domingo, 30 de agosto de 2020

Dicas de pai para filha caçula

A casa da rua João Lourenço marcou fortemente a vida da caçula da família, cujo apelido era Lelena e que viria décadas depois a ser conhecida como Lena. Aos 11 anos de idade, a seu pedido, o pai ensinou a dançar dois prá cá e dois prá lá e ela logo repassou os ensinamentos para meninas e meninos nas festinhas na casa da vizinha, sua amiga Silvinha. Ali, nos anos finais da década de 1960, os pré-adolescentes dançavam ao som das músicas de Roberto e Erasmo Carlos. Na garagem da casa, Lena brincava com a amiga de fazer entrevistas para a tevê, imitando Hebe Camargo - programa imperdível na televisão, que também transmitia os famosos festivas de música que reuniam as irmãs mais velhas na sala.

Assistir televisão era um dos programas compartilhados por Ignácio e Lena que assistiam juntos Perdidos no Espaço, Star Trek e Histórias do Sobrenatural. O outro programa preferido dos dois era ir ao cinema do bairro - no Cine Vila Rica ou no Cine Radar. Depois de caminharem três quadras a pé, pai e filha já estavam confortavelmente sentados. Claro, que nem sempre os filmes eram da escolha de Ignacio, que aproveitava então para dormir naquelas duas horas. E a volta era o que imperava nas caminhadas e passeios era o bom humor. 


Lena fazia as lições de casa ao lado da mãe, enquanto Odette costurava. Foi a mãe quem ensinou a caçula a ler em voz alta e a dar valor à pontuação, como dizia enfaticamente: 

- "Há diferença entre ponto e vírgula e vírgula. Então, quando você lê em voz alta, deve dar um tempo maior para a primeira pontuação e menor para a segunda. De novo, Lena". 

Quando Lena não estava na escola ou brincando com os amigos nas ruas do bairro, seu outro programa favorito era passar horas no escritório de contabilidade do pai. Ali, passou a gostar de mesas de escritório e suas inúmeras gavetas, do barulho da máquina de escrever, das conversas no telefone e da convivência com papeis. Aprendeu que cada documento tinha um lugar certo e que todos ali deveriam saber esse lugar, caso alguém faltasse exatamente no dia que o cliente pedisse o tal documento. Os escaninhos de madeira tinham etiquetas com os nomes dos clientes e em um canto nobre, havia a prensa, precursora do mimeógrafo, que abriu passagem para a fotocopiadora e as impressoras... Quando era preciso copiar o balanço mensal do cliente - datilografado em tinta azul, para o livro do cliente, entra em cena um método que nos dias atuais parece ser da idade da pedra. Pegava-se uma folha com gelatina branca impregnada em um papel grosso, passava-se álcool nessa folha de gelatina, esperava-se secar alguns segundos. Então isso era colado na folha que devia ser copiada e o livro era fechado. A prensa era movimentada por uma barra, que movia a rosca e o prelo. Depois de horas, o balanço estava copiado no livro. As lições no escritório foram aprendidas por todas as filhas, em suas épocas.

Modelo mais recente das prensas antigas

Lição profissional para a vida

Meses depois do casamento da Toy, Lena deixou de brincar de escritório e foi 'promovida' a office-girl , separando as notas fiscais para o registro dos balanços, guardando os livros nos escaninhos, atendendo os telefonemas e anotando recados. Certo dia, seu pai e chefe a mandou ir registrar um livro caixa na Secretaria Estadual da Fazenda, localizada no centro da cidade, perto da Praça da Sé.

E lá foi a jovem com seus quase 12 anos. Chegou no prédio, deu uma volta, perguntou para uma pessoa sobre a seção e nada de encontrar a dita cuja. Na sua lógica, uma vez que não tinha localizado a seção, nada mais natural que voltar para o escritório e explicar a situação.  E assim foi feito. Então, Ignacio ouviu a história toda, com a calma que caracterizou a convivência familiar, e respondeu:

- " Não há problema algum, filha. Amanhã, você vai voltar lá, vai conseguir achar a seção, registrar o livro e vai voltar para cá com a tarefa cumprida. Assim é que tem que ser feito".

Naquele momento, Lena recebia sua primeira lição de sobrevivência profissional: dizer que não conseguiu não é desculpa para nada. O importante é encontrar a solução para o problema e completar a tarefa.


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Preparativos para novas chegadas

 

Os preparativos para o casamento da primeira Miessva começavam a tomar forma, enquanto a rotina seguia, dividida entre trabalho, estudo e lazer. No Clube Pinheiros, Vera Cecília continuava aprontando ‘travessuras’, como quando em um baile de Aleluia, se disfarçou de ‘nega maluca’ – que era o hit da época. A ruiva mais velha da casa, de olhos claros, passou pasta preta no rosto e pescoço, vestiu meias e luvas pretas, colocou uma peruca de lã preta e foi brincar no salão, achando que não seria reconhecida! Enrico, fantasiado de homem da caverna, a encontrou no meio de tanta gente:

- Veruska, como você achou que não ia reconhecer você?!?

Naquele ano de 1967, Vera e Enrico também ficaram noivos em um jantar que reuniu as famílias Miessva e Rastelli. Annamaria, a mãe dele, tornou-se amiga de Odette, e Ignácio e o pai dele, Dino, costumavam conversar nos almoços de família e encontros no Pinheiros.

