quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Preparo para novos rumos

1975 significou também uma oportunidade para a família se reinventar. Vera Cecília começou a deslanchar sua carreira como designer de interiores depois de curso focado em decoração e artes durante três anos na FAAP. Rosely e Lena ingressaram no Equipe, cursinho para vestibular que ficava no bairro de Bela Vista e era conhecido pelo seu foco em Humanas. Aulas noturnas após o trabalho e shows nos finais de semana como de Gonzaguinha e outros que faziam suas vozes serem ampliadas nos anos difíceis da ditadura. Na época, o primo Ricardo conhecido como Gracinha veio morar meses com elas para se preparar também para o vestibular.

No mesmo período, Rosely conheceu Luiz Carlos na Atlas Copco, onde trabalhava. Com seu jeito risonho e sempre disposto a ajudar, conquistou a todos desde o início do namoro.

Ano de 1976 marcou o ingresso de Lena e Rosely no curso superior. Rose entrou no curso de Terapia Ocupacional na Faculdade de Medicina da USP e Lena em Comunicação Social na FIAM, que ficava na Av. Jabaquara.  Logo após seu ingresso na faculdade, Lena fez novas amizades iniciadas nas aulas e no já existente grupo de teatro amador Alma. O trio de amigas Joyce, Jô e Lena, se uniu ao diretor Ivo e aos atores Miriam Martinez, Ismael e Denise. No time de apoio, Giacomo e suas fotos, Luciano e seu talento musical, Rui e Ari na sonoplastia e iluminação. Durante os anos que concluíam a década 1970, ao lado de outros colegas que se tornaram amigos do lado esquerdo do peito, formaram uma turma divertida e unida. Viagens para Minas Gerais, festivais de teatro em São Bernardo do Campo, apresentações no TUCA, acampamentos na praia Toque Toque e viagem para Santa Catarina. 


Grupo Alma na estreia na FIAM em 1976

Enquanto isto, Odette curtia netos que cresciam - Anna, Paola e Chris – e ainda ganhou André, Betina e Julia, filhos do segundo casamento de Peter com Ana Maria, principalmente nos finais do ano, quando chegavam com gostosos doces natalinos com sabor de gengibre que ela preparava e embalava com esmero.

A casa da família na rua George Ohm mantinha-se aberta. Nos aniversários, amigos e familiares chegavam animados para as reuniões, organizadas na sala e cozinha com extensão no quintal dos fundos da casa, com o toque especial de Odette que conseguia transformar tudo em um ambiente alegre.

Mas nem tudo era clima de festa. Ainda que Lena tenha conseguido crédito estudantil do governo federal para custear a faculdade particular e Rose fizesse traduções em paralelo às aulas diuturnas, o orçamento era curto. Então, Odette – que sempre tinha uma solução para os problemas apresentados pela vida, conversou com suas amigas e a solução veio rápido e de forma divertida. Ela tornou-se motorista de crianças, levando e buscando os seus ‘aluninhos’ como chamava, com o Fusca azul. Eram filhos de amigas e outros indicados, como os três japonesinhos que haviam perdido recentemente a mãe e as duas gêmeas que entravam bem cedinho - as sete da manhã. Logo montou um roteiro - de manhã, levava os pequenos do primeiro turno. Aí almoçava às três da tarde. Em alguns dias, quando era possível, Lena acompanhava e as duas se divertiam com o orgulho das crianças em mostrar uma autêntica avó esperando-as na porta das escolas. Talvez uma avó um pouco diferente das avós da época, um pouquinho mais moderna!

Em 1979, Rose e Luiz Carlos contaram que ela estava grávida e de gêmeos! Odette ligou para Irineia, mãe de Luiz Carlos, e as duas - de forma prática e rápida - combinaram os detalhes do casamento civil, celebrado em 13 de junho no salão de festas do prédio onde Luiz Carlos e a mãe residiam. De tarde, Vera fez a decoração do salão com muitas flores brancas. E, no início da noite, ao lado de amigos, primos, tios e tias – foi comemorada a união. 

