domingo, 14 de junho de 2020

O charme de uma ruivinha na avenida Santo Amaro

Será que existem meninas assim?
Quatro anos se passam e nos primeiros meses de 1948, Odette fica grávida novamente e ganha de Ignacio uma caixa com bombons americanos. Na tampa, a figura de uma menina de cabelo bem vermelho com cachinhos e grandes olhos azuis. Ao olhar a caixa, ela comenta:
– Imagina se isto existe! Isto é propaganda americana. Não pode existir uma menina deste jeito!
Ela já tinha uma ruivinha, mas não era como a menina daquele desenho. Então colocou a caixa de bombons na cristaleira da sala, olhando sempre para aquela imagem. Em dezembro de 1948, dos dias depois do Natal, vai para o hospital com a cunhada Elsa, enquanto Ignacio fica com Toy e Vera, como lembra:
- Elsa foi fazer companhia para mim e então logo senti que a hora tinha chegado. Quando a Rosely nasceu, o dr. Barbosa disse brincando: eu quero esta menina para mim. É a coisa mais linda deste mundo! E ela era igual à figura da menina daquela caixa de bombons americanos!
Rosely tinha olhos azuis e cachos tão crespinhos que era preciso usar pentes bem grossos para pentear. E, como toda criança, não deixava porque doía muito. Quando muito pequena, Odette precisava colar as fitas com cola no cabelo e por onde passava, chamava a atenção. 
Certo dia, Rosely vestia um vestido de cambraia de linho azul, andando com sua mãe na rua Barão de Itapetininga, quando algumas pessoas pararam e pediram licença para colocar a mão no cabelo da menina para ver se era mesmo de verdade! 
Muito vaidosa desde pequenininha, sempre teve uma personalidade forte. Quando não gostava da pessoa, simplesmente nem olhava pela segunda vez. 
Mas, com três meninas (Rosely com meses e as meninas com cinco e seis anos), ficou difícil continuar morando no apartamento do Largo do Arouche, ainda que tivessem pertinho tudo o que precisavam. As maiores brincavam na escolinha da Praça da República, o atendimento médico gratuito era feito no Caetano de Campos, com acompanhamento quinzenal. Eles podiam ir ao cinema e deixar as meninas com um dos irmãos que moravam perto e que visitavam quase diariamente as sobrinhas, como recorda Odette:
- O Joãozinho ficava sempre com as crianças. E se eu comentasse que planejava sair com Ignacio, o Zuza e a Elsa iam para lá. Todos tinham paixão pelas meninas.
Ignacio tentou primeiro um apartamento maior no mesmo bairro, mas não deu certo. Naquela época, ele trabalhava na Casa dos Elásticos, na rua Líbero Badaró e fazia contabilidade da fazenda dos Barros, que moravam em Garça. Então, perguntou aos amigos e ainda via os anúncios que saíam no jornal O Estado de S. Paulo. Uma noite, voltou do trabalho e comentou com Odette que havia achado uma casa no fim da av. Brigadeiro Luiz Antonio, na Avenida Santo Amaro, número 347, que chamava a atenção pelo tamanho e se destacava naquela avenida com enormes árvores de flores roxas. 
Depois de visitada pelos dois, Ignacio foi tratar do aluguel com o proprietário na rua Boa Vista. Conversando, comentou que a família da mulher, Aguirre, era de Garça. Então, o proprietário enfaticamente respondeu que não só conhecia como era parente distante dos Aguirre e imediatamente fechou o negócio, reduzindo o preço do aluguel: “Ignacio, a casa é sua”. O fiador, Mariano de Carvalho Barros, comentou com o amigo Ignácio – “mas você nasceu virado para a Lua, esta casa é muito boa!” 
Na primavera, a avenida se transformava em um tapete roxo. Tinha um pequeno comércio e perto, ainda que fosse longe do centro e perto do parque Ibirapuera. 
A vida na Av. Santo Amaro
A casa era enorme, isolada de todos os lados. Branca, de tijolos à vista, tinha na entrada uma varanda onde as crianças patinavam quando ela era encerada (uma das brincadeiras da época). Na frente, um jardim com roseiras e árvores. Nos fundos, um grande quintal com parreira de uva e até um galinheiro – depois fechado quando proibiram que as pessoas em São Paulo tivessem criações. Havia ainda uma garagem, local preferido das meninas para brincar de casinha ou lojinha e que ficava ao lado do escritório de Ignacio, lugar considerado mágico para as meninas, com um canto embaixo das prateleiras com livros que nas brincadeiras se tornava esconderijo. 
Na mesa de trabalho, um abajur com uma lâmpada fluorescente, e na gaveta, o fumo de corda e a tesoura grande para ele fazer seus cigarros de palha. 
Na parte de cima da casa, ficavam os três quartos e uma sacada onde Rosely brincava na rede ou de escrever longas histórias em livros velhos de contabilidade. Depois, a varanda foi fechada com vidros e durante um período virou quarto da Verinha.  
Os primeiros vizinhos eram alemães e logo a falante Verinha fez amizade com eles, visitando-os sempre para tomar chá. Então, a casa ao lado ficou vaga e Helena e Francisco Mattos se mudaram para lá. Helena era sobrinha da cunhada de Odette e eles já se conheciam, se tornando amigos e compadres anos depois. Naquela casa da gostosa avenida Santo Amaro, onde moravam as três meninas, começava, naqueles primeiros anos da década de 50, amizades que iriam durar para o resto das vidas dos pais e delas. E estas amizades geraram histórias novas que logo, logo, serão contadas!  
Em 1952, a ida para Vila Nova Conceição  

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