Odette e Inacio ficaram apenas alguns dias completamente sós. Logo, chegam os pais de Odette para visitá-los, apreciando a região central de São Paulo e a vida do casal. O apartamento, ainda que fosse pequeno, abriga, em várias passagens ao longo de quase dez anos, irmãos, irmãs e outros parentes. Carlito, um dos irmãos mais jovens, almoça ali todo dia. Joãozinho, um dos irmãos mais velhos, visitava sempre o casal.
Aos
poucos, Odette foi conhecendo as lojas do centro, o Largo do Arouche e a Praça
da República. São Paulo, naquela época, era semelhante às capitais europeias e
seus costumes – homens de chapéu e mulheres com vestidos um pouco abaixo dos
joelhos, bem cinturados. No rádio, as notícias
da II Guerra. Na vitrola, os discos de ópera e de grandes tenores.
Na passagem
de 1942 para 1943, Odette ficou enjoada com a comida da ceia, e nos
primeiros dias do novo ano, resolveu ir ao dr. Barbosa, um baixinho com forte sotaque caipira e amigo
da família - que confirmou a gravidez. Desnutrida, precisa tomar muitas
vitaminas, pois – como todas as noivas – tinha feito um rígido regime para
casar. Depois de três meses de gravidez, o enjoo passa e tudo fica melhor.
No
começo da gravidez, em alguns noites, tinha dificuldade em dormir. Então, certa
noite, Ignácio pergunta:
–
Odette, você não está dormindo. Por que? Está com vontade de comer alguma
coisa?
-
Amanhã, quando você sair, me compra uma empadinha.
Ele se levanta,
troca de roupa e sai às três horas da manhã. No Largo do Arouche, sempre havia alguns
bares abertos durante toda a noite. Logo, volta com empadinhas e
carinhosamente, as entrega:
– Agora,
Odette, você pode comer a empadinha e dormir.
E foi o
que ela fez, com muito prazer e rindo do marido de poucas palavras, mas de gestos
inusitados.
Para ajudar
no nascimento, Sebastiana, sua mãe, vem de Garça, com a irmã mais velha Odila.
Quando as três estavam conversando, Odette vai ao banheiro e vem a primeira
cólica. Então, avisa o marido:
– Ignácio,
vamos para o hospital, que eu vou ter o neném.
Com as
malas já prontas, pegam um táxi para o hospital Santa Cecília, ali perto. No
ponto de táxi, os motoristas que conheciam o casal, tinham feito uma aposta –
menino ou menina?
O parto
foi tão rápido que nem deu tempo do dr. Barbosa chegar. Uma charmosa parteira
alemã, toda perfumada, ajudou no nascimento da menina com cabelos negros, olhos
claros e 3,5 kgs. Quando o dr. Barbosa chegou, já entrou no quarto perguntando:
– Uai, porque não me chamou antes? É
uma menina! Então, como vai chamar?
– Vai se chamar Antonia, responde a
jovem mãe.
– Mas este nome não é bonito. Uma
menina tão bonita com nome de Antonia? Não gosto deste nome, respondeu
enfaticamente o médico.
– O nome é por causa de uma promessa
que fiz para Santo Antonio, para que se eu tivesse um marido paciente, o
primeiro filho iria se chamar Antonio ou Antonia, responde mais enfaticamente a
mãe.
Era 13
de setembro de 1943, e dias depois, a menina é registrada com o nome de Antonia
Maria Miessva, o que gera uma discussão no casal, pois ela recebe apenas o
sobrenome paterno. Logo a pequena se torna a querida dos tios, e, em especial o
tio Joãozinho, que adora os seus cachinhos pretos. Odila fica mais alguns meses
em São Paulo, pois estava noiva e precisava de apoio para o seu casamento com
Geraldo, dez anos mais moço que ela, fato incomum naquela época. Em uma
cerimônia simples, Odette e Ignácio foram seus padrinhos de casamento.
Meses
depois, Catarina, a mãe de Ignacio, vem do Paraná para conhecer a neta e a
nora. Acompanhada por um de seus genros, Catarina usava um lencinho preto,
hábito usado por poloneses. Foi a primeira vez que Odette ouviu seu marido
falar o idioma de seus pais. Anos depois, lembrando aquela visita, ele refletia:
– Eu
sabia que eram polacos, mas foi muito estranho ouvi-los conversando naquela língua
difícil e complicada. Quando
a conheci, pude entender melhor o Ignácio. Ele tinha outra cultura, uma formação
bem diferente da que tive e seu jeito de ser tinha muito a ver com suas origens.
Além da
família, a presença de muitos amigos sempre foi constante na casa dos Miessva. Uma
delas foi Julia. Naquela época, ela trabalhava na Feira das Nações, uma loja de secos e
molhados no Largo do Arouche. Ela e o marido, Athayde, foram os padrinhos de batismo de
Antonia Maria, que logo se tornou conhecida entre todos como Toy.
Meses depois, um dia, Ignácio olha
para sua mulher e afirma categoricamente:
– Odette, você está grávida!
Ela ri e respondi:
– Ignácio, deixa de
brincar com coisa séria!
Na semana seguinte, ela foi ao dr.
Barbosa, que examinou e confirmou:
– Você está grávida outra vez e vai
precisar de vitaminas para ficar forte.
Após uma
gravidez também tranquila, em 30 de outubro de 1944, nasce a segunda filha do
casal – Vera Cecília de Aguirre Miessva, uma ruivinha de olhos azuis e que se torna
a companheira fiel da irmã mais velha desde pequenina.
No único
quarto do apartamento, cada uma dormia ao lado de um dos pais. Quando choravam
de noite, Odette ficava com Antonia Maria e Ignácio cuidava de Vera Cecília.
Outros amigos desde o início do
casamento eram Elias e Adma e sua irmã Lenira. Elias, que era cliente do Ignácio,
e as amigas Adma e Lenira ajudaram o casal a criar as meninas. Nesta época, por
causa da guerra mundial, havia racionamento de farinha, entre outros produtos, e
ninguém tinha pão, como contou Odette:
– Lenira comprava bolacha importada
de trigo, eu passava na máquina de moer carne. Aquilo se transformava novamente
em farinha e fazíamos pão para as meninas, que adoravam a “tia Lelila”.
E assim os anos se passaram até
chegar a terceira mulher da família, mas isso é outro capítulo...


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