Após o casamento, foram morar em São Carlos onde Rose conseguiu um emprego na Universidade Federal enquanto Luiz Carlos fazia agronomia em Piracicaba. A mudança, providenciada por Renê, irmão dele, foi feita com o apoio de sua avó Elisa e sua tia Zilda. Dias depois, Irineia, Odette e Zilda, lavaram toda a casa. A casa tinha um pé de romã e na frente  um jardim um pouco abandonado. Odette foi arrumar o jardim, observada por Irineia:

- Odette, está tudo muito bonito, mas não é para enfeitar, é para lavar!

Logo, logo, tudo estava preparado para a chegada dos gêmeos.

O nome Miessva passa para novas gerações

Em 25 de outubro, com diferença de poucos minutos, em São Carlos, nasciam os gêmeos Beatriz e Octávio Miessva Acerbi, filhos de Rosely e Luiz Carlos. Odette estava a postos para ajudar a Rose que nos últimos meses de gravidez não achava mais posição para dormir. Assim que nasceram, Vera e Lena foram avisadas e rumaram para São Carlos em uma viagem gostosa em que lembraram o passado – afinal, as duas juntas seriam tias novamente depois de 11 anos. Foram registrados com os sobrenomes Miessva e Acerbi. Assim, o sobrenome polonês abrasileirado passava para a terceira geração.

Nos dias seguintes, a rotina foi tomada por todas as atividades em dobro – dar banho, trocar e ajudar a Rosely nas tarefas. Octávio logo ganhou apelido – era o Tatá - e a Beatriz virou Bia. Depois dos primeiros meses, Lena, que estava temporariamente sem emprego, foi para São Carlos ajudar a jovem família. De manhã cedinho, levava os dois para a pracinha que tinha uma locomotiva. Na época, até tentou cozinhar – tinha aprendido a fazer suflê e entusiasmada, repetiu o cardápio em três noites – cada dia com um ingrediente diferente. Aí, Luiz Carlos, com seu jeito tranquilo, explicou para a cunhada que podia deixar o jantar por sua conta dele. Realmente, cozinha nunca foi o forte da caçula!


Tia Lena feliz com gêmeos Bia e Tatá

Chega mais uma princesa!

A família em São Carlos logo cresceu mais um pouco. No início de julho de 1981, chegava a Olívia, mais tarde conhecida como Olivinha. E lá foi Odette de novo para São Carlos. Olívia era uma criança sapeca e um pouco mais levada que os gêmeos... Tanto assim que ao engatinhar com nove meses, foi até a cozinha e bebeu detergente como se fosse mamadeira e precisou ficar internada um dia e meio!


Natal de 1981 com pequena Olívia e sua linda mãe


E, finalmente, chega o caçula da família!

Em 27 de agosto de 1983, nascia o caçula da família. Caçula dos netos e das tias Lena e Vera. E lá foi a Odette de novo para São Carlos. Dessa vez, ao chegar, Rosely já estava na maternidade e ela ficou com as crianças. Octavio e Beatriz contraíram catapora justo nesse dia. A família de Rosely e Luiz Carlos estava completa. Quatro filhos, quatro diferentes pilares – como costumava dizer Ignácio quando se referia às quatro filhas. A casa dessa família muito unida tornou-se um local sempre com muita alegria – crianças, brincadeiras, pizzas feitas por Luiz Carlos, acompanhadas de cerveja e muitas conversas na cozinha.



Enquanto isso, Christian crescia e tomava novos rumos morando por meses com tios nos Estados Unidos. Em São Paulo, Anna e Paola viviam as descobertas da adolescência com mudanças na família Rastelli.

 

 

  

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A caminho de dancing days

Os anos iniciais da década de 1970 marcaram mais chegadas para a família Miessva. Depois de Annamaria Rastelli, foi a vez de, em 22 de junho de 1973, receber a segunda filha de Vera e Enrico - a Paola, a nova ruivinha da família, com seus grandes olhos azuis.

Odette foi trabalhar com um corretor de imóveis, vendendo casas no Brooklin Novo, bairro que era cortado por ruas com nomes de estados norte-americanos, boas escolas estaduais e comércio com pequenas lojas e supermercados. Tudo se encontrava no bairro e, se faltasse algo, era só ir à rua Joaquim Nabuco, no Brooklin ou pegar um ônibus na Av. Santo Amaro para o centro da cidade. E foi no final da rua Arizona, perto de uma mata que fazia divisa com o rio Pinheiros, que ela encontrou uma casa germinada, nova, com pequena cerca branca e a frente com chapiscos em azul. Ignacio e Odette providenciaram a documentação para o financiamento em 15 anos e receberam sua casa própria - na rua George Ohm, número 320, abrigo de muitas histórias nas próximas décadas.  

