domingo, 19 de julho de 2020

Tempos difíceis e mudanças a caminho

Tempos díficeis

Os negócios da Braspar Serviços de Contabilidade - que unia as palavras Bras (de Brasil) com Par (do Paraná), progrediam e Ignacio chegou a ter 60 clientes. Para atender às demandas que cresciam, contratou dois rapazes para auxiliá-lo: Waldemar e Walter. Odette ajudava de noite, fazendo algumas atividades como razão e diário dos clientes. Para dar conta de tudo, Ignacio passou a trabalhar muito – às vezes ia direto até as duas horas da manhã e depois o Walter continuava as tarefas logo pela manhã. Visitava os clientes, coordenava todas as atividades e, para dar conta de tudo,  mudou sua rotina, dormindo tarde e levantando cedo. 

Certo dia em 1960, Ignacio chegou em casa com dor no braço esquerdo. Abraçou Odette e disse:

- Vou deitar um pouco. Não estou aguentando de dor.

Como não melhorou, Odette chamou o dr. Almeida, o médico da família, que após examiná-lo, alertou:

- Precisa internar agora, Odette, ele está tendo um infarto!

O táxi foi chamado e foram para o hospital São Luiz, que ficava ali perto. Odette assinou os papeis, internando o marido. Telefonou para o Walter, que estava de férias, pedindo que voltasse para o escritório. No hospital, o médico disse que talvez ele não aguentasse, seriam 24 horas de alerta e se Ignacio superasse este período, teria que fazer um tratamento prolongado. Horas depois, as meninas voltavam da escola e ouviam a explicação da situação, no estilo Odette em tratar as crises:

- Não quero drama e vocês precisam me ajudar.

Ela voltou para o hospital e à noite, Ignácio passou mal e teve falta de ar. Mas, na madrugada, conseguiu dormir e quando o dia amanheceu, sua cor tinha voltado ao rosto. Perguntou das meninas, querendo ir para casa:

- Odette, eu fico só hoje, não é? Mas se eu ficar mais, você precisa assumir o escritório.

Quando ele saiu do hospital, em 11 de novembro, precisou fazer repouso e ficou três meses afastado do trabalho. Naquela época, era comum que as pessoas enfartadas tivessem que drasticamente reduzir o ritmo e os médicos recomendavam afastamento do trabalho por meses. Os amigos do casal ajudaram, cada um de sua forma, como Armando, amigo da juventude de Odette, antigo namorado de sua irmã mais velha Odila, que orientava nas contas gerais. Outros amigos foram Elias e Adma, conhecidos desde o início do casamento. Por uma triste coincidência, ficaram ainda mais próximos. No mesmo dia que Ignacio sofreu o infarto, Adma, mulher de Elias, sofreu um acidente e precisou amputar a perna, no mesmo hospital. Ali, Elias e Odette passaram juntos dias difíceis. Às vezes, iam para o escritório e choravam com a amiga Lenira, irmã de Adma. Armando foi outro amigo sempre presente, buscando orientá-la com as contas e se colocando à disposição para o que fosse preciso – a amizade era cultivada desde a mocidade de Odette, quando ele foi namorado da irmã mais velha Odila.

Odette enfrentaria um dos períodos mais difíceis de sua vida. Tinha sido criada para cuidar da casa, ajudar o marido, mas ficar sempre na retaguarda. Ignácio representava seu esteio e, de repente, ela se viu em uma situação inédita, tendo que assumir várias frentes.

O infarto marcou muitas mudanças na família e, especialmente, na vida do casal. Mas algo passou incólume naquela primeira grande crise: preservar sempre a família, mantendo as meninas unidas e com as portas da casa sempre abertas a quem precisasse de um apoio e também viesse oferecer um ombro amigo.

Anos 1960 com mais mudanças

Os primeiros anos da década de 1960 foram de muito trabalho e mudanças na vida de todos. Vera Cecília estudava no Liceu Eduardo Prado e Toy cursava secretariado no Colégio Mackenzie. Rosely, entrando na adolescência, e marcando seu lado independente,  trabalhou um período na loja em frente da casa da Avenida Santo Amaro, e estudava no Colégio Nossa Senhora da Aparecida.

