domingo, 19 de julho de 2020

Tempos difíceis e mudanças a caminho

Tempos díficeis

Os negócios da Braspar Serviços de Contabilidade - que unia as palavras Bras (de Brasil) com Par (do Paraná), progrediam e Ignacio chegou a ter 60 clientes. Para atender às demandas que cresciam, contratou dois rapazes para auxiliá-lo: Waldemar e Walter. Odette ajudava de noite, fazendo algumas atividades como razão e diário dos clientes. Para dar conta de tudo, Ignacio passou a trabalhar muito – às vezes ia direto até as duas horas da manhã e depois o Walter continuava as tarefas logo pela manhã. Visitava os clientes, coordenava todas as atividades e, para dar conta de tudo,  mudou sua rotina, dormindo tarde e levantando cedo. 

Certo dia em 1960, Ignacio chegou em casa com dor no braço esquerdo. Abraçou Odette e disse:

- Vou deitar um pouco. Não estou aguentando de dor.

Como não melhorou, Odette chamou o dr. Almeida, o médico da família, que após examiná-lo, alertou:

- Precisa internar agora, Odette, ele está tendo um infarto!

O táxi foi chamado e foram para o hospital São Luiz, que ficava ali perto. Odette assinou os papeis, internando o marido. Telefonou para o Walter, que estava de férias, pedindo que voltasse para o escritório. No hospital, o médico disse que talvez ele não aguentasse, seriam 24 horas de alerta e se Ignacio superasse este período, teria que fazer um tratamento prolongado. Horas depois, as meninas voltavam da escola e ouviam a explicação da situação, no estilo Odette em tratar as crises:

- Não quero drama e vocês precisam me ajudar.

Ela voltou para o hospital e à noite, Ignácio passou mal e teve falta de ar. Mas, na madrugada, conseguiu dormir e quando o dia amanheceu, sua cor tinha voltado ao rosto. Perguntou das meninas, querendo ir para casa:

- Odette, eu fico só hoje, não é? Mas se eu ficar mais, você precisa assumir o escritório.

Quando ele saiu do hospital, em 11 de novembro, precisou fazer repouso e ficou três meses afastado do trabalho. Naquela época, era comum que as pessoas enfartadas tivessem que drasticamente reduzir o ritmo e os médicos recomendavam afastamento do trabalho por meses. Os amigos do casal ajudaram, cada um de sua forma, como Armando, amigo da juventude de Odette, antigo namorado de sua irmã mais velha Odila, que orientava nas contas gerais. Outros amigos foram Elias e Adma, conhecidos desde o início do casamento. Por uma triste coincidência, ficaram ainda mais próximos. No mesmo dia que Ignacio sofreu o infarto, Adma, mulher de Elias, sofreu um acidente e precisou amputar a perna, no mesmo hospital. Ali, Elias e Odette passaram juntos dias difíceis. Às vezes, iam para o escritório e choravam com a amiga Lenira, irmã de Adma. Armando foi outro amigo sempre presente, buscando orientá-la com as contas e se colocando à disposição para o que fosse preciso – a amizade era cultivada desde a mocidade de Odette, quando ele foi namorado da irmã mais velha Odila.

Odette enfrentaria um dos períodos mais difíceis de sua vida. Tinha sido criada para cuidar da casa, ajudar o marido, mas ficar sempre na retaguarda. Ignácio representava seu esteio e, de repente, ela se viu em uma situação inédita, tendo que assumir várias frentes.

O infarto marcou muitas mudanças na família e, especialmente, na vida do casal. Mas algo passou incólume naquela primeira grande crise: preservar sempre a família, mantendo as meninas unidas e com as portas da casa sempre abertas a quem precisasse de um apoio e também viesse oferecer um ombro amigo.

Anos 1960 com mais mudanças

Os primeiros anos da década de 1960 foram de muito trabalho e mudanças na vida de todos. Vera Cecília estudava no Liceu Eduardo Prado e Toy cursava secretariado no Colégio Mackenzie. Rosely, entrando na adolescência, e marcando seu lado independente,  trabalhou um período na loja em frente da casa da Avenida Santo Amaro, e estudava no Colégio Nossa Senhora da Aparecida.

Um dos dias marcantes, para quebrar o jejum de celebrações, foi o aniversário de cinco anos da pequena Lena, em 1961. As irmãs, com suas amigas e primas, arrumaram a casa, e o tema da festa foi a Casa dos Três Porquinhos. Odette criou um bolo especial, montando uma casinha com palitos de chocolate, grama verde de açúcar colorido e colocando os porquinhos do presépio de Natal para dar o tom real. Nas paredes da casa, foram colocados grandes desenhos de personagens de Walt Disney. Na cozinha, as meninas prepararam olho de sogra, brigadeiro, balas de café e de coco. Além dos salgadinhos, foram montados pequenos sanduiches com fatias de pão Pulmann cortadas em quatro pedaços.

Então, um fato ajudou a gerar mais mudanças na vida da família. Athayde, padrinho da Toy, conversou com os amigos várias vezes, comentando que as meninas precisavam conhecer mais gente, fazer esportes, ir a festas maiores além das que aconteciam no bairro. Tanto insistiu que Ignácio concordou e  fez a proposta para adquirir um título familiar do Esporte Clube Pinheiros em 2 de maio de 1962. Como fontes de referência, os sócios Athayde de Moreira Pires e Ignacio Ormesto, as agências do Itaim dos bancos Moreira Salles e Itaú. Além disso, cartas dos clientes Anastacio e Cia e a Indústria de Calçados Americanas S.A.  com as certidões de casamento e nascimento de todos, atestados médicos e fotografias 3x4. Após todos os trâmites terem sido cumpridos e aprovados pelo Club, uma carta foi emitida em 11 de julho de 1962 e, em novembro do mesmo ano, Ignácio adquiriu o título familiar de Hugo Leão de Menezes Montenegro.