Em alguns finais de semana, Anna e Paola ficavam com os avós enquanto Enrico e Vera faziam pequenas viagens. Algumas vezes, Christian também era trazido pelo pai para passar algumas horas e brincar com as primas Anna e Paola. Naqueles dias, a casa se tornava um pequeno parque de diversões sob os olhos dos avós e tias ‘corujas’.

A caçula Maria Helena, que passaria a ser mais conhecida como Lena, terminou os estudos no Colégio Beatíssima Virgem Maria e ingressou no ensino público, para cursar o então colegial no Colégio Estadual Oswaldo Cruz. Ali fez novos amigos, com quem passou a frequentar festivais estudantis de música e festas regadas a cerveja e violão. 

Aqueles anos também foram palco de várias viagens de carro para Odette e filhas para conhecer a Bahia e todo o sul do Brasil. Ignacio mantinha seu escritório de contabilidade em casa, e descansava em temporadas em Águas de Lindoia ou na casa da cunhada em Ribeirão Preto.

Durante dois anos, Lena namorou um rapaz baiano, alto, com cabelo enroladinho, que tocava violão e cantava com jeito todo especial. Com ele, Lena andava de ônibus por toda São Paulo, indo, por exemplo, ao cinema Bijoux nos sábados à noite para assistir filmes proibidos para sua idade. Eudaudo era seu nome e Dau seu apelido. Costumava conversar sobre política e expor suas opiniões sem grandes discussões, calma e comedidamente. Como nunca se sabe o que se passa na cabeça de pais de meninas, Ignacio se mantinha em silêncio quando o assunto era aquele namoro. Até que, certo dia, em um café da manhã, ele pergunta para a filha caçula onde estava aquele rapaz que ele via de vez em quando em casa... E ela responde imediatamente e brava que haviam decidido terminar o namoro. Então, o pai abriu enorme sorriso, se levantou para levar os pratos para a pia da cozinha e começou a cantar!

Em fevereiro de 1975, depois do Carnaval, Lena tinha saído com um rapaz que havia conhecido há pouco tempo e estava conversando no carro dele quando Mario, um dos seus amigos, cumprimentou e entrou em sua casa – como muitas vezes faziam - para conversar com Odette.

Minutos depois, Mario pede para Lena entrar e, na sala de visitas, ela recebe a notícia que seu pai havia falecido. As três – Odette, Rosely e Lena choram juntas e aquele rapaz, quase desconhecido, teve gestos de enorme gentileza. Para evitar a autópsia pois ele havia tido um infarto fulminante, seria necessário a declaração do médico cardiologista que o atendia. Então, ele foi na casa do médico com Rosely e, depois, com José Carlos, um dos sobrinhos do casal, auxiliou nos trâmites dolorosos, mas necessários. Na mesma noite, Lena e Rosely foram comunicar a notícia à irmã mais velha. Enrico abriu a porta do apartamento, colocou a mão na cabeça assim que soube e foi chamar Vera, que veio de camisola e desmaiou assim que soube da perda do pai. Foram momentos difíceis que serviram para mais uma vez mostrar que a união na família sempre se mostrou forte – cunhados, tios, primos, primas – todos se revezaram nos dias seguintes ao enterro em um apoio constante.

Odette em seus quase 59 anos, mostraria novamente sua  garra em manter a casa como lugar de abrigo a quem precisasse e de aconchego para ela e as filhas Rosely e Lena. Com Vera Cecília, lidaram com a perda de um homem especial que transmitiu valores como respeito ao próximo e ensinou a sabedoria de ouvir.

Com Ignacio, as mulheres Miessva aprenderam que a solidariedade e a atitude equilibrada em tempos adversos ou de bonança é o que faz a diferença nos relacionamentos e não necessariamente religião, status social ou a cultura aprendida em livros e cursos. Foi-se o mestre e ficaram as alunas, que seguiram seus ensinamentos.


