Os anos iniciais da década de 1970 marcaram mais chegadas para a família Miessva. Depois de Annamaria Rastelli, foi a vez de, em 22 de junho de 1973, receber a segunda filha de Vera e Enrico - a Paola, a nova ruivinha da família, com seus grandes olhos azuis.
Odette foi trabalhar com
um corretor de imóveis, vendendo casas no Brooklin Novo, bairro que era cortado
por ruas com nomes de estados norte-americanos, boas escolas estaduais e comércio
com pequenas lojas e supermercados. Tudo se encontrava no bairro e, se faltasse
algo, era só ir à rua Joaquim Nabuco, no Brooklin ou pegar um ônibus na Av.
Santo Amaro para o centro da cidade. E foi no final da rua Arizona, perto de uma mata que fazia divisa com o rio Pinheiros, que ela encontrou uma casa germinada,
nova, com pequena cerca branca e a frente com chapiscos em azul. Ignacio e Odette providenciaram a documentação para o financiamento em 15 anos e receberam sua casa própria - na rua George Ohm, número 320, abrigo de muitas histórias nas próximas décadas.
Em alguns finais de
semana, Anna e Paola ficavam com os avós enquanto Enrico e Vera faziam pequenas
viagens. Algumas vezes, Christian também era trazido pelo pai para
passar algumas horas e brincar com as primas Anna e Paola. Naqueles dias, a casa se tornava um pequeno parque de diversões sob os olhos dos
avós e tias ‘corujas’.
A caçula Maria Helena, que passaria a ser mais conhecida como Lena, terminou os estudos no Colégio Beatíssima Virgem Maria e ingressou no ensino público, para cursar o então colegial no Colégio Estadual Oswaldo Cruz. Ali fez novos amigos, com quem passou a frequentar festivais estudantis de música e festas regadas a cerveja e violão.
Aqueles anos também foram palco de várias viagens de carro para Odette e filhas para conhecer a Bahia e todo o sul do Brasil.
Ignacio mantinha seu escritório de contabilidade em casa, e descansava em temporadas em Águas de Lindoia ou na casa da cunhada em Ribeirão Preto.
Durante dois anos, Lena namorou
um rapaz baiano, alto, com cabelo enroladinho, que tocava violão e cantava com jeito todo especial. Com ele, Lena andava de ônibus por toda São Paulo, indo, por exemplo, ao cinema
Bijoux nos sábados à noite para assistir filmes proibidos para sua idade. Eudaudo era seu nome e Dau seu apelido. Costumava conversar sobre
política e expor suas opiniões sem grandes discussões, calma e comedidamente. Como
nunca se sabe o que se passa na cabeça de pais de meninas, Ignacio se mantinha
em silêncio quando o assunto era aquele namoro. Até que, certo dia, em um café
da manhã, ele pergunta para a filha caçula onde estava aquele rapaz que ele via
de vez em quando em casa... E ela responde imediatamente e brava que haviam decidido terminar o namoro. Então, o pai abriu enorme sorriso, se
levantou para levar os pratos para a pia da cozinha e começou a cantar!
Em fevereiro de 1975,
depois do Carnaval, Lena tinha saído com um rapaz que havia conhecido há
pouco tempo e estava conversando no carro dele quando Mario, um dos seus amigos, cumprimentou e entrou em sua casa – como muitas vezes faziam - para
conversar com Odette.
Minutos depois, Mario pede para Lena entrar e, na sala de visitas, ela recebe a notícia
que seu pai havia falecido. As três – Odette, Rosely e Lena choram juntas e aquele rapaz, quase desconhecido, teve gestos de enorme gentileza. Para evitar a autópsia pois ele havia tido um infarto fulminante, seria necessário a declaração do médico cardiologista que o atendia. Então, ele foi na casa do médico com
Rosely e, depois, com José Carlos, um dos sobrinhos do casal, auxiliou nos trâmites dolorosos,
mas necessários. Na mesma noite, Lena e Rosely foram comunicar a notícia à irmã mais
velha. Enrico abriu a porta do apartamento, colocou a mão na cabeça assim que soube e foi
chamar Vera, que veio de camisola e desmaiou assim que soube da perda do pai. Foram momentos difíceis que serviram para mais uma
vez mostrar que a união na família sempre se mostrou forte – cunhados, tios,
primos, primas – todos se revezaram nos dias seguintes ao enterro em um apoio
constante.
Odette em seus quase 59
anos, mostraria novamente sua garra em manter a casa como lugar de abrigo a quem precisasse e de aconchego para ela e as filhas Rosely e Lena. Com Vera Cecília, lidaram com a
perda de um homem especial que transmitiu valores como respeito ao próximo e ensinou
a sabedoria de ouvir.
Com Ignacio, as mulheres
Miessva aprenderam que a solidariedade e a atitude equilibrada em tempos adversos ou de bonança é o que faz a diferença nos relacionamentos e não necessariamente religião, status social ou a cultura aprendida em livros e cursos. Foi-se o mestre e ficaram as alunas, que
seguiram seus ensinamentos.
Odette pintando portão em 1972 Ignacio em pose no corredor




Pois é. Hoje também encontrei algumas fotos dessa época. E sem ter lido essa postagem. Coincidências.
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