Tempos díficeis
Os negócios da Braspar Serviços de Contabilidade - que unia as palavras Bras (de Brasil) com Par (do Paraná), progrediam e Ignacio chegou a ter 60 clientes. Para atender às demandas que cresciam, contratou dois rapazes para auxiliá-lo: Waldemar e Walter. Odette ajudava de noite, fazendo algumas atividades como razão e diário dos clientes. Para dar conta de tudo, Ignacio passou a trabalhar muito – às vezes ia direto até as duas horas da manhã e depois o Walter continuava as tarefas logo pela manhã. Visitava os clientes, coordenava todas as atividades e, para dar conta de tudo, mudou sua rotina, dormindo tarde e levantando cedo.
Certo dia em 1960, Ignacio chegou em casa com dor no braço esquerdo.
Abraçou Odette e disse:
- Vou deitar um pouco. Não estou aguentando de dor.
Como não melhorou, Odette chamou o dr. Almeida, o médico da
família, que após examiná-lo, alertou:
- Precisa internar agora, Odette, ele está tendo um infarto!
O táxi foi chamado e foram para o hospital São Luiz, que
ficava ali perto. Odette assinou os papeis, internando o marido. Telefonou para
o Walter, que estava de férias, pedindo que voltasse para o escritório. No
hospital, o médico disse que talvez ele não aguentasse, seriam 24 horas de
alerta e se Ignacio superasse este período, teria que fazer um tratamento
prolongado. Horas depois, as meninas voltavam da escola e ouviam a explicação
da situação, no estilo Odette em tratar as crises:
- Não quero drama e vocês precisam me ajudar.
Ela voltou para o hospital e à noite, Ignácio passou mal e
teve falta de ar. Mas, na madrugada, conseguiu dormir e quando o dia amanheceu,
sua cor tinha voltado ao rosto. Perguntou das meninas, querendo ir para casa:
- Odette, eu fico só hoje, não é? Mas se eu ficar mais, você
precisa assumir o escritório.
Quando ele saiu do hospital, em 11 de novembro, precisou fazer repouso e
ficou três meses afastado do trabalho. Naquela época, era comum que as pessoas
enfartadas tivessem que drasticamente reduzir o ritmo e os médicos recomendavam afastamento
do trabalho por meses. Os amigos do casal ajudaram, cada um de sua forma, como
Armando, amigo da juventude de Odette, antigo namorado de sua irmã mais velha
Odila, que orientava nas contas gerais. Outros amigos foram Elias e Adma, conhecidos desde o início do casamento. Por uma triste coincidência, ficaram ainda mais próximos. No mesmo dia
que Ignacio sofreu o infarto, Adma, mulher de Elias, sofreu um acidente e
precisou amputar a perna, no mesmo hospital. Ali, Elias e Odette passaram juntos dias difíceis. Às vezes, iam para o escritório e choravam com a amiga
Lenira, irmã de Adma. Armando foi outro amigo sempre presente, buscando
orientá-la com as contas e se colocando à disposição para o que fosse preciso –
a amizade era cultivada desde a mocidade de Odette, quando ele foi namorado da
irmã mais velha Odila.
Odette enfrentaria um dos períodos mais difíceis de sua
vida. Tinha sido criada para cuidar da casa, ajudar o marido, mas ficar sempre
na retaguarda. Ignácio representava seu esteio e, de repente, ela se viu em uma
situação inédita, tendo que assumir várias frentes.
O infarto marcou muitas mudanças na família e,
especialmente, na vida do casal. Mas algo passou incólume naquela primeira
grande crise: preservar sempre a família, mantendo as meninas unidas e com as
portas da casa sempre abertas a quem precisasse de um apoio e também viesse
oferecer um ombro amigo.
Anos 1960 com mais mudanças
Os primeiros anos da década de 1960 foram de muito trabalho e mudanças na vida de todos. Vera Cecília estudava no Liceu Eduardo Prado e Toy cursava secretariado no Colégio Mackenzie. Rosely, entrando na adolescência, e marcando seu lado independente, trabalhou um período na loja em frente da casa da Avenida Santo Amaro, e estudava no Colégio Nossa Senhora da Aparecida.