Odette pintando portão em 1972                                 Ignacio em pose no corredor 

Christian, o bebê Paola e Vera com Anna em seu aniversário



quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Vidas novas com risadas contagiantes

Em 30 de novembro de 1968, a igreja de São José, no bairro Jardins, em São Paulo, estava lotada. Amigos, familiares, colegas de trabalho. Todos ali para celebrar o casamento de Vera Cecília e Enrico.  Vera ainda vivia um tempo de tristeza pela morte da irmã Toy, sua companheira de toda vida. Mas a data já estava marcada há algum tempo e não fazia sentido, segundo Enrico, adiar o que iria acontecer mesmo. Sempre prático e organizado, deve ter ficado nervoso na hora das alianças que esqueceu – seu irmão Gianpaolo tinha ido buscar, mas não chegava e a cerimônia avançava... Então, não teve jeito. Os primos dos grandes amigos Eli e Keila, emprestaram suas alianças, que serviram perfeitamente!

Um pouco antes do segundo casamento na família,  foi feita a mudança para a enorme e até um pouco desproporcional casa da Rua João Paes, no Brooklin Velho. Na parte de baixo, além das salas de visita e de jantar, e entrada da garagem para a casa, tinha um quarto e banheiro para Peter e Christian, duas salas de almoço, e no fundo, lavanderia e duas salas. A casa tinha entradas laterais pequenas e independentes. Em uma sala, foi montado o escritório de Ignacio e na outra funcionava o ateliê de costura de Odette.  Na parte superior, além do banheiro, havia dois quartos (do casal e da Rosely), e um quarto simplesmente desproporcional – 7 por 6 metros – dividido em quarto da Lena, quarto da Idalina e mais uma área de costura para Odette. 

Depois, a recepção para convidados foi oferecida na casa de Dino e Anna Maria Rastelli, na Av. Pavão, de onde Vera e Enrico saíram para o aeroporto de Congonhas rumo ao Rio de Janeiro – cidade que sempre esteve na mira da família e que viria a ser o lar de alguns, décadas mais tarde.


Casamento de Vera e Enrico

Vera trabalhava no laboratório farmacêutico Ciba Geigy, que ficava pertinho da casa dos pais. E aproveitava a hora do almoço para ver a família e ‘curtir’ o sobrinho. Tudo transcorria bem até um acontecimento trágico abalar e mudar sua vida. No primeiro semestre de 1969, os pais de Enrico sofreram um acidente de carro e sua mãe faleceu. Com 25 anos, Vera perdeu a amiga que tinha lhe  mostrado o mundo italiano e assumiu os quatro homens de sua nova família. E, em outubro daquele ano, ela pode entender um pouco mais a alma dos Rastelli, quando foi para sua primeira viagem para Europa com Enrico. Infelizmente, quando estavam em Roma, o avô de Enrico faleceu. Esse período foi difícil para Vera, mas atenuado pela esperada gravidez.

E foi assim que em 25 de novembro de 1970 chega à família uma bela menina com fartos cabelos pretos. Assim que avisados, Odette e Ignacio foram para a Maternidade e Hospital Santa Catarina. Quando chegou e viu o genro Enrico, Odette começou a chorar. Ele a abraçou e disse:

- Está tudo bem, dona Odette. Foi cesárea e elas estão bem.

Odette entrou no quarto florido e abraçou a filha:

- Ah Verinha, Deus te deu uma menininha!

- É, mãe! Ela vai se chamar Annamaria e o Enrico ficou tão contente!

Annamaria iniciou sua vida na família, sempre fazendo companhia ao primo Christian em muitas idas à casa dos avós e em visitas ao Club Pinheiros  com os pais ou tios. Naquela casa, Christian começou a engatinhar, dar seus primeiros passos e a vida - como sempre sábia - preparou a família para futuros ciclos. Como o próximo, quando chegou mais uma ruiva na família.



Anna em um dos domingos em casa, no colo da tia-madrinha Lena


domingo, 4 de outubro de 2020

 

Pausa para folego - Peço licença para conduzir o texto na primeira pessoa do singular, ainda que todas as pessoas do meu plural familiar tenham passado por aquele momento. 

Lágrimas em cada rosto. Uma dor de todos.

Nenhuma família gosta de perder pessoas amadas. A minha família não é exceção. Talvez a exceção tenha sido que em uma família com tantos tios, tias, primos e primas que cresceram muito próximos, a doença e a morte de uma jovem de 25 anos tenham sido muito mais que um choque. Muitos que conheceram a história depois, dizem que foi um trauma familiar. Não tenho dúvidas quanto a isto.