A organização do casamento de Toy com Peter acabou envolvendo todos. O casamento aconteceria na Igreja do Perpétuo Socorro. Odette e a amiga Jamile compraram o tecido para o vestido, mas a Toy queria uma cauda enorme. Por sorte, encontraram um vestido de noiva com cauda toda bordada a mão. Definida a grinalda, Toy escolheu um véu franzido cobrindo também a cauda. A gola também era toda bordada e as luvas brancas completaram o arranjo.

Os vestidos das irmãs Vera, Rosely e Lena foram feitos também por Odette e Jamile. Verde para Vera, azul para Rosely e cor de rosa para Lena. Tudo em tecido brocado ou cetim, preparados com o maior capricho.  Aí chegou a hora do ensaio em um dos sábados que antecederam o casamento. A amiga da família Celina, sempre elegante e delicada,  orientava Ignácio e Toy:

- Devagarinho, sr. Ignácio. Pé compassado, pé compassado.

Max, um dos primos, chegou na casa naquele momento em uma de suas constantes visitas às primas e ficou emocionado ao ver a Toy tão compenetrada. O brinde ao ensaio foi com o tradicional cafezinho.

A festa foi organizada para acontecer na casa da Rua João Lourenço. Os quartos se transformaram em salas – a dos presentes, a do bolo – e o jardim de inverno e todo o quintal foram abertos para receber cerca de 200 pessoas. Tios e primos vieram do interior paulista para celebrar. Amigos se prepararam com ansiedade para a data tão esperada. Na véspera, Vera chorou quase a noite toda pela separação. Toy entregou cartinhas para cada irmã e para seus pais, para serem abertas só depois do casamento. 

E chegou o grande dia – 07/07/1967.

No altar, ao lado de Odette, os amigos da família Ligia e Milton Jardim eram um dos casais de padrinhos. Pontualmente, às 20h00, Toy entrou na igreja decorada com flores brancas.

Odette estava nervosa para tudo dar certo. E quando viu o marido ingressar com a filha, ficou mais ainda e percorreu com o olhar toda a nave repleta de amigos e parentes. E, então, atrás de uma das pilastras, viu Eduardinho,  antigo namorado da filha mais velha por anos, chorar pelo amor perdido. A cerimônia foi gravada em um disco - o que era moda na época - em que se ouve um tímido e baixo 'sim' da noiva, após o vigoroso consentimento do noivo. 

Depois da bela festa, como era hábito, todos acompanharam os recém-casados em seus carros buzinando até o aeroporto de Congonhas, onde o casal tomou avião para Rio de Janeiro, onde iriam passar a lua de mel. Ao se despedir dos pais, Toy chorava muito. Odette abraçou a filha e disse:

- Mas, Toy, você vai passear com o Peter, em lua de mel, e vai se divertir muito, minha filha!

Quando o avião decolou, a mãe sentiu um arrepio de frio e não passou muito bem na volta para casa – talvez uma intuição que algo iria mudar – e muito – na vida da família Miessva. 


 As quatro Miessva na única foto das irmãs no casamento



Os recém-casados em uma das salas da festa


Na lua de mel, em um dos orquidários visitados em Petrópolis




domingo, 2 de agosto de 2020

Gente nova na família

Ficarmos sócios do Esporte Clube Pinheiros foi um divisor de águas. Rosely e eu íamos até lá de bicicleta para nadar. Eu na garupa e ela driblando carros pelas ruas do bairro, passando por uma ponte estreitinha – que chamávamos de pinguela – em cima do córrego, para depois pegar a rua Joaquim Floriano até a rua Tabapuã. Nos domingos, Ignácio frequentava a sauna com amigos e as mulheres da família tomavam sol e nadavam nas piscinas. Muitas vezes, a família toda almoçava em um dos restaurantes e, de tarde, Lena ia para a biblioteca, virando fã dos livros de Agatha Christie. Às vezes, levava para casa dois livros no sábado e já devolvia um no domingo. Foi no Club Pinheiros que Toy e Vera conheceram seus namorados Peter e Enrico.   

Ida para Brasília

Na mesma época, outro acontecimento também mudou para sempre a vida da família. Odette já dirigia havia três meses – e como não tinha carro, passeava com o carro da autoescola no Parque do Ibirapuera. Às vezes, Lena ia junto e se divertia em vê-la compenetrada em fazer as manobras e estacionar direitinho nas vagas, sem derrubar as balizas. Então, Zuza, irmão de Odette,  arrumou uma Kombi, que foi comprada pelo casal, para alegria de todos! Só tinha um pequenino problema... os freios não estavam bons e isso foi descoberto quando todos estavam a caminho de passeio para Santos. Como o carro não respondeu totalmente aos freios, Odette segurou a tal Kombi na marcha e no muque!

Meses depois, aconteceu o acidente da Kombi contra um bonde. Odette estava dirigindo e no carro estavam Lena, Vera e seus amigos Edna e Edson.  O motorneiro do bonde ficou confuso com algo e avançou o sinal. Tudo foi muito rápido e quando ela percebeu, o bonde entrou direto na frente do carro. Por sorte, ninguém saiu muito ferido, além do joelho machucado da Vera.