Era o início de uma etapa. Meses depois, a família mudou-se para a rua João Lourenço, pois as residências da Av. Santo Amaro naquele quarteirão seriam derrubadas para dar lugar a um prédio de apartamentos.

Vida nova no mesmo bairro

A nova casa tinha um muro de pedras e portão de grade. No fundo, havia uma garagem enorme e dois pequenos quartos ao lado da área de lavanderia. A casa tinha três dormitórios, uma bela sala de visita com gesso em sanca no teto, porta de vidro com cortinas brancas e uma cozinha com uma grande mesa para todos jantarem, hora que se reuniam para contar as novidades.

No quarto da frente, com janela para o jardim, dormiam Lena e Rosely, em um beliche. No quarto dos fundos, que tinha janela para o quintal, dormiam Toy e Vera. Ignacio e Odette ficavam no quarto do meio, cuja janela dava para um pequeno jardim de inverno.

A João Lourenço e as outras ruas próximas formavam a gostosa Vila Nova Conceição, onde Lena logo passou a integrar a turma mirim do bairro. Costumavam brincar na rua ou na pracinha que ficava a poucas quadras dali, perto da rua Afonso Brás. Os cuidados médicos eram feitos no Posto de Saúde Municipal ali perto, ao lado da escola municipal frequentada pelas crianças do bairro.

Quando Ignácio voltou para as atividades no escritório, Odette continuou a trabalhar, primeiro com  vendas de enxovais para noivas, que buscava na rua São Caetano. Depois, passou a costurar sob encomenda, dividindo as tarefas com a amiga Jamile que morava pertinho.

Os primeiros vizinhos foram a família Laub, com Lourdes e filhos com as mesmas idades de Toy e Vera. O endereço mudou, mas a atmosfera continuou a mesma e a nova casa passou a receber amigos e primos para os lanches das tardes de sábado, além das visitas dos primos e tios, especialmente nos finais de semana.

E logo, logo, novos personagens ingressariam no convívio da família Miessva...


Na rua João Lourenço, Odette e Lena.


 


domingo, 5 de julho de 2020

A chegada de Helena. O preparo para nova década.

A chegada de Helena
A família parecia completa. Três lindas meninas. Uma casa movimentada, sempre recebendo visitas de familiares que ainda moravam em Garça. Mas logo, logo isto iria mudar. Em dezembro de 1955, o Ano Novo foi celebrado na casa de Ruy, um dos irmãos menores de Odette, em Perus, cidade perto de São Paulo, onde ele era o responsável pela fábrica de cimentos lá instalada. Era uma gostosa casa que tinha enorme quintal, horta com grande variedade de legumes e verduras, área coberta para festas e churrascos, um local para patos, coelhos e alguns cachorros. Na festa familiar, Tibi tinha preparado seus deliciosos pratos  com um pouquinho de pimenta, como boa baiana.
Na arrumação da mesa, com pratos para mais de 20 pessoas, Odette comentou que estava grávida. A cunhada, meio séria e meio brincalhona, respondeu:
– Não está, não. Você está tomando muito vinho!
No dia seguinte, Odette telefonou para sua mãe e comentou que estava grávida, ao que a mãe, rapidamente respondeu:
- Ah, você bebeu demais, minha filha. Não é para beber tanto assim no Réveillon! 
Na semana seguinte, ela foi ao dr. Barbosa, que ao vê-la entrar no consultório, olhou firme e afirmou, rindo:
– Odette, você está grávida! E te digo, se for mais uma menina, é minha! Você tem três, e eu não tenho nenhuma! Se for uma menina, será minha e de minha mulher! 
Como bom amigo, além de médico, alertou para o fato de ela estar com quase 40 anos e que aquele parto seria considerado de risco.  Ela seguiu as instruções direito, tomou vitaminas e engordou apenas o peso do futuro bebê.
Como as duas filhas mais velhas estudavam no colégio interno em Garça, Odette viajou com Ignacio e Rosely na Páscoa para visitar as meninas e ver seus pais. Sua mãe não estava bem de saúde e a família tinha decidido que iriam se mudar para São Paulo – onde a maioria dos filhos já moravam. O bairro escolhido foi a Vila Nova Conceição, perto da casa de Ignacio e Odette e de Namá e Lucila. A mudança foi feita e Odette e suas cunhadas arrumaram a casa com tudo novo para recebê-los com o filho Joãozinho, que ainda morava com os pais. Tudo preparado para uma nova etapa de vida, em que receberiam atenção, carinho e cuidados daqueles de quem cuidaram durante suas vidas. 
O feriado de 7 de setembro se aproximava e Odette sentiu as dores na véspera. Como em outras vezes, sua cunhada Elza lhe acompanhou na ida ao hospital e Ignacio ficou em casa com Rosely. Às 20h15 de 6 de setembro, em uma quinta-feira, nascia a última menina da família – Maria Helena. O nome Helena foi em homenagem à sua futura madrinha – Helena Jardim Mattos, amiga e vizinha da família. 
O bebê era a atração dos primos e primas que se divertiam em dar banho e arrumar aquela menininha gordinha que nasceu quase sem cabelo e com grandes olhos claros, como as irmãs. Era chamada em casa por Lelena e, depois, desde sua infância, entre amigos, ficou conhecida como Lena. 

