Pausa para folego - Peço licença para conduzir o texto na primeira pessoa do singular, ainda que todas as pessoas do meu plural familiar tenham passado por aquele momento.
Lágrimas em
cada rosto. Uma dor de todos.
Nenhuma família gosta de perder pessoas
amadas. A minha família não é exceção. Talvez a exceção tenha sido que em uma
família com tantos tios, tias, primos e primas que cresceram muito próximos, a
doença e a morte de uma jovem de 25 anos tenham sido muito mais que um choque.
Muitos que conheceram a história depois, dizem que foi um trauma familiar. Não
tenho dúvidas quanto a isto.
Vivíamos um tempo só com alegrias, casamentos, nascimentos dos filhos da segunda geração e a doença da Toy levou familiares e amigos a uma rotina de plantão de hospital – tínhamos três turnos de amigos, primos, tios, tias, que se dividiam para ficar com ela – durante um mês e meio no Hospital São Luiz e mais um mês e meio no Hospital das Clínicas. Todos a conviver com uma doença discutida por vários médicos sobre sua origem, mas nenhum com a solução. Uma doença que minava suas forças.
Ignácio, meu
pai, foi desmoronando aos poucos e só conseguia energia para lidar com o
escritório e clientes por muita determinação.
Idalina, que tinha chegado alguns anos anos para trabalhar em nossa casa e já era da família, passou a cuidar do Christian, que também ia com minha mãe algumas tardes para o escritório.
Em uma das conversas que tive com minha mãe, para
escrever este blog-livro, perguntei de onde ela tirou tanta força naquela
época. Ela, com aquele seu olhar vivo e firme, respondeu:
- Não sei, Lena. Eu tinha que reagir. Tinha o
Ignácio, tinham as meninas, tinha você – uma garota de quase 12 anos.
Os parentes ajudavam, a equipe da Seara
Bendita (casa espírita que frequentávamos) montou um esquema de turnos para nos
ajudar também. Minha irmã Vera se fazia de forte quando ficava com a Toy, para
sofrer muito depois. Afinal, trabalhava no laboratório farmacêutico Ciba, antes tinha
trabalhado no Hospital do Servidor Público, entendia dos termos médicos e
perguntava tudo para os colegas.
Minha mãe ainda exemplificou como se sentia:
- Um dia, ao sair das Clínicas, peguei
um táxi na Av. Rebouças e pedi para o motorista encostar o carro e comecei a
chorar. Aí ele me perguntou o que tinha e eu respondi - Me deixa chorar,
senão eu enlouqueço! Minha filha está muito mal no hospital e não posso chorar
em nenhum lugar. E ele respondeu: Então,
chora, dona. Chora tudo o que a senhora tem que chorar. Durante uma hora eu
fiquei ali chorando. Cansei de tanto chorar.
Eu só vi minha
irmã Toy durante sua doença uma única vez no Hospital das Clínicas – na época,
havia restrição para entrada de crianças em visitas. Fui maquiada para parecer mais velha e precisei entrar sozinha. Até hoje, quando passo por ali, é difícil esquecer aquele dia. Acho que sempre fui melhor na escrita. Depois de sair dali, escrevi um bilhetinho (que guardo até hoje) que pedi para minha mãe entregar para ela, dizendo que estava torcendo para voltar logo para casa, para o Peter e para o Christian.
Na véspera de 12 de outubro de 1968, Peter foi dormir no hospital. Uma noite que, anos depois me contou, foi de muita conversa e orientações dela. E, ao lado dele, Toy morreu.
Meu pai, ao receber
a notícia, abraçou minha mãe e disse:
- A nossa Toinha
se foi, Odette.
E abraçados ali
eles ficaram um longo tempo.
O enterro foi na
tarde do dia seguinte. Desnecessário dizer sobre toda a dor que uma família enorme
como a nossa passou naquele dia. Até hoje, muitos primos mais velhos quando
veem o Christian em alguma festa, acabam chorando, lembrando da sua mãe, que
era uma das mais velhas da família. Quando sorri, ele lembra mesmo muito a mãe.
Hoje, é um homem com três filhos maravilhosos. Mas estou pulando muito tempo.
Vamos voltar a 1968.
Vera acordou no
dia seguinte ao enterro e viu que mamãe estava na lavanderia, colocando a roupa
na máquina de lavar. Perguntou se estava tudo bem e se ela precisava de algo.
Odette olhou firme e respondeu:
- A vida
continua. As pessoas precisam comer, trabalhar, viver. Vera, a vida continua.
E foi pegar o
Christian no colo. Desde aqueles dias e durante toda a sua vida, o neto mais
velho foi tratado por ela como um filho. O ‘filhão’.


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