Logo depois, Ignácio comprou o carro Aero Wyllis azul 1962.Anos depois, trocou por um Aero Wyllis cinza 1965, carro que levou o casal e as filhas Rose e Lena até Brasília em uma viagem improvisada, com espírito de aventura. Eles estavam visitando os parentes de Odette em Ribeirão Preto e, ao saírem da cidade para retornarem para São Paulo, ela perguntou se o marido tinha dinheiro para viajar e sugeriu conhecerem  Brasília. Sem reservar hotéis (pesquisando só ao chegar nas cidades), e dirigindo horas seguidas, viajaram, passando por Goiânia e Cristalina até a capital federal. Avisaram as filhas mais velhas por telefone no meio do caminho. Aliás, a família se acostumou a se aventurar em estradas, sempre com Odette na direção. 

Na mesma época, Toy começou a trabalhar na Kibon – um verdadeiro paraíso!  Assim que foi aprovada na seleção, telefonou para o escritório do pai e deu euforicamente a notícia:

- Mamãe, passei nos testes! E vou poder levar bastante sorvete para casa!

Quinze dias depois, Toy levou três latas de sorvete! Às vezes, chegava com bolos gelados em caixas com gelo seco. Mas, o que fazia sucesso mesmo eram as caixas de picolés. Certo dia, quando Odette voltava do escritório, avistou uma fila de crianças do bairro em frente à casa. No muro, Lena organizava a distribuição e entregava os picolés. Odette questionou a filha e ouviu a caçula, com sete anos, responder com convicção:

- Mãe, Cristo não repartiu os pães e peixes? Por aqui, só tinha picolés. Então, é a mesma coisa!

Surpresa no Baile de Aleluia

O Clube Pinheiros também foi palco de novas amizades para Rosely. Uma delas era a Sueli, uma amiga altíssima com quase 2 metros, e que mergulhava em uma das piscinas menores brincando de golfinho com Lena agarrada nas costas.  Em um dos bailes de Aleluia - que antecediam a Páscoa - Odette reservou uma mesa com os pais da Sueli. Nos bailes, a reserva era o pagamento de uma mesa e quatro cadeiras para que pudessem sentar e conversar durante a noite toda, enquanto as filhas brincavam o Carnaval no salão de festas. Ignácio tinha ficado em casa com Lena. O baile seguia animado, com Odette e Maria Amélia, mãe da Sueli, conversando animadamente quando viram Peter, um jovem que na época namorava Sueli, passar de mãos dadas com a Toy, sorrindo para ela, que retribuía com aqueles olhos claros e sorriso meio tímido.  Odette, desconcertada com a cena, olhou para a amiga Maria Amélia, que calmamente disse: 

- Odette, a gente a gente não viu nada, não vamos falar nada e não perguntar nada. Isto é o melhor a fazer, pois o assunto é com eles e não tem nada a ver com nossa amizade.

Na mesma época, Vera Cecília conheceu o Enrico Rastelli. Só que ela achou que o nome dele era Pascoal. Certo dia, no Pinheiros, ficou chamando-o por este nome e, claro, ele não respondeu. Aí quando o encontrou novamente, questionou por que ele não tinha atendido, e ele tranquilamente, respondeu: 

- Mas meu nome não é Pascoal, é Enrico! 

Os dois começaram a jogar tênis no Pinheiros. Certo domingo, Vera mostrou aquele jovem magro, de cabelo bem curto e sorriso aberto, para a mãe, que observou na hora:

- Mas, Vera, ele é muito criança!

Vera riu, respondendo:

- Ah, mãe. Ele parece criança, mas não é! É até um ano mais velho que eu!

O Pinheiros também foi palco de um bom encontro, quando Odette encontrou seu velho amigo Armando, que era sócio e jogava bocha. Durante décadas, eles sempre se encontravam ali, para conversar durante horas nos bancos espalhados pelo Clube.

Assim se passaram cerca de cinco anos de namoro das mais velhas – em festas no Pinheiros, passeios, lanches nas tardes de sábado – quando o primo Fernando contava detalhadamente para a tia Odette os filmes que tinha assistido – os jantares uma vez por semana com a presença do Enrico.

Até que, no Natal de 1966, logo depois da prece, Peter pediu para falar algumas palavras. Todos acharam que seria mais uma prece. Ele ficou sério e disse:

- Sr. Ignácio e dna. Odete, eu peço licença para ficar noivo da Toy. 

Todo mundo ficou surpreso e emocionado. Ignácio ficou atônito. Então, Peter colocou uma aliança na mão direita da Toy, que não pode fazer o mesmo, pois a dele não tinha ficado pronta a tempo!

No dia seguinte, Odette contou a boa nova para os sobrinhos e a festa continuou, com a família reunida para celebrar o noivado. Na semana seguinte, aconteceu o almoço para a família do Peter, com a presença de sua avó – a Oma Oma, que afirmou estar muito contente com a escolha do neto.

E foi assim que em janeiro de 1967, começaram os preparativos para o primeiro casamento na família Miessva.



Peter, Toy, Lena e Heidi, irmã caçula de Peter. 


Toy na casa dos futuros sogros no Brooklin, dias após o Natal de 1966.

 

 


domingo, 19 de julho de 2020

Tempos difíceis e mudanças a caminho

Tempos díficeis

Os negócios da Braspar Serviços de Contabilidade - que unia as palavras Bras (de Brasil) com Par (do Paraná), progrediam e Ignacio chegou a ter 60 clientes. Para atender às demandas que cresciam, contratou dois rapazes para auxiliá-lo: Waldemar e Walter. Odette ajudava de noite, fazendo algumas atividades como razão e diário dos clientes. Para dar conta de tudo, Ignacio passou a trabalhar muito – às vezes ia direto até as duas horas da manhã e depois o Walter continuava as tarefas logo pela manhã. Visitava os clientes, coordenava todas as atividades e, para dar conta de tudo,  mudou sua rotina, dormindo tarde e levantando cedo. 