Uma nova matriarca para as futuras gerações
O final de 1956 foi celebrado com a volta definitiva das meninas Toy e Vera do colégio interno. Logo depois, com a casa nova toda arrumada, era a vez de Sebastiana e João com o filho Joãozinho se mudarem para São Paulo. As meninas visitavam sempre os avós e se divertiam com os primos em gostosos lanches preparados por Odette e suas cunhadas. 
Mas a asma que por toda a vida tanto incomodou Sebastiana tornou-se pior e ela precisou ser internada na Santa Casa de Misericórdia de Santos. A pequena Lelena, aos seis meses, ficou com seus padrinhos Helena e Mattos – ainda que seu nome fosse Francisco, ninguém o chamava assim. Na casa dos padrinhos, o filho Netinho brincava com a ruivinha Rosely quase todo dia. Gostavam tanto da companhia um do outro, que tiraram uns tijolos do muro entre as duas casas, para que pudessem conversar sem perder tempo entre entrar e sair de suas casas.  
Sebastiana voltou para casa, mas sem apresentar melhora. E, em seis de agosto de 1957, como fazia todas as tardes, Odette estava com ela. Deitada, magrinha como sempre foi em toda sua vida, olhou para a filha e perguntou: 
- Você não consegue me arranjar um médico, minha filha? 
Odette olhou para o quadro de Jesus que estava na parede e segurou o choro.
- Então, minha filha, é o fim, não é? 
- Minha mãe, a hora ninguém sabe. 
- Odette, como se morre?
- A senhora não se incomode com isto. Na hora, eu ensino a senhora.
- Então, está bem. Eu vou ficar tranquila e não vou me preocupar mais. Mas vou entregar meus filhos para você cuidar.
- Pode deixar, mamãe. Não se preocupe. Eu vou cuidar de tudo.  
E Odette ficou ali, depois de aplicar mais uma injeção. Poucas horas depois, sua mãe morria, dizendo:
- Odette, eu já vou, já vou, já vou...
E, assim, ela assumiu o papel da matriarca da família. Estava preparada e tinha Ignácio ao seu lado, que gostava da sua família. Quando as pessoas chegavam para almoçar ou jantar mesmo sem avisar ele ficava feliz. E acolhia quem precisava de abrigo. Foi assim com várias pessoas da família, em tempos difíceis. Foi assim em um período que o sogro João morou ali. De manhã, aquele que havia trabalhado tanto em fazendas, brincava com a neta Lelena no amplo quintal. Nas noites de sábado, se divertia com os bailinhos organizados pelas netas mais velhas e que reuniam as garotas e rapazes do bairro. Ele descia todo arrumado e cumprimentava um a um, contando sua vida no interior. As mães dessa turma se conheceram e se tornaram amigas por toda uma vida. Letícia, que tinha um loja de armarinhos na avenida Santo Amaro, recebia sempre a Vera, que era grande amiga de sua filha Edna. Celina, que morava perto, já tinha se acostumado com a presença da Toy, amiga de Valéria. E ainda tinha a casa de Ione, mãe de Stela, também grande amiga da Toy. Todas moravam no bairro e era comum passearem pelas ruas e pela avenida Santo Amaro. As compras eram feitas no centro da cidade, e ir a Mappin era programa de um dia inteiro!  

Novidades. Sempre. 
A família Miessva adorava novidades. Foi assim com a geladeira e com a chegada da televisão. Os filmes de Hollywood atraíam as meninas e quando Ignácio chegava do seu escritório de contabilidade, que ficava pertinho, em duas salas em cima do cine Radar, na Av. Santo Amaro, e via todo mundo chorando, costumava comentar com sua mulher na cozinha:
- Mas elas só choram, Odette? Será que na televisão não tem algo mais alegre? 
Depois do jantar, Odette costurava e ia dormir mais tarde. Toy e Vera estudavam no Liceu Eduardo Prado e Rosely no Colégio Nossa Senhora da Aparecida. Na época dos exames, todos se reuniam para ali estudar. Edna e o irmão Edson, Stella, Valeria. Quer dizer... quase sempre...
Vera Cecília sempre foi muito brincalhona e fazia uma boa dupla com Edna. Às vezes, na rua,   acenavam para um táxi. Quando ele parava, uma perguntava: 
- Está livre?
Claro que o motorista respondia que sim. E as duas respondiam, rindo:
- Então, viva a liberdade!
A vida por ali era mesmo agitada. Certo dia,  um senhor bateu na porta e Odette foi atender:
- A senhora não quer comprar uma perua?
Ao saber o preço, questionou o motivo de estar tão barato, ao que o senhor respondeu que o perú tinha morrido e ele ficado só com a perua. Então, comprou e colocou a perua no quintal, em uma parte do galinheiro. De tarde, seu irmão Zuza, que sempre passava lá para deixar frutas e legumes que trazia do sítio, chegou e foi logo olhar a perua.
- Mas, Odette, você comprou uma perua doente! Ela está com gogo.
- Ah, Zuza, se é isto, eu sei tratar. Aprendi na fazenda com mamãe. É só pegar cinza, misturar com limão e sal e passar na linguinha do bichinho. Depois pega a faca e puxa a pele da língua para sair o gogo. 
- Ah, então faz isto, que eu quero ver se resolve mesmo.  
Enquanto tratava a perua, pensava consigo que parecia mesmo que o pobre bichinho ia morrer. Na manhã do dia seguinte, escutou um piado diferente e lembrou da perua que quase tinha morrido! Ao chegar no quintal, lá estava a dita cuja, viva e forte. Mas não ficou muito por aí. Semanas depois, Zuza a levou para o sítio, trocando por três frangos. Depois, ele comprou um peru e fez uma criação. E de vez em quando, aparecia com um perú para Odette preparar e reunir irmãos, cunhadas e sobrinhos. 
Assim foi o início dos anos 1960 da família Miessva, permeado por certa ingenuidade, certa leveza no ar, pronta para o que desse e viesse. E essa força foi necessária nos anos seguintes que traria muitas mudanças.



As crianças iam no fotógrafo fazer books!


Rosely e Lelena esperando meia noite no Natal


As quatro na praia: Toy, Rose, Lelena e Vera






domingo, 21 de junho de 2020

Casamento de faz de conta - agora eu era o marido!


