15 de outubro de 2007. Eu aguardava ansiosa uma ligação de Paola, minha bela sobrinha. Uma ruiva de 34 anos e dona de incríveis olhos azuis. Annamaria, sua irmã, deveria ter a segunda filha a qualquer momento e eu iria também para a maternidade. Anna, Lauro – marido de Anna – e Luisa, minha sobrinha-neta de sete anos, moravam perto da maternidade. A qualquer momento, Catarina poderia nascer. Vera, minha irmã, e seu marido, Enrico, estavam na Itália, em viagem de férias.
Ao ouvir a voz da Paola, tive um misto de alegria e aflição – nascimento para mulheres em nossa família é sempre um pouco complicado – e avisei Antonio, meu marido na época. Fui para a maternidade, pensando em como o tempo voa em nossas vidas. Anna, minha afilhada, seria mãe pela segunda vez. À noite, chegava Catarina, pequena e bela. Mais uma mulher entrando na história que percorre vidas de tantos casais e, em especial, de um – Ignácio e Odete – meus pais. Mas, antes deles, a história de meus avós, que começou há muito tempo. E como toda história que se preza....
Era uma vez... na Polônia no início dos anos 1900
José já havia embrulhado tudo o que iria levar e não era muito. A bíblia, a última edição do semanário de Poznam – cidade próxima de onde morava, o terço de sua mãe. Pronto. Agora era buscar Catarina, sua mulher há poucas horas e que se despedia dos pais Pedro e Catarina Pajeiak. Seus olhos azuis percorreram mais uma vez o quarto onde viveu a juventude ao lado do irmão que já havia partido de navio no mês anterior. A cama de ferro arrumada com o cobertor dobrado – costume aprendido ainda menino com seus pais Casemiro e Anna Mierzwa – a lamparina apagada ao lado da cama. Fechou a porta, virou a chave e com passos decididos foi até a casa maior de madeira ao lado. Subiu as escadas, entrou no alpendre. De dentro, vinha o aroma das batatas cozidas. De pé, sua velha tia chorava sem parar, com o lenço negro na cabeça e avental amarrado na cintura. José abraçou-a mais uma vez, sabendo que seria a última, entregou a chave e agradeceu, secando as lágrimas com o lenço branco que sempre trazia no bolso. Encostado em um dos pilares de madeira trabalhada, estava seu tio, com o rosto sério. Então, em um gesto carinhoso e ao mesmo tempo decidido, afastou com cuidado a mulher do sobrinho, e deu um forte abraço:
- Vai, José. Esta é a melhor decisão que você e Francisco tomaram. Nossa Polônia não tem nada a oferecer para vocês agora. Comece uma vida nova, uma família e mande notícias, se puder. Não nos esqueça, filho. Não esqueça nunca desta terra que sempre será sua mesmo sem ser reconhecida como Pátria. Que Deus os acompanhe!
Ele olhou demoradamente para os tios e a casa que lhe abrigou. Queria guardar na memória cada detalhe daquela cena e os rostos de sua família. Deixar seu país era mais que deixar aquela casa onde morou depois que seus pais morreram. Foi ali onde viveu seus melhores momentos com seu irmão, que, sabia, nunca mais iria encontrar, pois Francisco tinha tomado o rumo dos Estados Unidos, país estranho, mas com portas abertas aos imigrantes. Naquele lugar, ele falava sua língua. Mas tinha que seguir em frente e não estava mais só.
Fechou o portão de madeira e foi caminhando com sua pequena mala para a casa dos Pajeiak, também nos arredores de Ponz. Lembrava do dia que viu Catarina pela primeira vez, quando retornava do trabalho no campo. Seus belos olhos azuis cruzaram com os dela. Então, onde pudesse encontrar aquela menina, lá estava José, nas festas da igreja, nas ruas da cidade. Dos olhares, passaram às conversas, sempre acompanhadas pela mãe de Catarina, que observava atenta, como era costume. Em uma noite, José vestiu sua melhor roupa. Foi à casa dos Pajeiak e pediu Catarina em casamento. Ele tinha 26 e ela pouco mais de 16 anos. O casamento foi simples, na igreja da cidade, dias antes da viagem de trem ao porto para o navio que os levaria para tão longe.
Tão pouco tinha ele a oferecer, mas tanto amor para dar para aquela mulher decidida a enfrentar o futuro ao seu lado. Desde que a conheceu, ficou impressionado com a sua forma de pensar. José sempre acreditou que o amor à pátria deveria vir em primeiro lugar. Catarina era uma mulher prática que acreditava mais na capacidade das pessoas comuns do que na dos que governavam seu país, que naquela época tinha perdido a condição de Estado.
Antes de saírem, Pedro Pajeiak chama José e lhe entrega um pacote:
- José, você é o homem que Catarina escolheu para ser pai de meus netos. Não quero que nada falte a eles nem a ela, neste novo mundo que vão enfrentar. Não sabemos como será nosso futuro, mas tenho estas poucas economias. Aceite para seu início de vida, pelo menos com menos dificuldades.