Certo dia em 1960, Ignacio chegou em casa com dor no braço esquerdo. Abraçou Odette e disse:

- Vou deitar um pouco. Não estou aguentando de dor.

Como não melhorou, Odette chamou o dr. Almeida, o médico da família, que após examiná-lo, alertou:

- Precisa internar agora, Odette, ele está tendo um infarto!

O táxi foi chamado e foram para o hospital São Luiz, que ficava ali perto. Odette assinou os papeis, internando o marido. Telefonou para o Walter, que estava de férias, pedindo que voltasse para o escritório. No hospital, o médico disse que talvez ele não aguentasse, seriam 24 horas de alerta e se Ignacio superasse este período, teria que fazer um tratamento prolongado. Horas depois, as meninas voltavam da escola e ouviam a explicação da situação, no estilo Odette em tratar as crises:

- Não quero drama e vocês precisam me ajudar.

Ela voltou para o hospital e à noite, Ignácio passou mal e teve falta de ar. Mas, na madrugada, conseguiu dormir e quando o dia amanheceu, sua cor tinha voltado ao rosto. Perguntou das meninas, querendo ir para casa:

- Odette, eu fico só hoje, não é? Mas se eu ficar mais, você precisa assumir o escritório.

Quando ele saiu do hospital, em 11 de novembro, precisou fazer repouso e ficou três meses afastado do trabalho. Naquela época, era comum que as pessoas enfartadas tivessem que drasticamente reduzir o ritmo e os médicos recomendavam afastamento do trabalho por meses. Os amigos do casal ajudaram, cada um de sua forma, como Armando, amigo da juventude de Odette, antigo namorado de sua irmã mais velha Odila, que orientava nas contas gerais. Outros amigos foram Elias e Adma, conhecidos desde o início do casamento. Por uma triste coincidência, ficaram ainda mais próximos. No mesmo dia que Ignacio sofreu o infarto, Adma, mulher de Elias, sofreu um acidente e precisou amputar a perna, no mesmo hospital. Ali, Elias e Odette passaram juntos dias difíceis. Às vezes, iam para o escritório e choravam com a amiga Lenira, irmã de Adma. Armando foi outro amigo sempre presente, buscando orientá-la com as contas e se colocando à disposição para o que fosse preciso – a amizade era cultivada desde a mocidade de Odette, quando ele foi namorado da irmã mais velha Odila.

Odette enfrentaria um dos períodos mais difíceis de sua vida. Tinha sido criada para cuidar da casa, ajudar o marido, mas ficar sempre na retaguarda. Ignácio representava seu esteio e, de repente, ela se viu em uma situação inédita, tendo que assumir várias frentes.

O infarto marcou muitas mudanças na família e, especialmente, na vida do casal. Mas algo passou incólume naquela primeira grande crise: preservar sempre a família, mantendo as meninas unidas e com as portas da casa sempre abertas a quem precisasse de um apoio e também viesse oferecer um ombro amigo.

Anos 1960 com mais mudanças

Os primeiros anos da década de 1960 foram de muito trabalho e mudanças na vida de todos. Vera Cecília estudava no Liceu Eduardo Prado e Toy cursava secretariado no Colégio Mackenzie. Rosely, entrando na adolescência, e marcando seu lado independente,  trabalhou um período na loja em frente da casa da Avenida Santo Amaro, e estudava no Colégio Nossa Senhora da Aparecida.

Um dos dias marcantes, para quebrar o jejum de celebrações, foi o aniversário de cinco anos da pequena Lena, em 1961. As irmãs, com suas amigas e primas, arrumaram a casa, e o tema da festa foi a Casa dos Três Porquinhos. Odette criou um bolo especial, montando uma casinha com palitos de chocolate, grama verde de açúcar colorido e colocando os porquinhos do presépio de Natal para dar o tom real. Nas paredes da casa, foram colocados grandes desenhos de personagens de Walt Disney. Na cozinha, as meninas prepararam olho de sogra, brigadeiro, balas de café e de coco. Além dos salgadinhos, foram montados pequenos sanduiches com fatias de pão Pulmann cortadas em quatro pedaços.

Então, um fato ajudou a gerar mais mudanças na vida da família. Athayde, padrinho da Toy, conversou com os amigos várias vezes, comentando que as meninas precisavam conhecer mais gente, fazer esportes, ir a festas maiores além das que aconteciam no bairro. Tanto insistiu que Ignácio concordou e  fez a proposta para adquirir um título familiar do Esporte Clube Pinheiros em 2 de maio de 1962. Como fontes de referência, os sócios Athayde de Moreira Pires e Ignacio Ormesto, as agências do Itaim dos bancos Moreira Salles e Itaú. Além disso, cartas dos clientes Anastacio e Cia e a Indústria de Calçados Americanas S.A.  com as certidões de casamento e nascimento de todos, atestados médicos e fotografias 3x4. Após todos os trâmites terem sido cumpridos e aprovados pelo Club, uma carta foi emitida em 11 de julho de 1962 e, em novembro do mesmo ano, Ignácio adquiriu o título familiar de Hugo Leão de Menezes Montenegro.