Um dos dias marcantes, para quebrar o jejum de celebrações, foi o aniversário de cinco anos da pequena Lena, em 1961. As irmãs, com suas amigas e primas, arrumaram a casa, e o tema da festa foi a Casa dos Três Porquinhos. Odette criou um bolo especial, montando uma casinha com palitos de chocolate, grama verde de açúcar colorido e colocando os porquinhos do presépio de Natal para dar o tom real. Nas paredes da casa, foram colocados grandes desenhos de personagens de Walt Disney. Na cozinha, as meninas prepararam olho de sogra, brigadeiro, balas de café e de coco. Além dos salgadinhos, foram montados pequenos sanduiches com fatias de pão Pulmann cortadas em quatro pedaços.

Então, um fato ajudou a gerar mais mudanças na vida da família. Athayde, padrinho da Toy, conversou com os amigos várias vezes, comentando que as meninas precisavam conhecer mais gente, fazer esportes, ir a festas maiores além das que aconteciam no bairro. Tanto insistiu que Ignácio concordou e  fez a proposta para adquirir um título familiar do Esporte Clube Pinheiros em 2 de maio de 1962. Como fontes de referência, os sócios Athayde de Moreira Pires e Ignacio Ormesto, as agências do Itaim dos bancos Moreira Salles e Itaú. Além disso, cartas dos clientes Anastacio e Cia e a Indústria de Calçados Americanas S.A.  com as certidões de casamento e nascimento de todos, atestados médicos e fotografias 3x4. Após todos os trâmites terem sido cumpridos e aprovados pelo Club, uma carta foi emitida em 11 de julho de 1962 e, em novembro do mesmo ano, Ignácio adquiriu o título familiar de Hugo Leão de Menezes Montenegro.

Era o início de uma etapa. Meses depois, a família mudou-se para a rua João Lourenço, pois as residências da Av. Santo Amaro naquele quarteirão seriam derrubadas para dar lugar a um prédio de apartamentos.

Vida nova no mesmo bairro

A nova casa tinha um muro de pedras e portão de grade. No fundo, havia uma garagem enorme e dois pequenos quartos ao lado da área de lavanderia. A casa tinha três dormitórios, uma bela sala de visita com gesso em sanca no teto, porta de vidro com cortinas brancas e uma cozinha com uma grande mesa para todos jantarem, hora que se reuniam para contar as novidades.

No quarto da frente, com janela para o jardim, dormiam Lena e Rosely, em um beliche. No quarto dos fundos, que tinha janela para o quintal, dormiam Toy e Vera. Ignacio e Odette ficavam no quarto do meio, cuja janela dava para um pequeno jardim de inverno.

A João Lourenço e as outras ruas próximas formavam a gostosa Vila Nova Conceição, onde Lena logo passou a integrar a turma mirim do bairro. Costumavam brincar na rua ou na pracinha que ficava a poucas quadras dali, perto da rua Afonso Brás. Os cuidados médicos eram feitos no Posto de Saúde Municipal ali perto, ao lado da escola municipal frequentada pelas crianças do bairro.

Quando Ignácio voltou para as atividades no escritório, Odette continuou a trabalhar, primeiro com  vendas de enxovais para noivas, que buscava na rua São Caetano. Depois, passou a costurar sob encomenda, dividindo as tarefas com a amiga Jamile que morava pertinho.

Os primeiros vizinhos foram a família Laub, com Lourdes e filhos com as mesmas idades de Toy e Vera. O endereço mudou, mas a atmosfera continuou a mesma e a nova casa passou a receber amigos e primos para os lanches das tardes de sábado, além das visitas dos primos e tios, especialmente nos finais de semana.

E logo, logo, novos personagens ingressariam no convívio da família Miessva...


Na rua João Lourenço, Odette e Lena.


 


domingo, 5 de julho de 2020

A chegada de Helena. O preparo para nova década.