Vivíamos um tempo só com alegrias, casamentos, nascimentos dos filhos da segunda geração e a doença da Toy levou familiares e amigos a uma rotina de plantão de hospital – tínhamos três turnos de amigos, primos, tios, tias, que se dividiam para ficar com ela – durante um mês e meio no Hospital São Luiz e mais um mês e meio no Hospital das Clínicas. Todos a conviver com uma doença discutida por vários médicos sobre sua origem, mas nenhum com a solução. Uma doença que minava suas forças. 

Ignácio, meu pai, foi desmoronando aos poucos e só conseguia energia para lidar com o escritório e clientes por muita determinação.

Idalina, que tinha chegado alguns anos anos para trabalhar em nossa casa e já era da família, passou a cuidar do Christian, que também ia com minha mãe algumas tardes para o escritório. 

Em uma das conversas que tive com minha mãe, para escrever este blog-livro, perguntei de onde ela tirou tanta força naquela época. Ela, com aquele seu olhar vivo e firme, respondeu:

- Não sei, Lena. Eu tinha que reagir. Tinha o Ignácio, tinham as meninas, tinha você – uma garota de quase 12 anos.

Os parentes ajudavam, a equipe da Seara Bendita (casa espírita que frequentávamos) montou um esquema de turnos para nos ajudar também. Minha irmã Vera se fazia de forte quando ficava com a Toy, para sofrer muito depois. Afinal, trabalhava no laboratório farmacêutico Ciba, antes tinha trabalhado no Hospital do Servidor Público, entendia dos termos médicos e perguntava tudo para os colegas.

Minha mãe ainda exemplificou como se sentia:

- Um dia, ao sair das Clínicas, peguei um táxi na Av. Rebouças e pedi para o motorista encostar o carro e comecei a chorar. Aí ele me perguntou o que tinha e eu respondi - Me deixa chorar, senão eu enlouqueço! Minha filha está muito mal no hospital e não posso chorar em nenhum lugar.  E ele respondeu: Então, chora, dona. Chora tudo o que a senhora tem que chorar. Durante uma hora eu fiquei ali chorando. Cansei de tanto chorar.

Eu só vi minha irmã Toy durante sua doença uma única vez no Hospital das Clínicas – na época, havia restrição para entrada de crianças em visitas. Fui maquiada para parecer mais velha e precisei entrar sozinha. Até hoje, quando passo por ali, é difícil esquecer aquele dia. Acho que sempre fui melhor na escrita. Depois de sair dali, escrevi um bilhetinho (que guardo até hoje) que pedi para minha mãe entregar para ela, dizendo que estava torcendo para voltar logo para casa, para o Peter e para o Christian. 

Na véspera de 12 de outubro de 1968,  Peter foi dormir no hospital. Uma noite que, anos depois me contou, foi de muita conversa e orientações dela.  E, ao lado dele, Toy morreu.

Meu pai, ao receber a notícia, abraçou minha mãe e disse:

- A nossa Toinha se foi, Odette.

E abraçados ali eles ficaram um longo tempo.

O enterro foi na tarde do dia seguinte. Desnecessário dizer sobre toda a dor que uma família enorme como a nossa passou naquele dia. Até hoje, muitos primos mais velhos quando veem o Christian em alguma festa, acabam chorando, lembrando da sua mãe, que era uma das mais velhas da família. Quando sorri, ele lembra mesmo muito a mãe. Hoje, é um homem com três filhos maravilhosos. Mas estou pulando muito tempo. Vamos voltar a 1968.

Vera acordou no dia seguinte ao enterro e viu que mamãe estava na lavanderia, colocando a roupa na máquina de lavar. Perguntou se estava tudo bem e se ela precisava de algo. Odette olhou firme e respondeu:

- A vida continua. As pessoas precisam comer, trabalhar, viver. Vera, a vida continua.

E foi pegar o Christian no colo. Desde aqueles dias e durante toda a sua vida, o neto mais velho foi tratado por ela como um filho. O ‘filhão’.


Odette e Lena com Christian, na rua João Paes, para onde nos mudamos em 1968.  