Era o início de uma etapa. Meses depois, a família mudou-se para a rua João Lourenço, pois as residências da Av. Santo Amaro naquele quarteirão seriam derrubadas para dar lugar a um prédio de apartamentos.

Vida nova no mesmo bairro

A nova casa tinha um muro de pedras e portão de grade. No fundo, havia uma garagem enorme e dois pequenos quartos ao lado da área de lavanderia. A casa tinha três dormitórios, uma bela sala de visita com gesso em sanca no teto, porta de vidro com cortinas brancas e uma cozinha com uma grande mesa para todos jantarem, hora que se reuniam para contar as novidades.

No quarto da frente, com janela para o jardim, dormiam Lena e Rosely, em um beliche. No quarto dos fundos, que tinha janela para o quintal, dormiam Toy e Vera. Ignacio e Odette ficavam no quarto do meio, cuja janela dava para um pequeno jardim de inverno.

A João Lourenço e as outras ruas próximas formavam a gostosa Vila Nova Conceição, onde Lena logo passou a integrar a turma mirim do bairro. Costumavam brincar na rua ou na pracinha que ficava a poucas quadras dali, perto da rua Afonso Brás. Os cuidados médicos eram feitos no Posto de Saúde Municipal ali perto, ao lado da escola municipal frequentada pelas crianças do bairro.

Quando Ignácio voltou para as atividades no escritório, Odette continuou a trabalhar, primeiro com  vendas de enxovais para noivas, que buscava na rua São Caetano. Depois, passou a costurar sob encomenda, dividindo as tarefas com a amiga Jamile que morava pertinho.

Os primeiros vizinhos foram a família Laub, com Lourdes e filhos com as mesmas idades de Toy e Vera. O endereço mudou, mas a atmosfera continuou a mesma e a nova casa passou a receber amigos e primos para os lanches das tardes de sábado, além das visitas dos primos e tios, especialmente nos finais de semana.

E logo, logo, novos personagens ingressariam no convívio da família Miessva...


Na rua João Lourenço, Odette e Lena.


 


domingo, 5 de julho de 2020

A chegada de Helena. O preparo para nova década.

A chegada de Helena
A família parecia completa. Três lindas meninas. Uma casa movimentada, sempre recebendo visitas de familiares que ainda moravam em Garça. Mas logo, logo isto iria mudar. Em dezembro de 1955, o Ano Novo foi celebrado na casa de Ruy, um dos irmãos menores de Odette, em Perus, cidade perto de São Paulo, onde ele era o responsável pela fábrica de cimentos lá instalada. Era uma gostosa casa que tinha enorme quintal, horta com grande variedade de legumes e verduras, área coberta para festas e churrascos, um local para patos, coelhos e alguns cachorros. Na festa familiar, Tibi tinha preparado seus deliciosos pratos  com um pouquinho de pimenta, como boa baiana.
Na arrumação da mesa, com pratos para mais de 20 pessoas, Odette comentou que estava grávida. A cunhada, meio séria e meio brincalhona, respondeu:
– Não está, não. Você está tomando muito vinho!
No dia seguinte, Odette telefonou para sua mãe e comentou que estava grávida, ao que a mãe, rapidamente respondeu:
- Ah, você bebeu demais, minha filha. Não é para beber tanto assim no Réveillon! 
Na semana seguinte, ela foi ao dr. Barbosa, que ao vê-la entrar no consultório, olhou firme e afirmou, rindo:
– Odette, você está grávida! E te digo, se for mais uma menina, é minha! Você tem três, e eu não tenho nenhuma! Se for uma menina, será minha e de minha mulher! 
Como bom amigo, além de médico, alertou para o fato de ela estar com quase 40 anos e que aquele parto seria considerado de risco.  Ela seguiu as instruções direito, tomou vitaminas e engordou apenas o peso do futuro bebê.
Como as duas filhas mais velhas estudavam no colégio interno em Garça, Odette viajou com Ignacio e Rosely na Páscoa para visitar as meninas e ver seus pais. Sua mãe não estava bem de saúde e a família tinha decidido que iriam se mudar para São Paulo – onde a maioria dos filhos já moravam. O bairro escolhido foi a Vila Nova Conceição, perto da casa de Ignacio e Odette e de Namá e Lucila. A mudança foi feita e Odette e suas cunhadas arrumaram a casa com tudo novo para recebê-los com o filho Joãozinho, que ainda morava com os pais. Tudo preparado para uma nova etapa de vida, em que receberiam atenção, carinho e cuidados daqueles de quem cuidaram durante suas vidas. 
O feriado de 7 de setembro se aproximava e Odette sentiu as dores na véspera. Como em outras vezes, sua cunhada Elza lhe acompanhou na ida ao hospital e Ignacio ficou em casa com Rosely. Às 20h15 de 6 de setembro, em uma quinta-feira, nascia a última menina da família – Maria Helena. O nome Helena foi em homenagem à sua futura madrinha – Helena Jardim Mattos, amiga e vizinha da família. 
O bebê era a atração dos primos e primas que se divertiam em dar banho e arrumar aquela menininha gordinha que nasceu quase sem cabelo e com grandes olhos claros, como as irmãs. Era chamada em casa por Lelena e, depois, desde sua infância, entre amigos, ficou conhecida como Lena. 

