domingo, 5 de julho de 2020

A chegada de Helena. O preparo para nova década.

A chegada de Helena
A família parecia completa. Três lindas meninas. Uma casa movimentada, sempre recebendo visitas de familiares que ainda moravam em Garça. Mas logo, logo isto iria mudar. Em dezembro de 1955, o Ano Novo foi celebrado na casa de Ruy, um dos irmãos menores de Odette, em Perus, cidade perto de São Paulo, onde ele era o responsável pela fábrica de cimentos lá instalada. Era uma gostosa casa que tinha enorme quintal, horta com grande variedade de legumes e verduras, área coberta para festas e churrascos, um local para patos, coelhos e alguns cachorros. Na festa familiar, Tibi tinha preparado seus deliciosos pratos  com um pouquinho de pimenta, como boa baiana.
Na arrumação da mesa, com pratos para mais de 20 pessoas, Odette comentou que estava grávida. A cunhada, meio séria e meio brincalhona, respondeu:
– Não está, não. Você está tomando muito vinho!
No dia seguinte, Odette telefonou para sua mãe e comentou que estava grávida, ao que a mãe, rapidamente respondeu:
- Ah, você bebeu demais, minha filha. Não é para beber tanto assim no Réveillon! 
Na semana seguinte, ela foi ao dr. Barbosa, que ao vê-la entrar no consultório, olhou firme e afirmou, rindo:
– Odette, você está grávida! E te digo, se for mais uma menina, é minha! Você tem três, e eu não tenho nenhuma! Se for uma menina, será minha e de minha mulher! 
Como bom amigo, além de médico, alertou para o fato de ela estar com quase 40 anos e que aquele parto seria considerado de risco.  Ela seguiu as instruções direito, tomou vitaminas e engordou apenas o peso do futuro bebê.
Como as duas filhas mais velhas estudavam no colégio interno em Garça, Odette viajou com Ignacio e Rosely na Páscoa para visitar as meninas e ver seus pais. Sua mãe não estava bem de saúde e a família tinha decidido que iriam se mudar para São Paulo – onde a maioria dos filhos já moravam. O bairro escolhido foi a Vila Nova Conceição, perto da casa de Ignacio e Odette e de Namá e Lucila. A mudança foi feita e Odette e suas cunhadas arrumaram a casa com tudo novo para recebê-los com o filho Joãozinho, que ainda morava com os pais. Tudo preparado para uma nova etapa de vida, em que receberiam atenção, carinho e cuidados daqueles de quem cuidaram durante suas vidas. 
O feriado de 7 de setembro se aproximava e Odette sentiu as dores na véspera. Como em outras vezes, sua cunhada Elza lhe acompanhou na ida ao hospital e Ignacio ficou em casa com Rosely. Às 20h15 de 6 de setembro, em uma quinta-feira, nascia a última menina da família – Maria Helena. O nome Helena foi em homenagem à sua futura madrinha – Helena Jardim Mattos, amiga e vizinha da família. 
O bebê era a atração dos primos e primas que se divertiam em dar banho e arrumar aquela menininha gordinha que nasceu quase sem cabelo e com grandes olhos claros, como as irmãs. Era chamada em casa por Lelena e, depois, desde sua infância, entre amigos, ficou conhecida como Lena. 