Um dos dias marcantes, para quebrar o jejum de celebrações,
foi o aniversário de cinco anos da pequena Lena, em 1961. As irmãs, com suas amigas
e primas, arrumaram a casa, e o tema da festa foi a Casa dos Três Porquinhos.
Odette criou um bolo especial, montando uma casinha com palitos de chocolate,
grama verde de açúcar colorido e colocando os porquinhos do presépio de Natal para
dar o tom real. Nas paredes da casa, foram colocados grandes desenhos de personagens
de Walt Disney. Na cozinha, as meninas prepararam olho de sogra, brigadeiro, balas
de café e de coco. Além dos salgadinhos, foram montados pequenos sanduiches com
fatias de pão Pulmann cortadas em quatro pedaços.
Então, um fato ajudou a gerar mais mudanças na vida da
família. Athayde, padrinho da Toy, conversou com os amigos várias vezes,
comentando que as meninas precisavam conhecer mais gente, fazer esportes, ir a
festas maiores além das que aconteciam no bairro. Tanto insistiu que Ignácio
concordou e fez a proposta para adquirir um título familiar do
Esporte Clube Pinheiros em 2 de maio de 1962. Como fontes de referência, os sócios Athayde de Moreira Pires e Ignacio Ormesto, as
agências do Itaim dos bancos Moreira Salles e Itaú. Além disso, cartas dos
clientes Anastacio e Cia e a Indústria de Calçados Americanas S.A. com as certidões de casamento e
nascimento de todos, atestados médicos e fotografias 3x4. Após todos
os trâmites terem sido cumpridos e aprovados pelo Club, uma carta foi emitida em
11 de julho de 1962 e, em novembro do mesmo ano, Ignácio adquiriu o título
familiar de Hugo Leão de Menezes Montenegro.
Era o início de uma etapa. Meses depois, a família mudou-se para a rua João Lourenço, pois as residências da Av. Santo Amaro naquele quarteirão seriam derrubadas para dar lugar a um prédio de apartamentos.
Vida nova no mesmo bairro
A nova casa tinha um muro de pedras e portão de grade. No
fundo, havia uma garagem enorme e dois pequenos quartos ao lado da área de
lavanderia. A casa tinha três dormitórios, uma bela sala de visita com gesso em
sanca no teto, porta de vidro com cortinas brancas e uma cozinha com uma grande
mesa para todos jantarem, hora que se reuniam para contar as novidades.
No quarto da frente, com janela para o jardim, dormiam Lena
e Rosely, em um beliche. No quarto dos fundos, que tinha janela para o quintal,
dormiam Toy e Vera. Ignacio e Odette ficavam no quarto do meio, cuja janela
dava para um pequeno jardim de inverno.
A João Lourenço e as outras ruas próximas formavam a
gostosa Vila Nova Conceição, onde Lena logo passou a integrar a turma mirim do
bairro. Costumavam brincar na rua ou na pracinha que ficava a poucas quadras
dali, perto da rua Afonso Brás. Os cuidados médicos eram feitos no Posto de
Saúde Municipal ali perto, ao lado da escola municipal frequentada pelas crianças
do bairro.
Quando Ignácio voltou para as atividades no escritório,
Odette continuou a trabalhar, primeiro com vendas de enxovais para noivas, que
buscava na rua São Caetano. Depois, passou a costurar sob encomenda, dividindo as
tarefas com a amiga Jamile que morava pertinho.
Os primeiros vizinhos foram a família Laub, com Lourdes e filhos com as mesmas idades de Toy e Vera. O endereço mudou, mas a
atmosfera continuou a mesma e a nova casa passou a receber amigos e primos para
os lanches das tardes de sábado, além das visitas dos primos e tios, especialmente nos
finais de semana.
E logo, logo, novos personagens ingressariam no convívio da família Miessva...
Na rua João Lourenço, Odette e Lena.

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