Uma nova matriarca para as futuras gerações
O final de 1956 foi celebrado com a volta definitiva das meninas Toy e Vera do colégio interno. Logo depois, com a casa nova toda arrumada, era a vez de Sebastiana e João com o filho Joãozinho se mudarem para São Paulo. As meninas visitavam sempre os avós e se divertiam com os primos em gostosos lanches preparados por Odette e suas cunhadas. 
Mas a asma que por toda a vida tanto incomodou Sebastiana tornou-se pior e ela precisou ser internada na Santa Casa de Misericórdia de Santos. A pequena Lelena, aos seis meses, ficou com seus padrinhos Helena e Mattos – ainda que seu nome fosse Francisco, ninguém o chamava assim. Na casa dos padrinhos, o filho Netinho brincava com a ruivinha Rosely quase todo dia. Gostavam tanto da companhia um do outro, que tiraram uns tijolos do muro entre as duas casas, para que pudessem conversar sem perder tempo entre entrar e sair de suas casas.  
Sebastiana voltou para casa, mas sem apresentar melhora. E, em seis de agosto de 1957, como fazia todas as tardes, Odette estava com ela. Deitada, magrinha como sempre foi em toda sua vida, olhou para a filha e perguntou: 
- Você não consegue me arranjar um médico, minha filha? 
Odette olhou para o quadro de Jesus que estava na parede e segurou o choro.
- Então, minha filha, é o fim, não é? 
- Minha mãe, a hora ninguém sabe. 
- Odette, como se morre?
- A senhora não se incomode com isto. Na hora, eu ensino a senhora.
- Então, está bem. Eu vou ficar tranquila e não vou me preocupar mais. Mas vou entregar meus filhos para você cuidar.
- Pode deixar, mamãe. Não se preocupe. Eu vou cuidar de tudo.  
E Odette ficou ali, depois de aplicar mais uma injeção. Poucas horas depois, sua mãe morria, dizendo:
- Odette, eu já vou, já vou, já vou...
E, assim, ela assumiu o papel da matriarca da família. Estava preparada e tinha Ignácio ao seu lado, que gostava da sua família. Quando as pessoas chegavam para almoçar ou jantar mesmo sem avisar ele ficava feliz. E acolhia quem precisava de abrigo. Foi assim com várias pessoas da família, em tempos difíceis. Foi assim em um período que o sogro João morou ali. De manhã, aquele que havia trabalhado tanto em fazendas, brincava com a neta Lelena no amplo quintal. Nas noites de sábado, se divertia com os bailinhos organizados pelas netas mais velhas e que reuniam as garotas e rapazes do bairro. Ele descia todo arrumado e cumprimentava um a um, contando sua vida no interior. As mães dessa turma se conheceram e se tornaram amigas por toda uma vida. Letícia, que tinha um loja de armarinhos na avenida Santo Amaro, recebia sempre a Vera, que era grande amiga de sua filha Edna. Celina, que morava perto, já tinha se acostumado com a presença da Toy, amiga de Valéria. E ainda tinha a casa de Ione, mãe de Stela, também grande amiga da Toy. Todas moravam no bairro e era comum passearem pelas ruas e pela avenida Santo Amaro. As compras eram feitas no centro da cidade, e ir a Mappin era programa de um dia inteiro!  

Novidades. Sempre. 
A família Miessva adorava novidades. Foi assim com a geladeira e com a chegada da televisão. Os filmes de Hollywood atraíam as meninas e quando Ignácio chegava do seu escritório de contabilidade, que ficava pertinho, em duas salas em cima do cine Radar, na Av. Santo Amaro, e via todo mundo chorando, costumava comentar com sua mulher na cozinha:
- Mas elas só choram, Odette? Será que na televisão não tem algo mais alegre? 
Depois do jantar, Odette costurava e ia dormir mais tarde. Toy e Vera estudavam no Liceu Eduardo Prado e Rosely no Colégio Nossa Senhora da Aparecida. Na época dos exames, todos se reuniam para ali estudar. Edna e o irmão Edson, Stella, Valeria. Quer dizer... quase sempre...
Vera Cecília sempre foi muito brincalhona e fazia uma boa dupla com Edna. Às vezes, na rua,   acenavam para um táxi. Quando ele parava, uma perguntava: 
- Está livre?
Claro que o motorista respondia que sim. E as duas respondiam, rindo:
- Então, viva a liberdade!
A vida por ali era mesmo agitada. Certo dia,  um senhor bateu na porta e Odette foi atender:
- A senhora não quer comprar uma perua?
Ao saber o preço, questionou o motivo de estar tão barato, ao que o senhor respondeu que o perú tinha morrido e ele ficado só com a perua. Então, comprou e colocou a perua no quintal, em uma parte do galinheiro. De tarde, seu irmão Zuza, que sempre passava lá para deixar frutas e legumes que trazia do sítio, chegou e foi logo olhar a perua.
- Mas, Odette, você comprou uma perua doente! Ela está com gogo.
- Ah, Zuza, se é isto, eu sei tratar. Aprendi na fazenda com mamãe. É só pegar cinza, misturar com limão e sal e passar na linguinha do bichinho. Depois pega a faca e puxa a pele da língua para sair o gogo. 
- Ah, então faz isto, que eu quero ver se resolve mesmo.  
Enquanto tratava a perua, pensava consigo que parecia mesmo que o pobre bichinho ia morrer. Na manhã do dia seguinte, escutou um piado diferente e lembrou da perua que quase tinha morrido! Ao chegar no quintal, lá estava a dita cuja, viva e forte. Mas não ficou muito por aí. Semanas depois, Zuza a levou para o sítio, trocando por três frangos. Depois, ele comprou um peru e fez uma criação. E de vez em quando, aparecia com um perú para Odette preparar e reunir irmãos, cunhadas e sobrinhos. 
Assim foi o início dos anos 1960 da família Miessva, permeado por certa ingenuidade, certa leveza no ar, pronta para o que desse e viesse. E essa força foi necessária nos anos seguintes que traria muitas mudanças.