A chegada de Helena
A família parecia completa. Três lindas meninas. Uma casa movimentada, sempre recebendo visitas de familiares que ainda moravam em Garça. Mas logo, logo isto iria mudar. Em dezembro de 1955, o Ano Novo foi celebrado na casa de Ruy, um dos irmãos menores de Odette, em Perus, cidade perto de São Paulo, onde ele era o responsável pela fábrica de cimentos lá instalada. Era uma gostosa casa que tinha enorme quintal, horta com grande variedade de legumes e verduras, área coberta para festas e churrascos, um local para patos, coelhos e alguns cachorros. Na festa familiar, Tibi tinha preparado seus deliciosos pratos  com um pouquinho de pimenta, como boa baiana.
Na arrumação da mesa, com pratos para mais de 20 pessoas, Odette comentou que estava grávida. A cunhada, meio séria e meio brincalhona, respondeu:
– Não está, não. Você está tomando muito vinho!
No dia seguinte, Odette telefonou para sua mãe e comentou que estava grávida, ao que a mãe, rapidamente respondeu:
- Ah, você bebeu demais, minha filha. Não é para beber tanto assim no Réveillon! 
Na semana seguinte, ela foi ao dr. Barbosa, que ao vê-la entrar no consultório, olhou firme e afirmou, rindo:
– Odette, você está grávida! E te digo, se for mais uma menina, é minha! Você tem três, e eu não tenho nenhuma! Se for uma menina, será minha e de minha mulher! 
Como bom amigo, além de médico, alertou para o fato de ela estar com quase 40 anos e que aquele parto seria considerado de risco.  Ela seguiu as instruções direito, tomou vitaminas e engordou apenas o peso do futuro bebê.
Como as duas filhas mais velhas estudavam no colégio interno em Garça, Odette viajou com Ignacio e Rosely na Páscoa para visitar as meninas e ver seus pais. Sua mãe não estava bem de saúde e a família tinha decidido que iriam se mudar para São Paulo – onde a maioria dos filhos já moravam. O bairro escolhido foi a Vila Nova Conceição, perto da casa de Ignacio e Odette e de Namá e Lucila. A mudança foi feita e Odette e suas cunhadas arrumaram a casa com tudo novo para recebê-los com o filho Joãozinho, que ainda morava com os pais. Tudo preparado para uma nova etapa de vida, em que receberiam atenção, carinho e cuidados daqueles de quem cuidaram durante suas vidas. 
O feriado de 7 de setembro se aproximava e Odette sentiu as dores na véspera. Como em outras vezes, sua cunhada Elza lhe acompanhou na ida ao hospital e Ignacio ficou em casa com Rosely. Às 20h15 de 6 de setembro, em uma quinta-feira, nascia a última menina da família – Maria Helena. O nome Helena foi em homenagem à sua futura madrinha – Helena Jardim Mattos, amiga e vizinha da família. 
O bebê era a atração dos primos e primas que se divertiam em dar banho e arrumar aquela menininha gordinha que nasceu quase sem cabelo e com grandes olhos claros, como as irmãs. Era chamada em casa por Lelena e, depois, desde sua infância, entre amigos, ficou conhecida como Lena. 

Uma nova matriarca para as futuras gerações
O final de 1956 foi celebrado com a volta definitiva das meninas Toy e Vera do colégio interno. Logo depois, com a casa nova toda arrumada, era a vez de Sebastiana e João com o filho Joãozinho se mudarem para São Paulo. As meninas visitavam sempre os avós e se divertiam com os primos em gostosos lanches preparados por Odette e suas cunhadas. 
Mas a asma que por toda a vida tanto incomodou Sebastiana tornou-se pior e ela precisou ser internada na Santa Casa de Misericórdia de Santos. A pequena Lelena, aos seis meses, ficou com seus padrinhos Helena e Mattos – ainda que seu nome fosse Francisco, ninguém o chamava assim. Na casa dos padrinhos, o filho Netinho brincava com a ruivinha Rosely quase todo dia. Gostavam tanto da companhia um do outro, que tiraram uns tijolos do muro entre as duas casas, para que pudessem conversar sem perder tempo entre entrar e sair de suas casas.  
Sebastiana voltou para casa, mas sem apresentar melhora. E, em seis de agosto de 1957, como fazia todas as tardes, Odette estava com ela. Deitada, magrinha como sempre foi em toda sua vida, olhou para a filha e perguntou: 
- Você não consegue me arranjar um médico, minha filha? 
Odette olhou para o quadro de Jesus que estava na parede e segurou o choro.
- Então, minha filha, é o fim, não é? 
- Minha mãe, a hora ninguém sabe. 
- Odette, como se morre?
- A senhora não se incomode com isto. Na hora, eu ensino a senhora.
- Então, está bem. Eu vou ficar tranquila e não vou me preocupar mais. Mas vou entregar meus filhos para você cuidar.
- Pode deixar, mamãe. Não se preocupe. Eu vou cuidar de tudo.  
E Odette ficou ali, depois de aplicar mais uma injeção. Poucas horas depois, sua mãe morria, dizendo:
- Odette, eu já vou, já vou, já vou...
E, assim, ela assumiu o papel da matriarca da família. Estava preparada e tinha Ignácio ao seu lado, que gostava da sua família. Quando as pessoas chegavam para almoçar ou jantar mesmo sem avisar ele ficava feliz. E acolhia quem precisava de abrigo. Foi assim com várias pessoas da família, em tempos difíceis. Foi assim em um período que o sogro João morou ali. De manhã, aquele que havia trabalhado tanto em fazendas, brincava com a neta Lelena no amplo quintal. Nas noites de sábado, se divertia com os bailinhos organizados pelas netas mais velhas e que reuniam as garotas e rapazes do bairro. Ele descia todo arrumado e cumprimentava um a um, contando sua vida no interior. As mães dessa turma se conheceram e se tornaram amigas por toda uma vida. Letícia, que tinha um loja de armarinhos na avenida Santo Amaro, recebia sempre a Vera, que era grande amiga de sua filha Edna. Celina, que morava perto, já tinha se acostumado com a presença da Toy, amiga de Valéria. E ainda tinha a casa de Ione, mãe de Stela, também grande amiga da Toy. Todas moravam no bairro e era comum passearem pelas ruas e pela avenida Santo Amaro. As compras eram feitas no centro da cidade, e ir a Mappin era programa de um dia inteiro!  

