sábado, 25 de abril de 2020

Em São Paulo, a família Aguirre Camargo cresce. No Paraná, professor de polonês vira guarda-livros.

Casados e com o primeiro filho nascido – Francisco – que logo ficou conhecido como Chiquito ­­– a família formada por Sebastiana e João de Aguirre Camargo vivia sua vida em Amparo, no interior paulista, onde João administrava uma fazenda de café. Ali nasceram na mesma casa os outros dois filhos – José, mais conhecido como Zuza, e Odila, a primeira ruivinha da família, todos de olhos claros.

A família contava com conforto em uma grande casa, com empregadas para cuidar dos pequenos. Então, João recebeu uma proposta para administrar a fazenda Tibiriçá, que fazia parte da grande fazenda Chimborazo, adquirida pelos ingleses formando a Companhia Cafeeira Britânica do Brasil na região de Cravinhos. Logo a mudança foi aceita, para que pudessem ficar mais perto dos parentes que moravam em Ribeirão Preto. E lá se foram de trem para uma das regiões que transformava a vida de brasileiros e estrangeiros, como muitos ingleses que vinham para cá investir no grão verde que, em boas colheitas, transformava tudo em riqueza. Ali, na fazenda Tibiriçá, nasceram os demais filhos – João, Maximiniano, Maria Odete – que faleceu com poucos meses ­– Odette, Olga, Rui, Carlos e Orlando.

Família grande, a mesa era sempre para 12 – isso quando não recebiam parentes ou amigos. Como em toda família, alguns eram mais tímidos, outros extrovertidos. Mas havia uma que marcou a vida dos irmãos e irmãs, e depois dos sobrinhos, primos e muitos amigos. Menina falante (como as irmãs Olga e Odila), Odette era uma autêntica leonina – ou seja, onde ela estava, criava alegria e, às vezes, confusão!  

A casa tinha um belo jardim antes da varanda e uma entrada lateral coberta, onde ficavam as charretes. Assim, as pessoas desciam na porta da casa, perto das escadas que davam para o alpendre. No lado esquerdo da grande sala de estar, ficava a de jantar e lado direito, havia o escritório de João de Aguirre – sempre fechado para as crianças. Depois, o espaço se dividia nos quartos – cada um para dois filhos. O banheiro tinha água fria vindo da caixa e quente, que também aquecia os quartos graças à serpentina colocada no fogão e que dali seguia nas paredes para conforto de todos.

Na época, as compras de roupas eram feitas por catálogo. Sebastiana escolhia, enviava carta e as encomendas com roupas de cama, mesa, banho e das crianças chegavam depois pelo correio.

A chegada do Ford importado foi marcante nos nove anos de idade e quem conta, ao narrar suas memórias, é Odette: “papai mandou fazer uma garagem especial, fechada com cortinas de pano”. Ele girava a maçaneta na frente do carro para pegar e Namá, Odette, Olga, Rui, Carlito e Orlandinho – os pequenos – subiam para passear com os pais no meio dos cafezais. Quando chovia, tinha que colocar correntes nas rodas para enfrentar os lamaçais que se transformavam as pequenas estradas. Mas, a grande aventura mesmo era ir para a escola, em Cravinhos, quando andavam quilômetros para chegar às aulas. 

De professor de polonês a guarda-livros

Enquanto isso, no final dos anos 1920, em Curitiba, a formatura de Ignacio foi celebrada em alto estilo. Depois do baile, saiu para celebrar com seus dois amigos mais próximos – um deles já tinha automóvel – ­­pelas ruas da capital paranaense. Para se manter, foi dar aulas de polonês, graças ao bom relacionamento que tinha com os padres do Colégio Henrique Sienkiewicz, onde estudou. Isto deu certo durante dois anos, mas veio uma vontade de conhecer mais, de ir além das paredes do colégio ou das festas. Então, com ajuda dos pais – que já tinham formado um pequeno pecúlio para o caçula – Ignacio foi para a capital de São Paulo. Ali, teve vários negócios como um pequeno hotel e uma fábrica de calçados, mas sem muito sucesso. Para diversificar, resolveu voltar a estudar e fez um curso de ciências contábeis e tornou-se guarda-livros, como eram chamados os contadores nos anos 1930. Desiludido com a capital, que não tinha trazido muita felicidade, Ignacio resolveu tentar a vida no interior paulista, e foi assim que chegou em Garça, para onde a família Aguirre Camargo havia se mudado novamente. Mas isso é outra história...
Estação Tibiriçá


Café imperava na grande fazenda Chimborazo

4 comentários:

  1. Gosto de ler como vc conta a historia de papai e mamãe!

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  2. Tempos áureos para uns. Desafiantes para outros. Mamãe dizia que guardava latas vazias de gasolina e depois vendia para ter troquei hospital.

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  3. Estou adorando ler estórias da familia!

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  4. Sou eu Fernanda, filha da Walkiria. Mas não consegui colocar meu nome no perfil!

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