As crianças iam no fotógrafo fazer books!


Rosely e Lelena esperando meia noite no Natal


As quatro na praia: Toy, Rose, Lelena e Vera






domingo, 21 de junho de 2020

Casamento de faz de conta - agora eu era o marido!


Entre o final dos anos 1940 e início dos anos 1960, a casa da Av. Santo Amaro, 347 marcou a vida de muitas pessoas na família e de amigos. Era um tempo em que as carnes e os frios eram comprados na Casa Prata, fundada por Rubens Caporal em 1949 que era um açougue, e logo se transformou em uma loja de delicatessen e depois como importadora de vinhos, uma quadra distante dali. Os pães eram buscados na padaria Los Angeles, do sr. Gonçalves, logo na esquina. 
As pessoas andavam pela avenida – hoje totalmente irreconhecível – para passear e fazer compras nas poucas lojas. E no início de 1957, surgiria ali perto uma loja trazendo um conceito americano de fazer compras – o supermercado Peg Pag – na rua Joaquim Floriano.
Foi também um tempo de muitas mudanças na família Miessva. Tempo em que Vera Cecília foi morar alguns meses com seus avós em Garça, quando tinha seis anos. Anos depois, a irmã Antonia Maria – a Toy – iria para o colégio interno também em Garça, de freiras alemãs – o Ginásio Santo Antonio. No ano seguinte, seria a vez da Vera Cecília ir também para o internato. E na distante Garça, as duas viveriam histórias divertidas e outras nem tanto. Como quando as freiras serviram cerveja para as alunas experimentarem. E como a maioria delas detestou o sabor, Toy tomou a cerveja de todas as colegas e subiu em uma mesa para fazer um discurso em seu aniversário prá lá de entusiasmado!  
Ou quando Vera colocou talco dentro da blusa e quando a freira chegou, ela bateu no peito e o talco voou para tudo quanto é lado! 
Tempo em que as cartas trocadas entre a mãe e as meninas eram lidas pela madre Sofia, superiora do colégio, que sempre acrescentava um comentário. 
A casa da Avenida Santo Amaro abrigou sobrinhos, sobrinhas, cunhadas, cunhados, que ali viveram por meses, em períodos diferentes. Esta sempre foi uma premissa da família Miessva – se um parente ou um amigo necessitasse de abrigo por um tempo, Ignacio ou Odette ofereciam um canto e todo mundo se ajeitava. 
Em uma destas vezes, o irmão Rui foi com sua mulher Tibi e o filho mais velho também chamado de Rui, mas com o apelido familiar Tuta. Depois dessa temporada, se mudaram para Perus, onde nasceria Ricardo – conhecido na família como Gracinha ou Graça. 
Também ali moraram o irmão Maximiliano – conhecido como Namá - e sua mulher Lucila, com o filho Max. 
Os encontros em família eram divertidos, mas, claro, em algumas ocasiões com brigas ao estilo um pouco espanhol de ser de Odette. Ainda que fosse divertida, solidária e prestativa, também era brava e às vezes não era nada fácil conviver com ela... 
Agora eu era marido
Enfim, sempre havia movimento, alegria e diversão. Como quando Namá, sempre brincalhão, vestiu um penoir preto de Odette para ser o padre. Na garagem, foi montado um altar com alguns móveis para ele fazer o casamento do Tuta e Rosely, primos que sempre brincavam juntos e que tinham a mesma idade - cerca de seis anos. 
Tuta entrou e ficou esperando Rosely que entrou de noiva, com um buque pequeno de flores. Todos cantaram a marcha nupcial e o Namá, depois do sermão tradicional de padre, sorriu e disse: “Então vocês estão casados, parabéns!” Em seguida, foi feito um lanche para todos. 
No final da tarde, depois de Namá e Lucila irem embora, foi a vez de Ruy, Tibi e Tuta se despedirem. E o Tuta, sério, virou para os pais e tios e disse que a Rosely também iria: 
- Afinal, ela é minha mulher, eu casei com ela!
Diante da negativa, começou a chorar, seguido pela Rosely. E continuou enfatizando: 
- Meu pai mora com minha mãe, tio Namá com tia Lucila, tio Ignacio com tia Odette. Eu casei com a Rosely, então tenho que levar ela para morar comigo. 
Os pais conversaram e acharam que seria melhor que a Rosely fosse junto para ficar uns dias em Perus. Mas, como eram pequenos e tudo na vida passa rápido, ela ficou chorando de saudades na casa dos tios, que logo, logo, tiveram que devolver a noiva do filho! 
A chegada do supermercado no bairro


                                                                                                          

Carta de Toy aos pais em 12 de maio de 1954.