Novidades. Sempre. 
A família Miessva adorava novidades. Foi assim com a geladeira e com a chegada da televisão. Os filmes de Hollywood atraíam as meninas e quando Ignácio chegava do seu escritório de contabilidade, que ficava pertinho, em duas salas em cima do cine Radar, na Av. Santo Amaro, e via todo mundo chorando, costumava comentar com sua mulher na cozinha:
- Mas elas só choram, Odette? Será que na televisão não tem algo mais alegre? 
Depois do jantar, Odette costurava e ia dormir mais tarde. Toy e Vera estudavam no Liceu Eduardo Prado e Rosely no Colégio Nossa Senhora da Aparecida. Na época dos exames, todos se reuniam para ali estudar. Edna e o irmão Edson, Stella, Valeria. Quer dizer... quase sempre...
Vera Cecília sempre foi muito brincalhona e fazia uma boa dupla com Edna. Às vezes, na rua,   acenavam para um táxi. Quando ele parava, uma perguntava: 
- Está livre?
Claro que o motorista respondia que sim. E as duas respondiam, rindo:
- Então, viva a liberdade!
A vida por ali era mesmo agitada. Certo dia,  um senhor bateu na porta e Odette foi atender:
- A senhora não quer comprar uma perua?
Ao saber o preço, questionou o motivo de estar tão barato, ao que o senhor respondeu que o perú tinha morrido e ele ficado só com a perua. Então, comprou e colocou a perua no quintal, em uma parte do galinheiro. De tarde, seu irmão Zuza, que sempre passava lá para deixar frutas e legumes que trazia do sítio, chegou e foi logo olhar a perua.
- Mas, Odette, você comprou uma perua doente! Ela está com gogo.
- Ah, Zuza, se é isto, eu sei tratar. Aprendi na fazenda com mamãe. É só pegar cinza, misturar com limão e sal e passar na linguinha do bichinho. Depois pega a faca e puxa a pele da língua para sair o gogo. 
- Ah, então faz isto, que eu quero ver se resolve mesmo.  
Enquanto tratava a perua, pensava consigo que parecia mesmo que o pobre bichinho ia morrer. Na manhã do dia seguinte, escutou um piado diferente e lembrou da perua que quase tinha morrido! Ao chegar no quintal, lá estava a dita cuja, viva e forte. Mas não ficou muito por aí. Semanas depois, Zuza a levou para o sítio, trocando por três frangos. Depois, ele comprou um peru e fez uma criação. E de vez em quando, aparecia com um perú para Odette preparar e reunir irmãos, cunhadas e sobrinhos. 
Assim foi o início dos anos 1960 da família Miessva, permeado por certa ingenuidade, certa leveza no ar, pronta para o que desse e viesse. E essa força foi necessária nos anos seguintes que traria muitas mudanças.



As crianças iam no fotógrafo fazer books!


Rosely e Lelena esperando meia noite no Natal


As quatro na praia: Toy, Rose, Lelena e Vera