Entre o final dos anos 1940 e início dos anos 1960, a casa da Av. Santo Amaro, 347 marcou a vida de muitas pessoas na família e de amigos. Era um tempo em que as carnes e os frios eram comprados na Casa Prata, fundada por Rubens Caporal em 1949 que era um açougue, e logo se transformou em uma loja de delicatessen e depois como importadora de vinhos, uma quadra distante dali. Os pães eram buscados na padaria Los Angeles, do sr. Gonçalves, logo na esquina. 
As pessoas andavam pela avenida – hoje totalmente irreconhecível – para passear e fazer compras nas poucas lojas. E no início de 1957, surgiria ali perto uma loja trazendo um conceito americano de fazer compras – o supermercado Peg Pag – na rua Joaquim Floriano.
Foi também um tempo de muitas mudanças na família Miessva. Tempo em que Vera Cecília foi morar alguns meses com seus avós em Garça, quando tinha seis anos. Anos depois, a irmã Antonia Maria – a Toy – iria para o colégio interno também em Garça, de freiras alemãs – o Ginásio Santo Antonio. No ano seguinte, seria a vez da Vera Cecília ir também para o internato. E na distante Garça, as duas viveriam histórias divertidas e outras nem tanto. Como quando as freiras serviram cerveja para as alunas experimentarem. E como a maioria delas detestou o sabor, Toy tomou a cerveja de todas as colegas e subiu em uma mesa para fazer um discurso em seu aniversário prá lá de entusiasmado!  
Ou quando Vera colocou talco dentro da blusa e quando a freira chegou, ela bateu no peito e o talco voou para tudo quanto é lado! 
Tempo em que as cartas trocadas entre a mãe e as meninas eram lidas pela madre Sofia, superiora do colégio, que sempre acrescentava um comentário. 
A casa da Avenida Santo Amaro abrigou sobrinhos, sobrinhas, cunhadas, cunhados, que ali viveram por meses, em períodos diferentes. Esta sempre foi uma premissa da família Miessva – se um parente ou um amigo necessitasse de abrigo por um tempo, Ignacio ou Odette ofereciam um canto e todo mundo se ajeitava. 
Em uma destas vezes, o irmão Rui foi com sua mulher Tibi e o filho mais velho também chamado de Rui, mas com o apelido familiar Tuta. Depois dessa temporada, se mudaram para Perus, onde nasceria Ricardo – conhecido na família como Gracinha ou Graça. 
Também ali moraram o irmão Maximiliano – conhecido como Namá - e sua mulher Lucila, com o filho Max. 
Os encontros em família eram divertidos, mas, claro, em algumas ocasiões com brigas ao estilo um pouco espanhol de ser de Odette. Ainda que fosse divertida, solidária e prestativa, também era brava e às vezes não era nada fácil conviver com ela... 
Agora eu era marido
Enfim, sempre havia movimento, alegria e diversão. Como quando Namá, sempre brincalhão, vestiu um penoir preto de Odette para ser o padre. Na garagem, foi montado um altar com alguns móveis para ele fazer o casamento do Tuta e Rosely, primos que sempre brincavam juntos e que tinham a mesma idade - cerca de seis anos. 
Tuta entrou e ficou esperando Rosely que entrou de noiva, com um buque pequeno de flores. Todos cantaram a marcha nupcial e o Namá, depois do sermão tradicional de padre, sorriu e disse: “Então vocês estão casados, parabéns!” Em seguida, foi feito um lanche para todos. 
No final da tarde, depois de Namá e Lucila irem embora, foi a vez de Ruy, Tibi e Tuta se despedirem. E o Tuta, sério, virou para os pais e tios e disse que a Rosely também iria: 
- Afinal, ela é minha mulher, eu casei com ela!
Diante da negativa, começou a chorar, seguido pela Rosely. E continuou enfatizando: 
- Meu pai mora com minha mãe, tio Namá com tia Lucila, tio Ignacio com tia Odette. Eu casei com a Rosely, então tenho que levar ela para morar comigo. 
Os pais conversaram e acharam que seria melhor que a Rosely fosse junto para ficar uns dias em Perus. Mas, como eram pequenos e tudo na vida passa rápido, ela ficou chorando de saudades na casa dos tios, que logo, logo, tiveram que devolver a noiva do filho! 
A chegada do supermercado no bairro


                                                                                                          

Carta de Toy aos pais em 12 de maio de 1954.