domingo, 14 de junho de 2020

O charme de uma ruivinha na avenida Santo Amaro

Será que existem meninas assim?
Quatro anos se passam e nos primeiros meses de 1948, Odette fica grávida novamente e ganha de Ignacio uma caixa com bombons americanos. Na tampa, a figura de uma menina de cabelo bem vermelho com cachinhos e grandes olhos azuis. Ao olhar a caixa, ela comenta:
– Imagina se isto existe! Isto é propaganda americana. Não pode existir uma menina deste jeito!
Ela já tinha uma ruivinha, mas não era como a menina daquele desenho. Então colocou a caixa de bombons na cristaleira da sala, olhando sempre para aquela imagem. Em dezembro de 1948, dos dias depois do Natal, vai para o hospital com a cunhada Elsa, enquanto Ignacio fica com Toy e Vera, como lembra:
- Elsa foi fazer companhia para mim e então logo senti que a hora tinha chegado. Quando a Rosely nasceu, o dr. Barbosa disse brincando: eu quero esta menina para mim. É a coisa mais linda deste mundo! E ela era igual à figura da menina daquela caixa de bombons americanos!
Rosely tinha olhos azuis e cachos tão crespinhos que era preciso usar pentes bem grossos para pentear. E, como toda criança, não deixava porque doía muito. Quando muito pequena, Odette precisava colar as fitas com cola no cabelo e por onde passava, chamava a atenção. 
Certo dia, Rosely vestia um vestido de cambraia de linho azul, andando com sua mãe na rua Barão de Itapetininga, quando algumas pessoas pararam e pediram licença para colocar a mão no cabelo da menina para ver se era mesmo de verdade! 
Muito vaidosa desde pequenininha, sempre teve uma personalidade forte. Quando não gostava da pessoa, simplesmente nem olhava pela segunda vez. 
Mas, com três meninas (Rosely com meses e as meninas com cinco e seis anos), ficou difícil continuar morando no apartamento do Largo do Arouche, ainda que tivessem pertinho tudo o que precisavam. As maiores brincavam na escolinha da Praça da República, o atendimento médico gratuito era feito no Caetano de Campos, com acompanhamento quinzenal. Eles podiam ir ao cinema e deixar as meninas com um dos irmãos que moravam perto e que visitavam quase diariamente as sobrinhas, como recorda Odette:
- O Joãozinho ficava sempre com as crianças. E se eu comentasse que planejava sair com Ignacio, o Zuza e a Elsa iam para lá. Todos tinham paixão pelas meninas.
Ignacio tentou primeiro um apartamento maior no mesmo bairro, mas não deu certo. Naquela época, ele trabalhava na Casa dos Elásticos, na rua Líbero Badaró e fazia contabilidade da fazenda dos Barros, que moravam em Garça. Então, perguntou aos amigos e ainda via os anúncios que saíam no jornal O Estado de S. Paulo. Uma noite, voltou do trabalho e comentou com Odette que havia achado uma casa no fim da av. Brigadeiro Luiz Antonio, na Avenida Santo Amaro, número 347, que chamava a atenção pelo tamanho e se destacava naquela avenida com enormes árvores de flores roxas. 
Depois de visitada pelos dois, Ignacio foi tratar do aluguel com o proprietário na rua Boa Vista. Conversando, comentou que a família da mulher, Aguirre, era de Garça. Então, o proprietário enfaticamente respondeu que não só conhecia como era parente distante dos Aguirre e imediatamente fechou o negócio, reduzindo o preço do aluguel: “Ignacio, a casa é sua”. O fiador, Mariano de Carvalho Barros, comentou com o amigo Ignácio – “mas você nasceu virado para a Lua, esta casa é muito boa!” 
Na primavera, a avenida se transformava em um tapete roxo. Tinha um pequeno comércio e perto, ainda que fosse longe do centro e perto do parque Ibirapuera. 
A vida na Av. Santo Amaro
A casa era enorme, isolada de todos os lados. Branca, de tijolos à vista, tinha na entrada uma varanda onde as crianças patinavam quando ela era encerada (uma das brincadeiras da época). Na frente, um jardim com roseiras e árvores. Nos fundos, um grande quintal com parreira de uva e até um galinheiro – depois fechado quando proibiram que as pessoas em São Paulo tivessem criações. Havia ainda uma garagem, local preferido das meninas para brincar de casinha ou lojinha e que ficava ao lado do escritório de Ignacio, lugar considerado mágico para as meninas, com um canto embaixo das prateleiras com livros que nas brincadeiras se tornava esconderijo. 
Na mesa de trabalho, um abajur com uma lâmpada fluorescente, e na gaveta, o fumo de corda e a tesoura grande para ele fazer seus cigarros de palha. 
Na parte de cima da casa, ficavam os três quartos e uma sacada onde Rosely brincava na rede ou de escrever longas histórias em livros velhos de contabilidade. Depois, a varanda foi fechada com vidros e durante um período virou quarto da Verinha.  
Os primeiros vizinhos eram alemães e logo a falante Verinha fez amizade com eles, visitando-os sempre para tomar chá. Então, a casa ao lado ficou vaga e Helena e Francisco Mattos se mudaram para lá. Helena era sobrinha da cunhada de Odette e eles já se conheciam, se tornando amigos e compadres anos depois. Naquela casa da gostosa avenida Santo Amaro, onde moravam as três meninas, começava, naqueles primeiros anos da década de 50, amizades que iriam durar para o resto das vidas dos pais e delas. E estas amizades geraram histórias novas que logo, logo, serão contadas!  
Em 1952, a ida para Vila Nova Conceição