 

 

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Chegada celebrada

Em dezembro de 1967, Ignacio e Odette completaram 25 anos de casados, celebrados com uma missa na Igreja São Dimas na Vila Nova Conceição. Depois, houve o almoço para as filhas na casa da Toy e do Peter, no Brooklin, na rua Pascoal Paes. Lena escreveu um texto para homenagear os pais e Odette recebeu do marido como presente um pequeno livreto, em que ele descreveu a sua jornada de vida como se fosse uma viagem de trem, lembrando ainda momentos especiais desde que se conheceram.

Ignacio e suas meninas

Naquele dezembro, certa tarde, Odette estava trabalhando no escritório do marido quando recebeu a visita da Toy. Sorrindo, ela entra com dois picolés, entrega um deles para a mãe ao abraçá-la e começa uma conversa animada:

- Mãe, eu tenho a melhor notícia que a senhora poderia ter na vida!

- Ora, Toy, o que é?

- A senhora vai ganhar o neto que tanto queria!

- Ah, Toy, mas que bom! E você está bem, minha filha?

- Sim, eu estou ótima! Eu fui ao médico e está tudo bem. O Peter está contente e eu estou muito, muito contente, mamãe!

- Então, você vai fazer tudo o que o médico mandar, está bem?

- Pode deixar comigo, que eu vou me cuidar.

Os meses passaram e a expectativa só crescia.  Em outra tarde, Toy foi ao escritório com um vestido de grávida bem curtinho. E sua mãe não deixou passar em branco sem um comentário!

- Toy, não está bem esse vestido curto, roxo, e você grávida! Não combina!

- Mamãe, você está muito fora de época! Agora, as grávidas usam estes vestidos soltos e curtos.

- Quero ver isto no inverno!

- Aí vamos pensar, né?

Junho chegou com frio e Toy continuou com bom humor, trabalhando  como secretária na Kibon até o final da gravidez. A escolha do enxoval também teve a participação da Odette. Juntas, foram em uma loja na Av. Santo Amaro e escolheram rendinhas para a manta de lã amarela, com bordados. E ainda muitos conjuntos de camisas tipo pagão em uma época sem os práticos macacões infantis ainda não tinham sido inventados.

Certo dia, Toy ligou para a mãe, comentando que teve um sonho e que seu filho se chamaria Christian. Peter, sempre brincalhão, dizia que o filho ia se chamar xaxim e trabalharia com orquídeas, como ele. Quando ela foi comprar o carrinho e o berço, pediu novamente a ajuda da mãe, que – direta como era - respondeu de bate pronto:

-   Olha, Toy, se você está pensando que eu vou ajudar a criar o seu filho, você está enganada!  Isso é sua responsabilidade.

Na loja, rindo, ela pediu para o vendedor ensinar a mãe a lidar com o carrinho azul, como se suspendia a capota dele e como se regulava a altura do berço.

Para celebrar um ano de casamento, Toy estava preparando uma festinha para família, mas não deu tempo. Na manhã do dia 7 de julho – exatamente um ano após o seu casamento, tocou o telefone na rua João Lourenço.  Ignácio atende e acorda sua mulher:

-    Odette, levanta, que a Toy já está no hospital com o Peter.

Eles foram para o Hospital São Luiz, ali perto. Peter estava sozinho na sala de espera e explica aos sogros que estava tudo correndo bem. Então, entra a enfermeira e dá a notícia: é um menino!

Odette começou a chorar e o Peter a abraçou, sorrindo e dizendo:

-   Fique contente, o Christian chegou!

Depois das visitas das irmãs e do tempo recomendado pelo médico, ela teve alta e foi para casa. Mas, uma semana depois, com febre alta, ela foi para a casa dos pais, para cuidarem do bebê e dar uma assistência mais próxima. De noite, teve uma forte crise de frio. A ambulância foi chamada e ela voltou para o Hospital São Luiz.

Após alguns exames, o médico chamou Peter e disse que o problema era grave. Os dias foram passando, com mais exames, médicos e visitas de todos da família. Certa tarde, Odette levou o Christian para Toy vê-lo. Na saída, um enfermeiro se aproximou dela e disse sério:

-   Dna, Odette, a senhora pode contar com a gente.

Nesta hora, ela teve a certeza que a situação da saúde da filha mais velha era mesmo muito grave do que todos pensavam.