domingo, 14 de junho de 2020

O charme de uma ruivinha na avenida Santo Amaro

Será que existem meninas assim?
Quatro anos se passam e nos primeiros meses de 1948, Odette fica grávida novamente e ganha de Ignacio uma caixa com bombons americanos. Na tampa, a figura de uma menina de cabelo bem vermelho com cachinhos e grandes olhos azuis. Ao olhar a caixa, ela comenta:
– Imagina se isto existe! Isto é propaganda americana. Não pode existir uma menina deste jeito!
Ela já tinha uma ruivinha, mas não era como a menina daquele desenho. Então colocou a caixa de bombons na cristaleira da sala, olhando sempre para aquela imagem. Em dezembro de 1948, dos dias depois do Natal, vai para o hospital com a cunhada Elsa, enquanto Ignacio fica com Toy e Vera, como lembra:
- Elsa foi fazer companhia para mim e então logo senti que a hora tinha chegado. Quando a Rosely nasceu, o dr. Barbosa disse brincando: eu quero esta menina para mim. É a coisa mais linda deste mundo! E ela era igual à figura da menina daquela caixa de bombons americanos!
Rosely tinha olhos azuis e cachos tão crespinhos que era preciso usar pentes bem grossos para pentear. E, como toda criança, não deixava porque doía muito. Quando muito pequena, Odette precisava colar as fitas com cola no cabelo e por onde passava, chamava a atenção. 
Certo dia, Rosely vestia um vestido de cambraia de linho azul, andando com sua mãe na rua Barão de Itapetininga, quando algumas pessoas pararam e pediram licença para colocar a mão no cabelo da menina para ver se era mesmo de verdade! 
Muito vaidosa desde pequenininha, sempre teve uma personalidade forte. Quando não gostava da pessoa, simplesmente nem olhava pela segunda vez. 
Mas, com três meninas (Rosely com meses e as meninas com cinco e seis anos), ficou difícil continuar morando no apartamento do Largo do Arouche, ainda que tivessem pertinho tudo o que precisavam. As maiores brincavam na escolinha da Praça da República, o atendimento médico gratuito era feito no Caetano de Campos, com acompanhamento quinzenal. Eles podiam ir ao cinema e deixar as meninas com um dos irmãos que moravam perto e que visitavam quase diariamente as sobrinhas, como recorda Odette:
- O Joãozinho ficava sempre com as crianças. E se eu comentasse que planejava sair com Ignacio, o Zuza e a Elsa iam para lá. Todos tinham paixão pelas meninas.
Ignacio tentou primeiro um apartamento maior no mesmo bairro, mas não deu certo. Naquela época, ele trabalhava na Casa dos Elásticos, na rua Líbero Badaró e fazia contabilidade da fazenda dos Barros, que moravam em Garça. Então, perguntou aos amigos e ainda via os anúncios que saíam no jornal O Estado de S. Paulo. Uma noite, voltou do trabalho e comentou com Odette que havia achado uma casa no fim da av. Brigadeiro Luiz Antonio, na Avenida Santo Amaro, número 347, que chamava a atenção pelo tamanho e se destacava naquela avenida com enormes árvores de flores roxas. 
Depois de visitada pelos dois, Ignacio foi tratar do aluguel com o proprietário na rua Boa Vista. Conversando, comentou que a família da mulher, Aguirre, era de Garça. Então, o proprietário enfaticamente respondeu que não só conhecia como era parente distante dos Aguirre e imediatamente fechou o negócio, reduzindo o preço do aluguel: “Ignacio, a casa é sua”. O fiador, Mariano de Carvalho Barros, comentou com o amigo Ignácio – “mas você nasceu virado para a Lua, esta casa é muito boa!” 
Na primavera, a avenida se transformava em um tapete roxo. Tinha um pequeno comércio e perto, ainda que fosse longe do centro e perto do parque Ibirapuera. 
A vida na Av. Santo Amaro
A casa era enorme, isolada de todos os lados. Branca, de tijolos à vista, tinha na entrada uma varanda onde as crianças patinavam quando ela era encerada (uma das brincadeiras da época). Na frente, um jardim com roseiras e árvores. Nos fundos, um grande quintal com parreira de uva e até um galinheiro – depois fechado quando proibiram que as pessoas em São Paulo tivessem criações. Havia ainda uma garagem, local preferido das meninas para brincar de casinha ou lojinha e que ficava ao lado do escritório de Ignacio, lugar considerado mágico para as meninas, com um canto embaixo das prateleiras com livros que nas brincadeiras se tornava esconderijo. 
Na mesa de trabalho, um abajur com uma lâmpada fluorescente, e na gaveta, o fumo de corda e a tesoura grande para ele fazer seus cigarros de palha. 
Na parte de cima da casa, ficavam os três quartos e uma sacada onde Rosely brincava na rede ou de escrever longas histórias em livros velhos de contabilidade. Depois, a varanda foi fechada com vidros e durante um período virou quarto da Verinha.  
Os primeiros vizinhos eram alemães e logo a falante Verinha fez amizade com eles, visitando-os sempre para tomar chá. Então, a casa ao lado ficou vaga e Helena e Francisco Mattos se mudaram para lá. Helena era sobrinha da cunhada de Odette e eles já se conheciam, se tornando amigos e compadres anos depois. Naquela casa da gostosa avenida Santo Amaro, onde moravam as três meninas, começava, naqueles primeiros anos da década de 50, amizades que iriam durar para o resto das vidas dos pais e delas. E estas amizades geraram histórias novas que logo, logo, serão contadas!  
Em 1952, a ida para Vila Nova Conceição  

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Presença feminina, sempre

Odette e Inacio ficaram apenas alguns dias completamente sós. Logo, chegam os pais de Odette para visitá-los, apreciando a região central de São Paulo e a vida do casal. O apartamento, ainda que fosse pequeno, abriga, em várias passagens ao longo de quase dez anos, irmãos, irmãs e outros parentes. Carlito, um dos irmãos mais jovens, almoça ali todo dia.  Joãozinho, um dos irmãos mais velhos, visitava sempre o casal.

Aos poucos, Odette foi conhecendo as lojas do centro, o Largo do Arouche e a Praça da República. São Paulo, naquela época, era semelhante às capitais europeias e seus costumes – homens de chapéu e mulheres com vestidos um pouco abaixo dos joelhos, bem cinturados.  No rádio, as notícias da II Guerra. Na vitrola, os discos de ópera e de grandes tenores.

Na passagem de 1942 para 1943, Odette ficou enjoada com a comida da ceia, e nos primeiros dias do novo ano, resolveu ir ao dr. Barbosa,  um baixinho com forte sotaque caipira e amigo da família - que confirmou a gravidez. Desnutrida, precisa tomar muitas vitaminas, pois – como todas as noivas – tinha feito um rígido regime para casar. Depois de três meses de gravidez, o enjoo passa e tudo fica melhor.

No começo da gravidez, em alguns noites, tinha dificuldade em dormir. Então, certa noite, Ignácio pergunta:

­– Odette, você não está dormindo. Por que? Está com vontade de comer alguma coisa?

- Amanhã, quando você sair, me compra uma empadinha.

Ele se levanta, troca de roupa e sai às três horas da manhã. No Largo do Arouche, sempre havia alguns bares abertos durante toda a noite. Logo, volta com empadinhas e carinhosamente, as entrega:

– Agora, Odette, você pode comer a empadinha e dormir.

E foi o que ela fez, com muito prazer e rindo do marido de poucas palavras, mas de gestos inusitados.

Para ajudar no nascimento, Sebastiana, sua mãe, vem de Garça, com a irmã mais velha Odila. Quando as três estavam conversando, Odette vai ao banheiro e vem a primeira cólica. Então, avisa o marido:

– Ignácio, vamos para o hospital, que eu vou ter o neném.

