domingo, 25 de abril de 2021

Uma vida como poucas

Durante algum tempo, o casamento de Lena já dava sinais de falecimento e depois de um ano e meio vivendo em frágil equilíbrio emocional e financeiro, ela decidiu pela separação. Em 2008,  faltavam alguns detalhes para fechar esse capítulo e, em julho, ela e Vera foram para uma curta semana de férias em Itamambuca. Lena esperava recarregar as baterias e se preparar para o desfecho e iniciar uma nova etapa. 

No terceiro dia, após almoço com Anna e as pequenas Luisa e Catarina, receberam um telefonema de Rosely dizendo que Odette tinha sido internada em estado crítico. Lena e Christian foram para São Carlos e lá, na nova enfermaria do Hospital Municipal de São Carlos, os netos que conviveram com ela naqueles dois últimos anos de sua vida puderam se despedir e o mais velho pode abraçá-la mais uma vez. 

De forma impressionante, mas não surpreendente, Odette se manteve lúcida. E, na madrugada de 8 de julho de 2008, passou suas últimas horas ouvindo Lena contar várias histórias de sua vida. Então, tirou um pequeno anel de seu dedo direito e deu para a filha caçula. Na manhã de 8 de julho, ao lado da cuidadora e de enfermeiras, a jornada de Odette chegava ao final. Na casa de Rosely, suas filhas choraram e se abraçaram. Não só sentindo a sua partida, mas prevendo a falta que suas risadas, força e carinho fariam em suas vidas.

Para encerrar esse capítulo, mas não essa história, vale lembrar um texto de Lena para seus 80 anos, lido em uma bela festa que celebrava sua vida.  

Falar da Odete é falar de boas risadas, de brincadeiras de roda e de músicas infantis ensinadas para as gerações que gerou. Mulher forte, que tantas vezes engoliu seu choro para não deixar tristes filhas, netos e genros.

Nascida no meio do campo, criou histórias com suas lembranças da fazenda, do cafezal em flor e das noites de luar. Dos patinhos no meio da chuva, do leite quente colhido e tomado pela manhã, ainda na cama. Do pai sempre gentil e atencioso, da mãe, severa e bela.

Com os irmãos, aprendia futebol. Pelos irmãos, preparava os mais gostosos quitutes, saboreados pelas mais de 12 pessoas reunidas na grande mesa da casa. Pelas irmãs, costurava um vestido aqui, ajeitava um penteado ali. Tudo para ver os outros felizes. Na juventude, descobria a alegria dos bailes, flertes e namorados. E lá estava presente a sua risada alegre sempre contagiando o ambiente.

Amizades cultivadas ao longo da vida. Com frequência, usam o telefone para manter os laços vivos. Lembram histórias de ontem e riem das dificuldades de hoje.

Com Ignácio, seu companheiro de vida, construiu uma família, feita de mulheres alegres e fortes. Criadas à sua semelhança, aprenderam a não desistir diante dos problemas. Sempre há uma solução. É só rezar, pedir ajuda a Deus e jamais perder a fé e a confiança em si.

Sua casa sempre esteve aberta. Por ela passaram sobrinhos, amigas, filhas em momentos difíceis, netos e netas. Não importava onde estava morando. A porta se abria, o cheiro da comida no forno surgia. Roupa limpa de cama e de banho estava logo ali, pronta. E, depois, sempre tinham as conversas até altas horas da noite. Afinal, ela nunca foi de acordar cedo, mesmo!

Sua mão de fada-madrinha sempre aparecia para dar um toque especial. Foi assim com os vestidos de Vera, Rosely e Lena para o casamento de sua filha mais velha, a Toy. Também foi assim com as toucas e roupas de bebê feitas com carinho para os seus netos. Com os mais velhos Christian, Anna e Paola, viveu muitas histórias e criou brincadeiras. Sempre em meio ao preparo das balas de café, das receitas de brigadeiro e da paçoca feita para comemorar as festas juninas.

Eles cresceram com ela ao seu lado. Dirigindo o carro, preparando festas, fazendo bolos criados com carinho e criatividade. Uma pequena boneca logo se tornava uma princesa, com vestido decorado com flores de glacê...

Depois chegaram os gêmeos Beatriz e Octavio. E lá estava ela de novo, firme e forte. Ao lado da filha Rosely, do genro Luiz Carlos e da nova família que nascia em São Carlos, transmitindo energia, brincando com o genro, trocando os netos, e – mais uma vez - ensinando jovens a lidar com crianças.

Mais um ano e pouco, era avó de novo. Nascia Olivia, a neta que de tanto gostar dela, se autodenominava “sua filhinha”. Que alegria sentia ao esperar a neta chegar sozinha no Rio de Janeiro, depois de horas de viagem de ônibus, para passar as férias com a avó. E então, por último, nascia Felipe, o neto caçula que, na praia do Leme, logo fazia novas amizades, lembrando o jeito de ser da avó.

Os anos passaram e uma nova geração chegou com a pequena Luisa. Mais uma vez, a sua casa encheu-se de risadas infantis, de músicas de roda, de bonecas, de roupinhas de lã feitas com tanto amor. E depois nascia João Pedro, com cachinhos herdados da mãe Fabiana, mas que lembram tanto a filha Toy, criança com profundos olhos azuis.

Odette...    Durante mais de oito décadas vem mostrando que o espírito jovem pode e deve ser mantido.

Odette...   Ao longo de sua vida, ganhou outras filhas – como Idalina, Idaicy, Regina e tantas outras.

Odette.... Avó de tantos outros netos que nas festas estão sempre rindo de suas brincadeiras e ouvindo suas histórias.

Odette.... Exemplo de força e alegria. Que amanhã estará abrindo mais uma vez a janela, arrumando a sua roupa e se preparando para mais um dia que pode trazer telefonemas, surpresas, visitas e muitas risadas. E a leitura do jornal, que não pode faltar!

Odette.... Muito obrigado por você existir! Parabéns pelo seu dia de aniversário! 

auto-retrato de Odette na juventude