Uma nova matriarca para as futuras gerações
O final de 1956 foi celebrado com a volta definitiva das meninas Toy e Vera do colégio interno. Logo depois, com a casa nova toda arrumada, era a vez de Sebastiana e João com o filho Joãozinho se mudarem para São Paulo. As meninas visitavam sempre os avós e se divertiam com os primos em gostosos lanches preparados por Odette e suas cunhadas. 
Mas a asma que por toda a vida tanto incomodou Sebastiana tornou-se pior e ela precisou ser internada na Santa Casa de Misericórdia de Santos. A pequena Lelena, aos seis meses, ficou com seus padrinhos Helena e Mattos – ainda que seu nome fosse Francisco, ninguém o chamava assim. Na casa dos padrinhos, o filho Netinho brincava com a ruivinha Rosely quase todo dia. Gostavam tanto da companhia um do outro, que tiraram uns tijolos do muro entre as duas casas, para que pudessem conversar sem perder tempo entre entrar e sair de suas casas.  
Sebastiana voltou para casa, mas sem apresentar melhora. E, em seis de agosto de 1957, como fazia todas as tardes, Odette estava com ela. Deitada, magrinha como sempre foi em toda sua vida, olhou para a filha e perguntou: 
- Você não consegue me arranjar um médico, minha filha? 
Odette olhou para o quadro de Jesus que estava na parede e segurou o choro.
- Então, minha filha, é o fim, não é? 
- Minha mãe, a hora ninguém sabe. 
- Odette, como se morre?
- A senhora não se incomode com isto. Na hora, eu ensino a senhora.
- Então, está bem. Eu vou ficar tranquila e não vou me preocupar mais. Mas vou entregar meus filhos para você cuidar.
- Pode deixar, mamãe. Não se preocupe. Eu vou cuidar de tudo.  
E Odette ficou ali, depois de aplicar mais uma injeção. Poucas horas depois, sua mãe morria, dizendo:
- Odette, eu já vou, já vou, já vou...
E, assim, ela assumiu o papel da matriarca da família. Estava preparada e tinha Ignácio ao seu lado, que gostava da sua família. Quando as pessoas chegavam para almoçar ou jantar mesmo sem avisar ele ficava feliz. E acolhia quem precisava de abrigo. Foi assim com várias pessoas da família, em tempos difíceis. Foi assim em um período que o sogro João morou ali. De manhã, aquele que havia trabalhado tanto em fazendas, brincava com a neta Lelena no amplo quintal. Nas noites de sábado, se divertia com os bailinhos organizados pelas netas mais velhas e que reuniam as garotas e rapazes do bairro. Ele descia todo arrumado e cumprimentava um a um, contando sua vida no interior. As mães dessa turma se conheceram e se tornaram amigas por toda uma vida. Letícia, que tinha um loja de armarinhos na avenida Santo Amaro, recebia sempre a Vera, que era grande amiga de sua filha Edna. Celina, que morava perto, já tinha se acostumado com a presença da Toy, amiga de Valéria. E ainda tinha a casa de Ione, mãe de Stela, também grande amiga da Toy. Todas moravam no bairro e era comum passearem pelas ruas e pela avenida Santo Amaro. As compras eram feitas no centro da cidade, e ir a Mappin era programa de um dia inteiro!  

Novidades. Sempre. 
A família Miessva adorava novidades. Foi assim com a geladeira e com a chegada da televisão. Os filmes de Hollywood atraíam as meninas e quando Ignácio chegava do seu escritório de contabilidade, que ficava pertinho, em duas salas em cima do cine Radar, na Av. Santo Amaro, e via todo mundo chorando, costumava comentar com sua mulher na cozinha:
- Mas elas só choram, Odette? Será que na televisão não tem algo mais alegre? 
Depois do jantar, Odette costurava e ia dormir mais tarde. Toy e Vera estudavam no Liceu Eduardo Prado e Rosely no Colégio Nossa Senhora da Aparecida. Na época dos exames, todos se reuniam para ali estudar. Edna e o irmão Edson, Stella, Valeria. Quer dizer... quase sempre...
Vera Cecília sempre foi muito brincalhona e fazia uma boa dupla com Edna. Às vezes, na rua,   acenavam para um táxi. Quando ele parava, uma perguntava: 
- Está livre?
Claro que o motorista respondia que sim. E as duas respondiam, rindo:
- Então, viva a liberdade!
A vida por ali era mesmo agitada. Certo dia,  um senhor bateu na porta e Odette foi atender:
- A senhora não quer comprar uma perua?
Ao saber o preço, questionou o motivo de estar tão barato, ao que o senhor respondeu que o perú tinha morrido e ele ficado só com a perua. Então, comprou e colocou a perua no quintal, em uma parte do galinheiro. De tarde, seu irmão Zuza, que sempre passava lá para deixar frutas e legumes que trazia do sítio, chegou e foi logo olhar a perua.
- Mas, Odette, você comprou uma perua doente! Ela está com gogo.
- Ah, Zuza, se é isto, eu sei tratar. Aprendi na fazenda com mamãe. É só pegar cinza, misturar com limão e sal e passar na linguinha do bichinho. Depois pega a faca e puxa a pele da língua para sair o gogo. 
- Ah, então faz isto, que eu quero ver se resolve mesmo.  
Enquanto tratava a perua, pensava consigo que parecia mesmo que o pobre bichinho ia morrer. Na manhã do dia seguinte, escutou um piado diferente e lembrou da perua que quase tinha morrido! Ao chegar no quintal, lá estava a dita cuja, viva e forte. Mas não ficou muito por aí. Semanas depois, Zuza a levou para o sítio, trocando por três frangos. Depois, ele comprou um peru e fez uma criação. E de vez em quando, aparecia com um perú para Odette preparar e reunir irmãos, cunhadas e sobrinhos. 
Assim foi o início dos anos 1960 da família Miessva, permeado por certa ingenuidade, certa leveza no ar, pronta para o que desse e viesse. E essa força foi necessária nos anos seguintes que traria muitas mudanças.



As crianças iam no fotógrafo fazer books!


Rosely e Lelena esperando meia noite no Natal


As quatro na praia: Toy, Rose, Lelena e Vera






2 comentários:

  1. Bom demais, Lena, ler suas histórias, passear pelas lembranças da família, da cidade...Continue a escrevê-las.

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