Com as malas já prontas, pegam um táxi para o hospital Santa Cecília, ali perto. No ponto de táxi, os motoristas que conheciam o casal, tinham feito uma aposta – menino ou menina? 

O parto foi tão rápido que nem deu tempo do dr. Barbosa chegar. Uma charmosa parteira alemã, toda perfumada, ajudou no nascimento da menina com cabelos negros, olhos claros e 3,5 kgs. Quando o dr. Barbosa chegou, já entrou no quarto perguntando:

Uai, porque não me chamou antes? É uma menina! Então, como vai chamar?

– Vai se chamar Antonia, responde a jovem mãe.

– Mas este nome não é bonito. Uma menina tão bonita com nome de Antonia? Não gosto deste nome, respondeu enfaticamente o médico.

– O nome é por causa de uma promessa que fiz para Santo Antonio, para que se eu tivesse um marido paciente, o primeiro filho iria se chamar Antonio ou Antonia, responde mais enfaticamente a mãe.

Era 13 de setembro de 1943, e dias depois, a menina é registrada com o nome de Antonia Maria Miessva, o que gera uma discussão no casal, pois ela recebe apenas o sobrenome paterno. Logo a pequena se torna a querida dos tios, e, em especial o tio Joãozinho, que adora os seus cachinhos pretos. Odila fica mais alguns meses em São Paulo, pois estava noiva e precisava de apoio para o seu casamento com Geraldo, dez anos mais moço que ela, fato incomum naquela época. Em uma cerimônia simples, Odette e Ignácio foram seus padrinhos de casamento.

Meses depois, Catarina, a mãe de Ignacio, vem do Paraná para conhecer a neta e a nora. Acompanhada por um de seus genros, Catarina usava um lencinho preto, hábito usado por poloneses. Foi a primeira vez que Odette ouviu seu marido falar o idioma de seus pais. Anos depois, lembrando aquela visita, ele refletia:

– Eu sabia que eram polacos, mas foi muito estranho ouvi-los conversando naquela língua difícil e complicada. Quando a conheci, pude entender melhor o Ignácio. Ele tinha outra cultura, uma formação bem diferente da que tive e seu jeito de ser tinha muito a ver com suas origens.

Além da família, a presença de muitos amigos sempre foi constante na casa dos Miessva. Uma delas foi Julia. Naquela época, ela trabalhava na Feira das Nações, uma loja de secos e molhados no Largo do Arouche. Ela e o marido, Athayde, foram os padrinhos de batismo de Antonia Maria, que logo se tornou conhecida entre todos como Toy.

Meses depois, um dia, Ignácio olha para sua mulher e afirma categoricamente:

– Odette, você está grávida!

Ela ri e respondi: 

 Ignácio, deixa de brincar com coisa séria!

Na semana seguinte, ela foi ao dr. Barbosa, que examinou e confirmou:

– Você está grávida outra vez e vai precisar de vitaminas para ficar forte.

Após uma gravidez também tranquila, em 30 de outubro de 1944, nasce a segunda filha do casal – Vera Cecília de Aguirre Miessva, uma ruivinha de olhos azuis e que se torna a companheira fiel da irmã mais velha desde pequenina.

No único quarto do apartamento, cada uma dormia ao lado de um dos pais. Quando choravam de noite, Odette ficava com Antonia Maria e Ignácio cuidava de Vera Cecília.

Outros amigos desde o início do casamento eram Elias e Adma e sua irmã Lenira. Elias, que era cliente do Ignácio, e as amigas Adma e Lenira ajudaram o casal a criar as meninas. Nesta época, por causa da guerra mundial, havia racionamento de farinha, entre outros produtos, e ninguém tinha pão, como contou Odette:

– Lenira comprava bolacha importada de trigo, eu passava na máquina de moer carne. Aquilo se transformava novamente em farinha e fazíamos pão para as meninas, que adoravam a “tia Lelila”.

E assim os anos se passaram até chegar a terceira mulher da família, mas isso é outro capítulo...


 A família Miessva no Largo      Odette, a pequena Toy e a bebê Vera  

do Arouche.

 

 


