A vida na fazenda em Cravinhos era boa demais em um tempo que passava devagarzinho... Os pequenos Olga, Odette, Namá e Carlito começavam o dia brincando no pomar, subindo nas árvores para chupar mangas e as laranjas colhidas pertinho. Brincar de pega pega, de futebol, de cabra cega – tudo era motivo para risadas como quando o Namá pegou os biscoitos de polvilho recém feitos, colocou um em cada dedo e correu antes que a mãe – brava como sempre – percebesse na cozinha! No final do dia, estavam lambuzados com as frutas e sujos de barro. Depois do banho, nem pensar em chegar perto do pomar! Só era permitido ficar no gramado do jardim, em frente da casa, esperando o jantar, quando todos se sentavam por ordem de idade. Na cabeceira da mesa, ficava João e do seu lado esquerdo sua mulher Sebastiana. Ela fazia o prato de cada um e não admitia brincadeiras. As crianças comiam em silêncio e apenas os mais velhos podiam conversar. Certa vez, os adultos tiveram a ideia de enfeitar a árvore de Natal com algodão para lembrar a neve. Tudo ia bem, até alguém se lembrar de colocar velinhas acesas na árvore, presas com pregadores de roupa. De repente, a árvore pegou fogo e foi um corre corre geral! Muitos anos mais tarde, na década de 1940, quando surgiu a figura do Papai Noel vestido de vermelho e barba branca, Joãozinho assumiu o papel e se divertia com a fantasia, correndo atrás da criançada, formada pelos sobrinhos e sobrinhas que sempre adoraram a casa dos avós João e Sebastiana.
A aventura em Garça e a mão do destino
A mudança de Cravinhos para Garça foi ampla, geral e irrestrita. Na época, muita gente estava indo para a região então conhecida como Alta Paulista e João foi ser administrador da fazenda União, do coronel Carvalho de Barros. Seu desafio era transformar aquela mata virgem em uma fazenda de café. Primeiro ficaram em uma casa pequena enquanto aguardavam a casa maior ser construída. Para estudar, Odette e Olga atravessam quase três quilômetros de areião a pé para chegar na casa da professora dona Maria da Glória. Chiquito e Zuza já trabalhavam fora e Joãozinho ajudava o pai na fazenda. Para descobrir qual era o talento de Namá, seu pai o colocou para aprender violino com dna. Glaucia, a primeira professora de Odette ainda em Cravinhos, onde morou com amigos da família. Naquele tempo, para muitas crianças estudarem, tinham que morar com parentes em outras cidades. Foi o que aconteceu com Odette e Olga, que foram para a casa dos tios Zeca e Alzira,em Campinas, e que tinham duas filhas com paralisia infantil. As quatro meninas iam todos os dias, de braços dados, para o instituto de fisioterapia dirigido por alemães, onde as primas faziam exercícios de ginástica. Na escola, certo dia, Odette pintou uma paisagem com giz colorido na lousa negra e o professor ficou tão encantado que deixou ali por alguns dias!
Na volta das meninas para Garça, mais mudanças na família. Os filhos mais velhos de Sebastião e João - Chiquito, Zuza e Odila - foram morar com o tio Nhonhô em São Paulo. Depois de um tempo, os pais alugaram uma casa na Bela Vista, transformando-a em pensão, dirigida por Sebastiana, que se mudou para a capital paulista. Odette ficou na fazenda em Garça, e ia para São Paulo quando a mãe retornava para a fazenda, revezando nos cuidados da pensão e da casa na fazenda ao lado do pai. Os passeios da sua adolescência eram os bailes no clube e as missas e seu laser favorito era a leitura.
Francisco Sá, parente de seu pai, tinha uma biblioteca e emprestava livros. Ela ainda lia a revista “Eu sei tudo”, aprendendo a fazer palavras cruzadas. Costumava ir aos bailes com o irmão mais velho Joãozinho. Nesta época, Odette andava muito de cavalo e charrete, como lembra: “Eu ia da fazenda até Garça de cavalo, descia na porta da padaria e não tinha quem não se admirasse do meu jeito... apenas para comprar pão!”, e continua: “Sempre gostei de andar a cavalo. Papai deixava o cavalo sempre perto da porta. Ele entrava e eu saía para passear nas plantações de café.
A fazenda grande do Coronel Carvalho de Barros foi então partilhada entre os filhos do Coronel e a União passou para uma de suas filhas, casada com Joaquim Salgueiro. Ela faleceu ainda moça, e o viúvo estreitou ainda mais os laços de amizade com João de Aguirre.
A última moradia dos Aguirre Camargo foi uma casa em Garça, construída por Salgueiro e doada no final de sua vida para a família de João de Aguirre Camargo. Era um grande sobrado que ficava no final da Avenida Brasil. Perto da casa, estava a estação de trem da Alta Paulista. Quando alguém da família ia para São Paulo, levava uma marmita com frango e pirão e molho para comer no caminho. Nesta casa, Salgueiro tinha um quarto com entrada independente. Como era viúvo, jovem e bonito, costumava acelerar o coração das moças da casa, em especial de Odette.
Quando ainda estavam na fazenda e Odette tinha por volta de seus 18 anos, chegou ali um rapaz alto, loiro, com sotaque parecendo estrangeiro, procurando emprego de guarda-livros. Ele foi falar com João de Aguirre Camargo que o empregou. Seu nome era estranho assim como seu jeito de falar, arrastando o erre... Ignácio Miessva chegava ali para tentar a vida e logo se encantou com aquela jovem...
Embarque de café por caminhão
E aos poucos, ele foi encantando ela


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