 

 


domingo, 30 de agosto de 2020

Dicas de pai para filha caçula

A casa da rua João Lourenço marcou fortemente a vida da caçula da família, cujo apelido era Lelena e que viria décadas depois a ser conhecida como Lena. Aos 11 anos de idade, a seu pedido, o pai ensinou a dançar dois prá cá e dois prá lá e ela logo repassou os ensinamentos para meninas e meninos nas festinhas na casa da vizinha, sua amiga Silvinha. Ali, nos anos finais da década de 1960, os pré-adolescentes dançavam ao som das músicas de Roberto e Erasmo Carlos. Na garagem da casa, Lena brincava com a amiga de fazer entrevistas para a tevê, imitando Hebe Camargo - programa imperdível na televisão, que também transmitia os famosos festivas de música que reuniam as irmãs mais velhas na sala.

Assistir televisão era um dos programas compartilhados por Ignácio e Lena que assistiam juntos Perdidos no Espaço, Star Trek e Histórias do Sobrenatural. O outro programa preferido dos dois era ir ao cinema do bairro - no Cine Vila Rica ou no Cine Radar. Depois de caminharem três quadras a pé, pai e filha já estavam confortavelmente sentados. Claro, que nem sempre os filmes eram da escolha de Ignacio, que aproveitava então para dormir naquelas duas horas. E a volta era o que imperava nas caminhadas e passeios era o bom humor. 


Lena fazia as lições de casa ao lado da mãe, enquanto Odette costurava. Foi a mãe quem ensinou a caçula a ler em voz alta e a dar valor à pontuação, como dizia enfaticamente: 

- "Há diferença entre ponto e vírgula e vírgula. Então, quando você lê em voz alta, deve dar um tempo maior para a primeira pontuação e menor para a segunda. De novo, Lena". 

Quando Lena não estava na escola ou brincando com os amigos nas ruas do bairro, seu outro programa favorito era passar horas no escritório de contabilidade do pai. Ali, passou a gostar de mesas de escritório e suas inúmeras gavetas, do barulho da máquina de escrever, das conversas no telefone e da convivência com papeis. Aprendeu que cada documento tinha um lugar certo e que todos ali deveriam saber esse lugar, caso alguém faltasse exatamente no dia que o cliente pedisse o tal documento. Os escaninhos de madeira tinham etiquetas com os nomes dos clientes e em um canto nobre, havia a prensa, precursora do mimeógrafo, que abriu passagem para a fotocopiadora e as impressoras... Quando era preciso copiar o balanço mensal do cliente - datilografado em tinta azul, para o livro do cliente, entra em cena um método que nos dias atuais parece ser da idade da pedra. Pegava-se uma folha com gelatina branca impregnada em um papel grosso, passava-se álcool nessa folha de gelatina, esperava-se secar alguns segundos. Então isso era colado na folha que devia ser copiada e o livro era fechado. A prensa era movimentada por uma barra, que movia a rosca e o prelo. Depois de horas, o balanço estava copiado no livro. As lições no escritório foram aprendidas por todas as filhas, em suas épocas.

Modelo mais recente das prensas antigas

Lição profissional para a vida

Meses depois do casamento da Toy, Lena deixou de brincar de escritório e foi 'promovida' a office-girl , separando as notas fiscais para o registro dos balanços, guardando os livros nos escaninhos, atendendo os telefonemas e anotando recados. Certo dia, seu pai e chefe a mandou ir registrar um livro caixa na Secretaria Estadual da Fazenda, localizada no centro da cidade, perto da Praça da Sé.

E lá foi a jovem com seus quase 12 anos. Chegou no prédio, deu uma volta, perguntou para uma pessoa sobre a seção e nada de encontrar a dita cuja. Na sua lógica, uma vez que não tinha localizado a seção, nada mais natural que voltar para o escritório e explicar a situação.  E assim foi feito. Então, Ignacio ouviu a história toda, com a calma que caracterizou a convivência familiar, e respondeu:

- " Não há problema algum, filha. Amanhã, você vai voltar lá, vai conseguir achar a seção, registrar o livro e vai voltar para cá com a tarefa cumprida. Assim é que tem que ser feito".

Naquele momento, Lena recebia sua primeira lição de sobrevivência profissional: dizer que não conseguiu não é desculpa para nada. O importante é encontrar a solução para o problema e completar a tarefa.


