segunda-feira, 8 de junho de 2020

Presença feminina, sempre

Odette e Inacio ficaram apenas alguns dias completamente sós. Logo, chegam os pais de Odette para visitá-los, apreciando a região central de São Paulo e a vida do casal. O apartamento, ainda que fosse pequeno, abriga, em várias passagens ao longo de quase dez anos, irmãos, irmãs e outros parentes. Carlito, um dos irmãos mais jovens, almoça ali todo dia.  Joãozinho, um dos irmãos mais velhos, visitava sempre o casal.

Aos poucos, Odette foi conhecendo as lojas do centro, o Largo do Arouche e a Praça da República. São Paulo, naquela época, era semelhante às capitais europeias e seus costumes – homens de chapéu e mulheres com vestidos um pouco abaixo dos joelhos, bem cinturados.  No rádio, as notícias da II Guerra. Na vitrola, os discos de ópera e de grandes tenores.

Na passagem de 1942 para 1943, Odette ficou enjoada com a comida da ceia, e nos primeiros dias do novo ano, resolveu ir ao dr. Barbosa,  um baixinho com forte sotaque caipira e amigo da família - que confirmou a gravidez. Desnutrida, precisa tomar muitas vitaminas, pois – como todas as noivas – tinha feito um rígido regime para casar. Depois de três meses de gravidez, o enjoo passa e tudo fica melhor.

No começo da gravidez, em alguns noites, tinha dificuldade em dormir. Então, certa noite, Ignácio pergunta:

­– Odette, você não está dormindo. Por que? Está com vontade de comer alguma coisa?

- Amanhã, quando você sair, me compra uma empadinha.

Ele se levanta, troca de roupa e sai às três horas da manhã. No Largo do Arouche, sempre havia alguns bares abertos durante toda a noite. Logo, volta com empadinhas e carinhosamente, as entrega:

– Agora, Odette, você pode comer a empadinha e dormir.

E foi o que ela fez, com muito prazer e rindo do marido de poucas palavras, mas de gestos inusitados.

Para ajudar no nascimento, Sebastiana, sua mãe, vem de Garça, com a irmã mais velha Odila. Quando as três estavam conversando, Odette vai ao banheiro e vem a primeira cólica. Então, avisa o marido:

– Ignácio, vamos para o hospital, que eu vou ter o neném.

Com as malas já prontas, pegam um táxi para o hospital Santa Cecília, ali perto. No ponto de táxi, os motoristas que conheciam o casal, tinham feito uma aposta – menino ou menina? 

O parto foi tão rápido que nem deu tempo do dr. Barbosa chegar. Uma charmosa parteira alemã, toda perfumada, ajudou no nascimento da menina com cabelos negros, olhos claros e 3,5 kgs. Quando o dr. Barbosa chegou, já entrou no quarto perguntando:

Uai, porque não me chamou antes? É uma menina! Então, como vai chamar?

– Vai se chamar Antonia, responde a jovem mãe.

– Mas este nome não é bonito. Uma menina tão bonita com nome de Antonia? Não gosto deste nome, respondeu enfaticamente o médico.

– O nome é por causa de uma promessa que fiz para Santo Antonio, para que se eu tivesse um marido paciente, o primeiro filho iria se chamar Antonio ou Antonia, responde mais enfaticamente a mãe.

Era 13 de setembro de 1943, e dias depois, a menina é registrada com o nome de Antonia Maria Miessva, o que gera uma discussão no casal, pois ela recebe apenas o sobrenome paterno. Logo a pequena se torna a querida dos tios, e, em especial o tio Joãozinho, que adora os seus cachinhos pretos. Odila fica mais alguns meses em São Paulo, pois estava noiva e precisava de apoio para o seu casamento com Geraldo, dez anos mais moço que ela, fato incomum naquela época. Em uma cerimônia simples, Odette e Ignácio foram seus padrinhos de casamento.

Meses depois, Catarina, a mãe de Ignacio, vem do Paraná para conhecer a neta e a nora. Acompanhada por um de seus genros, Catarina usava um lencinho preto, hábito usado por poloneses. Foi a primeira vez que Odette ouviu seu marido falar o idioma de seus pais. Anos depois, lembrando aquela visita, ele refletia:

– Eu sabia que eram polacos, mas foi muito estranho ouvi-los conversando naquela língua difícil e complicada. Quando a conheci, pude entender melhor o Ignácio. Ele tinha outra cultura, uma formação bem diferente da que tive e seu jeito de ser tinha muito a ver com suas origens.

Além da família, a presença de muitos amigos sempre foi constante na casa dos Miessva. Uma delas foi Julia. Naquela época, ela trabalhava na Feira das Nações, uma loja de secos e molhados no Largo do Arouche. Ela e o marido, Athayde, foram os padrinhos de batismo de Antonia Maria, que logo se tornou conhecida entre todos como Toy.

Meses depois, um dia, Ignácio olha para sua mulher e afirma categoricamente:

– Odette, você está grávida!

Ela ri e respondi: 

 Ignácio, deixa de brincar com coisa séria!

Na semana seguinte, ela foi ao dr. Barbosa, que examinou e confirmou:

– Você está grávida outra vez e vai precisar de vitaminas para ficar forte.

Após uma gravidez também tranquila, em 30 de outubro de 1944, nasce a segunda filha do casal – Vera Cecília de Aguirre Miessva, uma ruivinha de olhos azuis e que se torna a companheira fiel da irmã mais velha desde pequenina.

No único quarto do apartamento, cada uma dormia ao lado de um dos pais. Quando choravam de noite, Odette ficava com Antonia Maria e Ignácio cuidava de Vera Cecília.

Outros amigos desde o início do casamento eram Elias e Adma e sua irmã Lenira. Elias, que era cliente do Ignácio, e as amigas Adma e Lenira ajudaram o casal a criar as meninas. Nesta época, por causa da guerra mundial, havia racionamento de farinha, entre outros produtos, e ninguém tinha pão, como contou Odette:

– Lenira comprava bolacha importada de trigo, eu passava na máquina de moer carne. Aquilo se transformava novamente em farinha e fazíamos pão para as meninas, que adoravam a “tia Lelila”.

E assim os anos se passaram até chegar a terceira mulher da família, mas isso é outro capítulo...


 A família Miessva no Largo      Odette, a pequena Toy e a bebê Vera  

do Arouche.

 

 


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