quarta-feira, 20 de maio de 2020

Do primeiro beijo à igreja Santa Cecília

O primeiro beijo a gente não esquece
A chegada de Ignácio em Garça foi logo comentada na cidade, como  seu jeito estranho ao falar acentuadamente algumas palavras por influência do idioma polonês, o olhar profundo de grandes olhos azuis, a elegância. Já para ele, a imagem mais forte daqueles dias foi da jovem Odette parada na varanda da fazenda.
Sempre que tinha chance, ele, mais que depressa, aquecia em tomar o chá das duas da tarde com Sebastiana, a dona da casa. Nas conversas, contava sobre sua família no Paraná e ela descrevia as aventuras nas fazendas durante sua vida e a curiosidade pelo mundo. Odette o encantava, com algo tenue e transparente, mas sempre distante. 
Além desses encontros rápidos, costumavam se encontrar nos bailes da cidade, onde ela ia, sempre acompanhada pelos irmãos. 
Certo dia, Odette visitou o negócio de madeira de Ignácio, e ele se encantou mais ainda com seu jeito, como escreveu, ao recordar aqueles anos: “Foi uma imen¬sa alegria. Via tanta felicidade em seus olhos que não dormi muitas noites, imaginando que tinha, talvez, chegado a grande oportunidade. Mas ainda não era a hora”. 
Pouco tempo depois, retomaram o terreno perto da serraria montada por Ignácio, e isso contribuiu para a ruína do estabelecimento. E, mais uma vez, ele tomou a estrada e voltou para São Paulo e eles não se viram por mais de um ano. 
Então, em maio de 1939, ele perde seu pai e, sentindo-se só, vai procurar os amigos de Garça que residiam em São Paulo em uma pensão que a família Aguirre Camargo administrava na rua Barão de Jaceguai. Ao chegar na pensão, vê Odette cuidando de Sebastiana, pois a água fervente da caldeira tinha entornado e queimado a sua perna. Então, tomando um chá preparado por ela, eke descreveu os últimos momentos de vida de seu pai e foi consolado com palavras de força e de fé: “Coragem, isto é a vida. Orarei pelo seu pai”. Daquele momento em diante, o sentimento que já existia no coração de Ignácio ficou mais forte. 
Mais um ano se passou e, certo dia, Odette passou na loja onde ele trabalhava para dar a notícia do noivado da sua irmã Olga, como  narrou: “Como ela sempre dizia que queria ser freira, eu, em vez de apresentar meus parabéns pelo evento, perguntei muito ingenuamente, quando ela iria para o convento. Foi a conta. Ela disfarçou muito bem, mas outros colegas perceberam a reação. A  minha aju¬dante de conferente, assim que Odette saiu pisando firme, me disse:
– Esta moça gosta sinceramente de você. Mas ela saiu muito zangada. O que houve ? 
Depois que contou a conversa, foi aconselhado a consertar o mal estar sem perda de tempo. Então alguns dias depois, era o dia do  aniversário de Odette, ocasião muito propícia para mandar uma mensagem. Então, Ignácio mandou entregar um arranjo de flores com um bilhete,  com rosas vermelhas, para simbolizar paixão, e rosas brancas, como sinal de paz. Isso abriu uma pequena fresta de oportunidade e rendeu frutos meses depois. 
O tradicional baile de primavera no clube que Ignácio era sócio já tinha sido anunciado e como três amigas suas insistiram em ir, ele as convidou. Então, foi visitar Odette e seus irmãos e, em um impulso, a convidou. Para sua surpresa, ela aceitou! E, para não perder nenhuma chance, logo no dia seguinte, avisou que iria acompanhado de uma amiga de longa data. Ao verem a alegria nos olhos de Ignácio, elas logo entenderam, mesmo perdendo a oportunidade de ir ao baile tão esperado! 
Era 21 de setembro de 1940. Ignácio estreava um smoking novo e Odette estava com um vestido que acentuava seus cabelos negros bem penteados e o batom mais escuro. Na volta do baile, quando a deixou em sua casa, aconteceu o primeiro beijo dos dois, como ele conta: “eu fiquei muito feliz e surpreso. Seus lábios se uniram aos meus, de forma suave, como que selando um novo percurso de nossas vidas a ser percorrido” .
A troca de juras de amor por meio de fotos com dedicatória

Santa Cecília em festa 
Jogos de baralho às noites, bailes no clube Português em que Odette e Ignácio iam acompanhados pela irmã Odila,  fizeram com que eles se conhecessem melhor por dois anos. Até o dia que Ignácio pediu a jovem de 26 anos em casamento a João de Aguirre Camargo. Na longa conversa que tiveram, ele garantiu para o homem que  tinha uma predileção por aquela filha impetuosa: 
– “Eu vou fazê-la feliz porque sei lidar com ela. Tudo que ela gostar, eu farei”. 
Casamento marcado, padrinhos escolhidos como o Carlito – o irmão menor dela  – e a irmã Odila. Os donos da loja Casarini, onde Ignácio trabalhava, foram seus padrinhos e presentearam os noivos com um completo aparelho de jantar inglês – que se tornou conhecido de toda a família até os dias de hoje. 
Odette recorda como decidiram pelo apartamento onde foram morar logo após o casamento: 
– “Ignácio tinha visto vários apartamentos e me levou para saber minha opinião, antes de alugar. Um era especial - pequeno, mas com uma boa varanda. Aí ele perguntou se eu tinha gostado mesmo. E como não podia gostar? Na esquina do Largo do Arouche com a rua Sebastião Pereira, com um dormitório, boa vista, bons vizinhos. Era pequeno, mas tivemos tudo – tapete, cortinas, cadeiras altas numa sala de jantar linda!” 
A igreja Santa Cecília foi a escolhida porque ela era devota da santa e tinha predileção por aquele templo que foi decorado com muitas flores, pagas pela noiva do casamento anterior, das sete horas. Na hora marcada do casamento – às oito horas, chovia a cântaros. Odette e seu pai chegaram no carro alugado. Arranjos de laranjeira nos cabelos negros delicadamente presos, deixando uma parte deles soltos, segurando o buque feito com as mesmas flores. Tudo perfeito, até que ela fica sabendo que o noivo estava atrasado! 
A madrinha de Ignácio tinha molhado sua roupa com a chuva. Então, ela e o marido tinha ido para o apartamento dele, para tentar secar o vestido com ferro quente. 
Aflita no carro, e impulsiva – Odette já queria desmarcar tudo! Seu pai pedia paciência e finalmente o sentimento falou mais alto. Meia hora depois, seu irmão Carlito correu até o carro, avisando que ela já podia entrar. 
Santa Cecília estava toda iluminada e parecia que os desenhos do teto brilhavam mais, especialmente quando todos se levantaram e ela entrou, sorrindo e olhando para o belo homem que estava no altar. Sua mãe não estava presente, pois tinha ficado doente em Garça, mas aprovava – e muito – o casamento de Odette com aquele ‘estrangeiro’. 
Anos depois, Odette lembrou que o que mais chamou a sua atenção para aquele homem calado, com olhar azul profundo. Sorrindo, lembra: 
– “Primeiro, sua honestidade. Depois, ele, mesmo muito calado,  procurava sempre estar perto de mim. Tudo que eu fazia, ele observava e sorria. Tinha fascinação por mim. Aprendi muito com ele – desde a comer coisas diferentes, como frios com frutas, até a ouvir ópera. Ele também gostava de ler, como eu. Tivemos uma vida difícil no começo, pois sempre tinha alguém morando conosco – o Carlito, o Orlando – mas o Ignácio sempre recebia a todos com alegria, considerando a minha família como a sua”.
Quando ela conheceu sua sogra, meses depois de casada, entendeu ainda mais aquele homem que tinha aceitado partilhar a vida.
Mas isto fica para o próxima capítulo – que logo, logo chegará!