- Obrigado, senhor Pajeiak. Nunca faltará nada a Catarina nem aos meus filhos. Sou trabalhador e isto o senhor pode ter certeza. Saio de meu país para que minha família tenha um nome a honrar e uma terra para plantar e que possa ter orgulho de ser polonesa, não importa onde for.
E, assim, José e Catarina Mierzwa deixaram Poznam e iniciaram sua longa viagem ao Brasil.
Ao ouvir a voz da Paola, tive um misto de alegria e aflição – nascimento para mulheres em nossa família é sempre um pouco complicado – e avisei Antonio, meu marido na época. Fui para a maternidade, pensando em como o tempo voa em nossas vidas. Anna, minha afilhada, seria mãe pela segunda vez. À noite, chegava Catarina, pequena e bela. Mais uma mulher entrando na história que percorre vidas de tantos casais e, em especial, de um – Ignácio e Odete – meus pais. Mas, antes deles, a história de meus avós, que começou há muito tempo. E como toda história que se preza....
Era uma vez... na Polônia no início dos anos 1900
José já havia embrulhado tudo o que iria levar e não era muito. A bíblia, a última edição do semanário de Poznam – cidade próxima de onde morava, o terço de sua mãe. Pronto. Agora era buscar Catarina, sua mulher há poucas horas e que se despedia dos pais Pedro e Catarina Pajeiak. Seus olhos azuis percorreram mais uma vez o quarto onde viveu a juventude ao lado do irmão que já havia partido de navio no mês anterior. A cama de ferro arrumada com o cobertor dobrado – costume aprendido ainda menino com seus pais Casemiro e Anna Mierzwa – a lamparina apagada ao lado da cama. Fechou a porta, virou a chave e com passos decididos foi até a casa maior de madeira ao lado. Subiu as escadas, entrou no alpendre. De dentro, vinha o aroma das batatas cozidas. De pé, sua velha tia chorava sem parar, com o lenço negro na cabeça e avental amarrado na cintura. José abraçou-a mais uma vez, sabendo que seria a última, entregou a chave e agradeceu, secando as lágrimas com o lenço branco que sempre trazia no bolso. Encostado em um dos pilares de madeira trabalhada, estava seu tio, com o rosto sério. Então, em um gesto carinhoso e ao mesmo tempo decidido, afastou com cuidado a mulher do sobrinho, e deu um forte abraço:
- Vai, José. Esta é a melhor decisão que você e Francisco tomaram. Nossa Polônia não tem nada a oferecer para vocês agora. Comece uma vida nova, uma família e mande notícias, se puder. Não nos esqueça, filho. Não esqueça nunca desta terra que sempre será sua mesmo sem ser reconhecida como Pátria. Que Deus os acompanhe!
Ele olhou demoradamente para os tios e a casa que lhe abrigou. Queria guardar na memória cada detalhe daquela cena e os rostos de sua família. Deixar seu país era mais que deixar aquela casa onde morou depois que seus pais morreram. Foi ali onde viveu seus melhores momentos com seu irmão, que, sabia, nunca mais iria encontrar, pois Francisco tinha tomado o rumo dos Estados Unidos, país estranho, mas com portas abertas aos imigrantes. Naquele lugar, ele falava sua língua. Mas tinha que seguir em frente e não estava mais só.
Fechou o portão de madeira e foi caminhando com sua pequena mala para a casa dos Pajeiak, também nos arredores de Ponz. Lembrava do dia que viu Catarina pela primeira vez, quando retornava do trabalho no campo. Seus belos olhos azuis cruzaram com os dela. Então, onde pudesse encontrar aquela menina, lá estava José, nas festas da igreja, nas ruas da cidade. Dos olhares, passaram às conversas, sempre acompanhadas pela mãe de Catarina, que observava atenta, como era costume. Em uma noite, José vestiu sua melhor roupa. Foi à casa dos Pajeiak e pediu Catarina em casamento. Ele tinha 26 e ela pouco mais de 16 anos. O casamento foi simples, na igreja da cidade, dias antes da viagem de trem ao porto para o navio que os levaria para tão longe.
Tão pouco tinha ele a oferecer, mas tanto amor para dar para aquela mulher decidida a enfrentar o futuro ao seu lado. Desde que a conheceu, ficou impressionado com a sua forma de pensar. José sempre acreditou que o amor à pátria deveria vir em primeiro lugar. Catarina era uma mulher prática que acreditava mais na capacidade das pessoas comuns do que na dos que governavam seu país, que naquela época tinha perdido a condição de Estado.
Antes de saírem, Pedro Pajeiak chama José e lhe entrega um pacote:
- José, você é o homem que Catarina escolheu para ser pai de meus netos. Não quero que nada falte a eles nem a ela, neste novo mundo que vão enfrentar. Não sabemos como será nosso futuro, mas tenho estas poucas economias. Aceite para seu início de vida, pelo menos com menos dificuldades.
- Obrigado, senhor Pajeiak. Nunca faltará nada a Catarina nem aos meus filhos. Sou trabalhador e isto o senhor pode ter certeza. Saio de meu país para que minha família tenha um nome a honrar e uma terra para plantar e que possa ter orgulho de ser polonesa, não importa onde for.
E, assim, José e Catarina Mierzwa deixaram Poznam e iniciaram sua longa viagem ao Brasil.

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