o colocou para aprender violino com dna. Glaucia, a primeira professora de Odette ainda em Cravinhos, onde morou com amigos da família. Naquele tempo, para muitas crianças estudarem, tinham que morar com parentes em outras cidades. Foi o que aconteceu com Odette e Olga, que foram para a casa dos tios Zeca e Alzira,em Campinas, e que tinham duas filhas com paralisia infantil. As quatro meninas iam todos os dias, de braços dados, para o instituto de fisioterapia dirigido por alemães, onde as primas faziam exercícios de ginástica. Na escola, certo dia, Odette pintou uma paisagem com giz colorido na lousa negra e o professor ficou tão encantado que deixou ali por alguns dias!    

Na volta das meninas para Garça, mais mudanças na família. Os filhos mais velhos de Sebastião e João - Chiquito, Zuza e Odila - foram morar com o tio Nhonhô em São Paulo. Depois de um tempo, os pais alugaram uma casa na Bela Vista, transformando-a em pensão, dirigida por Sebastiana, que se mudou para a capital paulista. Odette ficou na fazenda em Garça, e ia para São Paulo quando a mãe retornava para a fazenda, revezando nos cuidados da pensão e da casa na fazenda ao lado do pai. Os passeios da sua adolescência eram os bailes no clube e as missas e seu laser favorito era a leitura.

Francisco Sá, parente de seu pai, tinha uma biblioteca e emprestava livros. Ela ainda lia a revista “Eu sei tudo”, aprendendo a fazer palavras cruzadas. Costumava ir aos bailes com o irmão mais velho Joãozinho. Nesta época, Odette andava muito de cavalo e charrete, como lembra:  “Eu ia da fazenda até Garça de cavalo, descia na porta da padaria e não tinha quem não se admirasse do meu jeito... apenas para comprar pão!”, e continua: “Sempre gostei de andar a cavalo. Papai deixava o cavalo sempre perto da porta. Ele entrava e eu saía para passear nas plantações de café.  

A fazenda grande do Coronel Carvalho de Barros foi então partilhada entre os filhos do Coronel e a União passou para uma de suas filhas, casada com Joaquim Salgueiro. Ela faleceu ainda moça, e o viúvo estreitou ainda mais os laços de amizade com João de Aguirre.

A última moradia dos Aguirre Camargo foi uma casa em Garça, construída por Salgueiro e doada no final de sua vida para a família de João de Aguirre Camargo. Era um grande sobrado que ficava no final da Avenida Brasil. Perto da casa, estava a estação de trem da Alta Paulista. Quando alguém da família ia para São Paulo, levava uma marmita com frango e pirão e molho para comer no caminho. Nesta casa, Salgueiro tinha um quarto com entrada independente. Como era viúvo, jovem e bonito, costumava acelerar o coração das moças da casa, em especial de Odette.

Quando ainda estavam na fazenda e Odette tinha por volta de seus 18 anos, chegou ali um rapaz alto, loiro, com sotaque parecendo estrangeiro, procurando emprego de guarda-livros. Ele foi falar com João de Aguirre Camargo que o empregou. Seu nome era estranho assim como seu jeito de falar, arrastando o erre... Ignácio Miessva chegava ali para tentar a vida e logo se encantou com aquela jovem...

Embarque de café por caminhão 


E aos poucos, ele foi encantando ela