Odette na tradicional foto da noiva



domingo, 3 de maio de 2020

Fogo na árvore de Natal e a mão do destino em Garça


A vida na fazenda em Cravinhos era boa demais em um tempo que passava devagarzinho... Os pequenos Olga, Odette, Namá e Carlito começavam o dia brincando no pomar, subindo nas árvores para chupar mangas e as laranjas colhidas pertinho. Brincar de pega pega, de futebol, de cabra cega – tudo era motivo para risadas como quando o Namá pegou os biscoitos de polvilho recém feitos, colocou um em cada dedo e correu antes que a mãe – brava como sempre – percebesse na cozinha! No final do dia, estavam lambuzados com as frutas e sujos de barro. Depois do banho, nem pensar em chegar perto do pomar! Só era permitido ficar no gramado do jardim, em frente da casa, esperando o jantar, quando todos se sentavam por ordem de idade. Na cabeceira da mesa, ficava João e do seu lado esquerdo sua mulher Sebastiana. Ela fazia o prato de cada um e não admitia brincadeiras. As crianças comiam em silêncio e apenas os mais velhos podiam conversar.  Certa vez, os adultos tiveram a ideia de enfeitar a árvore de Natal com algodão para lembrar a neve. Tudo ia bem, até alguém se lembrar de colocar velinhas acesas na árvore, presas com pregadores de roupa. De repente, a árvore pegou fogo e foi um corre corre geral! Muitos anos mais tarde, na década de 1940, quando surgiu a figura do Papai Noel vestido de vermelho e barba branca, Joãozinho assumiu o papel e se divertia com a fantasia, correndo atrás da criançada, formada pelos sobrinhos e sobrinhas que sempre adoraram a casa dos avós João e Sebastiana. 


A aventura em Garça e a mão do destino

A mudança de Cravinhos para Garça foi ampla, geral e irrestrita. Na época, muita gente estava indo para a região então conhecida como Alta Paulista e  João foi ser administrador da fazenda União, do coronel Carvalho de Barros. Seu desafio era transformar aquela mata virgem em uma fazenda de café. Primeiro ficaram em uma casa pequena enquanto aguardavam a casa maior ser construída. Para estudar, Odette e Olga atravessam quase três quilômetros de areião a pé para chegar na casa da professora dona Maria da Glória. Chiquito e Zuza já trabalhavam fora e Joãozinho ajudava o pai na fazenda. Para descobrir qual era o talento de Namá, seu pai o colocou para aprender violino com dna. Glaucia, a primeira professora de Odette ainda em Cravinhos, onde morou com amigos da família. Naquele tempo, para muitas crianças estudarem, tinham que morar com parentes em outras cidades. Foi o que aconteceu com Odette e Olga, que foram para a casa dos tios Zeca e Alzira,em Campinas, e que tinham duas filhas com paralisia infantil. As quatro meninas iam todos os dias, de braços dados, para o instituto de fisioterapia dirigido por alemães, onde as primas faziam exercícios de ginástica. Na escola, certo dia, Odette pintou uma paisagem com giz colorido na lousa negra e o professor ficou tão encantado que deixou ali por alguns dias!    

Na volta das meninas para Garça, mais mudanças na família. Os filhos mais velhos de Sebastião e João - Chiquito, Zuza e Odila - foram morar com o tio Nhonhô em São Paulo. Depois de um tempo, os pais alugaram uma casa na Bela Vista, transformando-a em pensão, dirigida por Sebastiana, que se mudou para a capital paulista. Odette ficou na fazenda em Garça, e ia para São Paulo quando a mãe retornava para a fazenda, revezando nos cuidados da pensão e da casa na fazenda ao lado do pai. Os passeios da sua adolescência eram os bailes no clube e as missas e seu laser favorito era a leitura.

Francisco Sá, parente de seu pai, tinha uma biblioteca e emprestava livros. Ela ainda lia a revista “Eu sei tudo”, aprendendo a fazer palavras cruzadas. Costumava ir aos bailes com o irmão mais velho Joãozinho. Nesta época, Odette andava muito de cavalo e charrete, como lembra:  “Eu ia da fazenda até Garça de cavalo, descia na porta da padaria e não tinha quem não se admirasse do meu jeito... apenas para comprar pão!”, e continua: “Sempre gostei de andar a cavalo. Papai deixava o cavalo sempre perto da porta. Ele entrava e eu saía para passear nas plantações de café.  

A fazenda grande do Coronel Carvalho de Barros foi então partilhada entre os filhos do Coronel e a União passou para uma de suas filhas, casada com Joaquim Salgueiro. Ela faleceu ainda moça, e o viúvo estreitou ainda mais os laços de amizade com João de Aguirre.

A última moradia dos Aguirre Camargo foi uma casa em Garça, construída por Salgueiro e doada no final de sua vida para a família de João de Aguirre Camargo. Era um grande sobrado que ficava no final da Avenida Brasil. Perto da casa, estava a estação de trem da Alta Paulista. Quando alguém da família ia para São Paulo, levava uma marmita com frango e pirão e molho para comer no caminho. Nesta casa, Salgueiro tinha um quarto com entrada independente. Como era viúvo, jovem e bonito, costumava acelerar o coração das moças da casa, em especial de Odette.

Quando ainda estavam na fazenda e Odette tinha por volta de seus 18 anos, chegou ali um rapaz alto, loiro, com sotaque parecendo estrangeiro, procurando emprego de guarda-livros. Ele foi falar com João de Aguirre Camargo que o empregou. Seu nome era estranho assim como seu jeito de falar, arrastando o erre... Ignácio Miessva chegava ali para tentar a vida e logo se encantou com aquela jovem...

Embarque de café por caminhão 


E aos poucos, ele foi encantando ela