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Preparativos para novas chegadas

 

Os preparativos para o casamento da primeira Miessva começavam a tomar forma, enquanto a rotina seguia, dividida entre trabalho, estudo e lazer. No Clube Pinheiros, Vera Cecília continuava aprontando ‘travessuras’, como quando em um baile de Aleluia, se disfarçou de ‘nega maluca’ – que era o hit da época. A ruiva mais velha da casa, de olhos claros, passou pasta preta no rosto e pescoço, vestiu meias e luvas pretas, colocou uma peruca de lã preta e foi brincar no salão, achando que não seria reconhecida! Enrico, fantasiado de homem da caverna, a encontrou no meio de tanta gente:

- Veruska, como você achou que não ia reconhecer você?!?

Naquele ano de 1967, Vera e Enrico também ficaram noivos em um jantar que reuniu as famílias Miessva e Rastelli. Annamaria, a mãe dele, tornou-se amiga de Odette, e Ignácio e o pai dele, Dino, costumavam conversar nos almoços de família e encontros no Pinheiros.

A organização do casamento de Toy com Peter acabou envolvendo todos. O casamento aconteceria na Igreja do Perpétuo Socorro. Odette e a amiga Jamile compraram o tecido para o vestido, mas a Toy queria uma cauda enorme. Por sorte, encontraram um vestido de noiva com cauda toda bordada a mão. Definida a grinalda, Toy escolheu um véu franzido cobrindo também a cauda. A gola também era toda bordada e as luvas brancas completaram o arranjo.

Os vestidos das irmãs Vera, Rosely e Lena foram feitos também por Odette e Jamile. Verde para Vera, azul para Rosely e cor de rosa para Lena. Tudo em tecido brocado ou cetim, preparados com o maior capricho.  Aí chegou a hora do ensaio em um dos sábados que antecederam o casamento. A amiga da família Celina, sempre elegante e delicada,  orientava Ignácio e Toy:

- Devagarinho, sr. Ignácio. Pé compassado, pé compassado.

Max, um dos primos, chegou na casa naquele momento em uma de suas constantes visitas às primas e ficou emocionado ao ver a Toy tão compenetrada. O brinde ao ensaio foi com o tradicional cafezinho.

A festa foi organizada para acontecer na casa da Rua João Lourenço. Os quartos se transformaram em salas – a dos presentes, a do bolo – e o jardim de inverno e todo o quintal foram abertos para receber cerca de 200 pessoas. Tios e primos vieram do interior paulista para celebrar. Amigos se prepararam com ansiedade para a data tão esperada. Na véspera, Vera chorou quase a noite toda pela separação. Toy entregou cartinhas para cada irmã e para seus pais, para serem abertas só depois do casamento. 

E chegou o grande dia – 07/07/1967.

No altar, ao lado de Odette, os amigos da família Ligia e Milton Jardim eram um dos casais de padrinhos. Pontualmente, às 20h00, Toy entrou na igreja decorada com flores brancas.

Odette estava nervosa para tudo dar certo. E quando viu o marido ingressar com a filha, ficou mais ainda e percorreu com o olhar toda a nave repleta de amigos e parentes. E, então, atrás de uma das pilastras, viu Eduardinho,  antigo namorado da filha mais velha por anos, chorar pelo amor perdido. A cerimônia foi gravada em um disco - o que era moda na época - em que se ouve um tímido e baixo 'sim' da noiva, após o vigoroso consentimento do noivo. 

Depois da bela festa, como era hábito, todos acompanharam os recém-casados em seus carros buzinando até o aeroporto de Congonhas, onde o casal tomou avião para Rio de Janeiro, onde iriam passar a lua de mel. Ao se despedir dos pais, Toy chorava muito. Odette abraçou a filha e disse:

- Mas, Toy, você vai passear com o Peter, em lua de mel, e vai se divertir muito, minha filha!

Quando o avião decolou, a mãe sentiu um arrepio de frio e não passou muito bem na volta para casa – talvez uma intuição que algo iria mudar – e muito – na vida da família Miessva. 


 As quatro Miessva na única foto das irmãs no casamento



Os recém-casados em uma das salas da festa


Na lua de mel, em um dos orquidários visitados em Petrópolis