Ficarmos sócios do Esporte Clube Pinheiros foi um divisor de águas.
Rosely e eu íamos até lá de bicicleta para nadar. Eu na garupa e ela driblando carros pelas
ruas do bairro, passando por uma ponte estreitinha – que chamávamos de pinguela
– em cima do córrego, para depois pegar a rua Joaquim Floriano até a rua Tabapuã.
Nos domingos, Ignácio frequentava a sauna com amigos e as mulheres da família tomavam sol e nadavam nas piscinas. Muitas vezes, a família toda almoçava em um dos restaurantes e, de tarde, Lena ia
para a biblioteca, virando fã dos livros de Agatha Christie. Às vezes, levava para casa dois livros no sábado e já devolvia um no domingo. Foi no Club Pinheiros que
Toy e Vera conheceram seus namorados Peter e Enrico.
Ida para Brasília
Na mesma época, outro acontecimento também mudou para sempre a vida da família. Odette já dirigia havia três meses – e como não tinha carro, passeava com o carro da autoescola no Parque do Ibirapuera. Às vezes, Lena ia junto e se divertia em vê-la compenetrada em fazer as manobras e estacionar direitinho nas vagas, sem derrubar as balizas. Então, Zuza, irmão de Odette, arrumou uma Kombi, que foi comprada pelo casal, para alegria de todos! Só tinha um pequenino problema... os freios não estavam bons e isso foi descoberto quando todos estavam a caminho de passeio para Santos. Como o carro não respondeu totalmente aos freios, Odette segurou a tal Kombi na marcha e no muque!
Meses depois, aconteceu o acidente da Kombi contra um bonde. Odette estava
dirigindo e no carro estavam Lena, Vera e seus amigos Edna e Edson. O motorneiro do bonde ficou confuso com algo
e avançou o sinal. Tudo foi muito rápido e quando ela percebeu, o bonde entrou
direto na frente do carro. Por sorte, ninguém saiu muito ferido, além do joelho
machucado da Vera.
Logo depois, Ignácio comprou o carro Aero Wyllis azul 1962.Anos depois, trocou por um Aero Wyllis cinza 1965, carro que levou o casal e as filhas Rose e Lena até Brasília em uma viagem improvisada, com espírito de aventura. Eles estavam visitando os parentes de Odette em Ribeirão Preto e, ao saírem da cidade para retornarem para São Paulo, ela perguntou se o marido tinha dinheiro para viajar e sugeriu conhecerem Brasília. Sem reservar hotéis (pesquisando só ao chegar nas cidades), e dirigindo horas seguidas, viajaram, passando por Goiânia e Cristalina até a capital federal. Avisaram as filhas mais velhas por telefone no meio do caminho. Aliás, a família se acostumou a se aventurar em estradas, sempre com Odette na direção.
Na mesma época, Toy começou a trabalhar na Kibon – um verdadeiro paraíso! Assim que foi aprovada na seleção, telefonou
para o escritório do pai e deu euforicamente a notícia:
- Mamãe, passei nos testes! E vou poder levar bastante sorvete para
casa!
Quinze dias depois, Toy levou três latas de sorvete! Às vezes, chegava com bolos gelados em caixas com gelo seco. Mas, o que fazia
sucesso mesmo eram as caixas de picolés. Certo dia, quando Odette voltava do escritório, avistou uma fila de crianças do bairro em frente
à casa. No muro, Lena organizava a distribuição e entregava os picolés. Odette
questionou a filha e ouviu a caçula, com sete anos, responder com convicção:
- Mãe, Cristo não repartiu os pães e peixes? Por aqui, só tinha picolés.
Então, é a mesma coisa!
Surpresa no Baile de Aleluia
O Clube Pinheiros também foi palco de novas amizades para Rosely. Uma delas era a Sueli, uma amiga altíssima com quase 2 metros, e que mergulhava
em uma das piscinas menores brincando de golfinho com Lena agarrada nas costas. Em um dos bailes de Aleluia - que antecediam a
Páscoa - Odette reservou uma mesa com os pais da Sueli. Nos bailes, a reserva
era o pagamento de uma mesa e quatro cadeiras para que pudessem sentar e conversar
durante a noite toda, enquanto as filhas brincavam o Carnaval no salão de
festas. Ignácio tinha ficado em casa com Lena. O baile seguia animado, com
Odette e Maria Amélia, mãe da Sueli, conversando animadamente quando viram Peter,
um jovem que na época namorava Sueli, passar de mãos dadas com a Toy, sorrindo
para ela, que retribuía com aqueles olhos claros e sorriso meio tímido. Odette, desconcertada com a cena, olhou para
a amiga Maria Amélia, que calmamente disse:
- Odette, a gente a gente não viu nada, não vamos falar
nada e não perguntar nada. Isto é o melhor a fazer, pois o assunto é com eles e
não tem nada a ver com nossa amizade.
Na mesma época, Vera Cecília conheceu o Enrico Rastelli. Só que ela achou que o nome dele era Pascoal. Certo dia, no Pinheiros, ficou chamando-o por este nome e, claro, ele não respondeu. Aí quando o encontrou novamente, questionou por que ele não tinha atendido, e ele tranquilamente, respondeu:
- Mas meu nome não é Pascoal, é Enrico!
Os
dois começaram a jogar tênis no Pinheiros. Certo domingo, Vera mostrou
aquele jovem magro, de cabelo bem curto e sorriso aberto, para a mãe, que observou
na hora:
-
Mas, Vera, ele é muito criança!
Vera
riu, respondendo:
-
Ah, mãe. Ele parece criança, mas não é! É até um ano mais velho que eu!
O Pinheiros
também foi palco de um bom encontro, quando Odette encontrou seu velho amigo
Armando, que era sócio e jogava bocha. Durante décadas, eles sempre se
encontravam ali, para conversar durante horas nos bancos espalhados pelo Clube.
Assim
se passaram cerca de cinco anos de namoro das mais velhas – em festas no
Pinheiros, passeios, lanches nas tardes de sábado – quando o primo Fernando contava detalhadamente
para a tia Odette os filmes que tinha assistido – os jantares uma vez por
semana com a presença do Enrico.
Até
que, no Natal de 1966, logo depois da prece, Peter pediu para falar algumas
palavras. Todos acharam que seria mais uma prece. Ele ficou sério e disse:
-
Sr. Ignácio e dna. Odete, eu peço licença para ficar noivo da Toy.
Todo
mundo ficou surpreso e emocionado. Ignácio ficou atônito. Então, Peter colocou uma
aliança na mão direita da Toy, que não pode fazer o mesmo, pois a dele
não tinha ficado pronta a tempo!
No
dia seguinte, Odette contou a boa nova para os sobrinhos e a festa continuou,
com a família reunida para celebrar o noivado. Na semana seguinte, aconteceu o
almoço para a família do Peter, com a presença de sua avó – a Oma
Oma, que afirmou estar muito contente com a escolha do neto.
E
foi assim que em janeiro de 1967, começaram os preparativos para o primeiro
casamento na família Miessva.



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